Garimpando oportunidades

Entre temores de “2ª onda” e ânimo com estímulos na Bolsa, quais ações estão chamando a atenção dos analistas?

Aéreas, que tiveram rali desde final de março, são vistas com ceticismo por estrategista; já frigoríficos, como JBS, são oportunidades na visão de analistas

ações promissoras
(alexsl/Getty Images)

SÃO PAULO – Após um período de forte alta na bolsa brasileira, com o Ibovespa registrando ganhos de 53,60% entre 23 de março e 8 de junho em meio aos estímulos monetários e fiscais dos principais governos e bancos centrais pelo mundo e pela expectativa de reabertura das economias, a incerteza voltou a rondar nos mercados na última semana em meio aos temores de uma segunda onda de coronavírus.

Isso fez com que o benchmark da bolsa brasileira recuasse 5,40% em apenas 4 pregões, entre os dias 9 e 15 de junho, levando à queda justamente de ações que haviam se recuperado parcialmente durante o rali, caso de Azul (AZUL4), Embraer (EMBR3) e Gol (GOLL4) – as duas últimas com alta de mais de 200% entre 23 de março e 8 de junho -, mas que seguem em forte baixa no ano. EMBR3 tem queda de 56% no acumulado de 2020 até o pregão da última segunda-feira, enquanto Azul tem baixa de 61% e Gol tem queda de 46%, refletindo o impacto da pandemia do novo coronavírus em suas operações.

Porém, em meio a novos planos de estímulo à economia, principalmente nos EUA, a sessão de terça é novamente de alta para os ativos, reforçando a volatilidade que tem sido destaque nos últimos meses no mercado.

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Por outro lado, ações que registram um forte desempenho positivo no ano, caso de varejistas do e-commerce como B2W (BTOW3), Magazine Luiza (MGLU3) e Via Varejo (VVAR3), subindo forte durante o rali do mercado, também tiveram um dos melhores desempenhos durante o período de queda da bolsa durante a última semana. B2W viu seus ativos subirem 9,57%, acumulando alta de 62,11% no ano, enquanto Magalu avançou 5,56%, em valorização de 38,15% no acumulado de 2020; já as ações de Via Varejo subiram 6,69%, com alta de 39,84% em 2020.

Em meio a esse cenário, a pergunta que muitos investidores se fazem é se vale a pena comprar as ações que ainda estão caindo forte no ano, mesmo se à custa de maior volatilidade, ou se é melhor focar em ações das companhias consideradas “vencedoras” em meio à pandemia do coronavírus. Além disso, se há oportunidades ainda em outros segmentos além dos “extremos” na bolsa, tendo em vista um horizonte de investimento de médio a longo prazo.

Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora, destacou ceticismo com o setor aéreo, apontando que, apesar de haver possibilidade de ganhos de curto prazo com os papéis em meio à forte volatilidade do mercado, a situação das companhias segue preocupante com a forte redução do número de voos . “Pode haver ânimo através do pacote de ajuda do governo, mas não é um setor com um bom histórico”, avalia.

Já as ações vencedoras na crise, como empresas ligadas ao e-commerce, são vistas por ele como já precificadas. O movimento de forte alta foi justificado o movimento é justificado pela forte aceleração de curto prazo no crescimento das vendas on-line (GMV). “Elas saíram na frente por se tratarem de empresas muito sólidas; contudo, não vejo tantas oportunidades no segmento”, avalia.

Vale ressaltar que, no começo do mês, em meio ao forte rali das ações do setor, Bradesco BBI e XP Investimentos fizeram revisões nas recomendações para o setor. O Bradesco BBI reduziu a recomendação para os papéis de Magalu e B2W de outperform (desempenho acima da média do mercado) para neutro, apontando que o risco/retorno das ações do setor parece “mais equilibrado”, com alguns múltiplos de 2021 já acima das máximas históricas.

“Nosso rebaixamento para neutro é puramente motivado por valuation – continuamos a ver as duas como vencedoras a longo prazo e esperamos que ambas ganhem participação de mercado nos próximos anos”, explica o BBI.

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No caso de B2W, a XP também revisou seu cenário, apesar de manter sua recomendação neutra para os ativos (confira o relatório aqui). Os analistas se disseram “positivamente surpresos com a velocidade com que a empresa executou sua estratégia omnichannel desde o início da pandemia da Covid-19, expandindo a solução de ‘ship from store’ (entrega direto da loja) em todas as Lojas Americanas, além de cerca de 2.500 outras unidades de vendedores no Marketplace”. Por outro lado, os analistas esperam que a empresa alcance lucro positivo apenas em 2022 (contra 2021 projetados anteriormente), em função do aumento relevante das projeções de despesas financeiras.

A XP também revisou suas projeções para o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), rebaixando a recomendação para neutra, com redução de preço-alvo de R$ 100 para R$ 70 este ano. Durante o rali da bolsa, as ações PCAR3 registraram o segundo pior desempenho do Ibovespa (com queda de 6,79%), atrás de outra companhia do setor, o Carrefour Brasil (CRFB3, com baixa de 17,93%). Porém, vale ressaltar, entre o período agudo de queda da Bolsa durante a pandemia, entre 26 de fevereiro e 23 de março (baixa de 44% do Ibovespa), foram os ativos com maior resiliência, em queda de 18,47%.

Segundo os analistas, a empresa ainda deve ter um forte ritmo de crescimento de vendas no curto prazo, impulsionado pelo aumento do consumo básico das famílias e por um câmbio mais favorável na operação internacional do GPA. Por outro lado, a XP acredita que a visibilidade em relação aos resultados permanecerá reduzida, o que se deve a três fatores: um aumento mais gradual do que o esperado da rentabilidade da operação de varejo no Brasil; volatilidade na linha de “outras despesas”; e margens abaixo do esperado na operação da Colombia (Éxito).

Para a Via Varejo, o BBI destaca assumir ganhos de participação no e-commerce em 2020 e 2021, mas, em geral, uma participação estável depois disso. “Aguardamos a entrega de várias iniciativas nos próximos dois meses antes de assumir uma visão mais otimista”, explicaram os analistas.

Bancos e frigoríficos

Fora dos “extremos da bolsa”, um setor que vem chamando a atenção e apresenta boas oportunidades é o de grandes bancos, aponta Indech ao avaliar que, no ano, as baixas entre eles é de cerca de 30% para Santander Brasil (SANB11), Banco do Brasil (BBAS3) e Bradesco (BBDC3;BBDC4), enquanto o Itaú (ITUB4) tem queda de cerca 21% no ano (até o pregão de segunda-feira), o que ele considera injustificado.

O estrategista destaca que houve uma grande preocupação com o aumento da provisão por conta da pandemia do coronavírus, mas era algo que, de alguma forma, já era esperado em meio ao cenário bastante complicado para a atividade econômica por conta do coronavírus.

Além disso, pesou no desempenho das ações os temores de que o Congresso votasse projetos que elevaria a alíquota sobre a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e que colocasse teto sobre os juros do cheque especial (veja mais clicando aqui). Porém, as discussões sobre o assunto perderam força e, para ele, as ações ainda possuem potencial no médio prazo.

Por outro lado, o Goldman Sachs destacou ter agora maior cautela com o setor: os analistas avaliam que os grandes bancos estão bem preparados para enfrentar a crise, mas destacam que as ações negociam mais perto das médias históricas e os riscos aumentaram (citando justamente a potencial criação de um limite para as taxas de juros de cartões de crédito e impostos mais altos que, para eles, são pontos de tensão que não saíram do radar).

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Com isso, o rali recente e as estimativas menores para lucros levaram a valuations menos atrativos, particularmente para Itaú Unibanco e Santander Brasil, enquanto Banco do Brasil e Bradesco ainda têm espaço para subir, na avaliação dos analistas. Assim, Itaú teve recomendação rebaixada de compra para neutra e Santander Brasil, de neutra para venda. Sobre o Itaú, o Goldman reforça que o maior banco privado brasileiro possui valuation menos atrativo e maior exposição a cartões de crédito; além disso, o seu capital também está altamente exposto às variações cambiais, dado o alto nível de investimentos do banco no exterior.

Shoppings: selecionando oportunidades

O setor de shoppings, também fortemente afetado durante a crise por conta da parada das operações, também é visto com o otimismo no médio prazo pelo estrategista da Clear.

“Ainda vejo um curto prazo complicado, em meio à preocupação com a retomada da economia e com a mudança de hábito dos consumidores, que ainda não terão confiança de voltar aos seus hábitos normais”, avalia. Contudo, em meio à forte queda dos ativos, de cerca de 40% para os principais papéis do setor no ano, há espaço para recuperação no médio prazo em meio à retomada das atividades.

Em relatório (veja mais clicando aqui), a XP Investimentos elevou de neutro para compra a recomendação para as ações da Multiplan (MULT3) e rebaixou compra para neutro as da brMalls (BRML3), enquanto manteve compra para os ativos do Iguatemi (IGTA3) e Cyrela Commercial Properties (CCP – CCPR3).

“Em meio às incertezas na esfera econômica, nos tornamos mais positivos com nomes que operam portfólios mais defensivos, combinando maior exposição a um público consumidor mais resiliente e de renda superior com índices de produtividades mais altos”, afirmou, em relatório, a analista Bruna Pezzin.

Sobre a Multiplan a analista avalia que a queda das ações ao longo desse ano tenha aberto uma oportunidade interessante. Em relação à brMalls, enquanto os esforços da companhia para otimizar seu portfólio e estrutura de capital ao longo dos últimos anos de fato resultaram em níveis de produtividade e indicadores operacionais mais fortes, para frente a recuperação das vendas e da produtividade acontecerá em um ritmo mais lento.

Também em forte queda de sua ação no ano, de 42%, a Aliansce Sonae (ALSO3) foi apontada como a top pick do setor pelo Bradesco BBI. Após encontro com executivos do setor, os analistas reforçaram a visão de que nenhuma mudança estrutural importante deve ocorrer no setor, apesar do crescimento acelerado do comércio eletrônico.

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De acordo com Victor Tapia e Pedro Hajnal, que assinam o relatório do BBI, ao contrário do que se possa pensar inicialmente, o comércio eletrônico pode realmente ajudar os shoppings a aumentar as vendas a longo prazo, já que estes últimos já fazem parcerias com plataformas online. Além disso, espera-se que iniciativas inovadoras (como drive-thru e pick-up, ou retirar na loja) continuem em operação.

Já sobre o nome específico, os analistas avaliam que, dado o bom histórico da administração, as sinergias de fusões existentes devem ser alcançadas, embora o prazo possa ser estendido.

JBS e Marfrig: preferidas entre os frigoríficos

Também ganhando destaque entre as recomendações dos analistas, está outra ação que, mesmo subindo durante o rali da bolsa, teve um desempenho bem inferior ao do benchmark, com alta de cerca de 13%. Trata-se de JBS (JBSS3).

Indech aponta que a empresa está bem posicionada no setor e que, apesar da menor atratividade no curto prazo por conta das notícias de investigação da sua subsidiária nos EUA e com as operações afetadas por conta do coronavírus (veja mais clicando aqui) a demanda por proteína deve preponderar. Além disso, a receita do frigorífico é relevante em dólar que, ainda que abaixo de R$ 5, é um patamar em que a companhia pode se beneficiar.

O cenário positivo para a companhia também foi destacado pelo Itaú BBA que, em relatório chamado “Alimentando a China e os EUA: uma cartilha sobre proteínas, grãos e logística ferroviária brasileira”, retomou a cobertura para as ações do setor de frigoríficos, colocando a JBS como a preferida e fixando um preço-algo de R$ 31 para 2021.

“A JBS oferece um portfólio diversificado e é a nossa principal escolha”, destacando que essa diversificação ajuda a lidar com a volatilidade e incerteza do setor. Conforme destacam os analistas do banco, a dinâmica de diferentes segmentos pode se contrabalançar (por exemplo, menor demanda de carne bovina provavelmente se traduz em maior demanda de aves).

Além disso, o valuation da companhia é apontado como bastante atrativo, em um cenário em que ela continuará buscando construir seu portfólio por meio de fusões e aquisições (onde seu histórico tem sido muito positivo), quitar dívidas ou distribuir dividendos.

Com relação à Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3), os analistas também as veem como bons players, mas avaliam que a sua menor diversificação leva a uma elevação de risco. Para Marfrig e Minerva, os preços-alvo são de respectivamente R$ 18 e R$ 17. “A principal ressalva de nossa tese de investimento para a Marfrig é a incerteza sobre os spreads (de preços) dos EUA em 2022”, avaliaram os analistas do Itaú BBA.

Para a BRF, por sua vez, a recomendação é o preço-justo está em R$ 28 para 2021. “No mercado doméstico, no curto prazo, as taxas de câmbio mais elevadas devem se traduzir em custos mais altos dos grãos, o que provavelmente reduziria as margens a depender da capacidade da empresa em repassar para os preços.”

Também para o Bradesco BBI, a JBS é a principal escolha do setor. “Esperamos ajustes para baixo nas previsões para o fornecimento global de proteínas nos próximos meses e os preços dos animais sob pressão como fatores positivos do setor”, afirmam os analistas. A JBS, apontam eles, tem operações em sua maior parte não integrada s(cerca de 65% da receita) e, portanto, provavelmente se beneficiará
da perspectiva de preços mais altos da carne / custos mais baixos da pecuária, possui o balanço mais forte da setor, protegendo contra os desafios do COVID-19 e as ações estão sendo negociadas a um valuation atrativo.

“Mantemos nossa recomendação neutra para a Marfrig, pois gostaríamos de ter mais clareza em relação à desalavancagem / melhor geração de caixa, e para a BRF, pois estamos preocupados, pela
possibilidade de possíveis reduções no abate (uma vez que está totalmente integrado)”, afirmam.

A Marfrig, por sua vez, é a top pick do setor para o Credit, que também possui recomendação equivalente à compra para JBS, destacando também as fortes participações no mercado americano que, apesar de um segundo trimestre volátil, ainda tem expectativa de ser bastante positivo.

“As nossas projeções nos levam a acreditar que temos grandes chances de ter o melhor trimestre da história para as empresas de proteínas americanas na nossa cobertura”, avaliam. Os analistas apontam que as operações das companhias brasileiras possuem uma boa combinação de capacidade de utilização instalada acima dos pares, são beneficiadas com a queda do real e também ganham com os maiores spreads em meio à alta de preços com a redução da produção no geral, devendo ofuscar os maiores custos trabalhistas e despesas relacionadas ao coronavírus.

Petrobras e Vale: alta das commodities no radar

Ainda entre as empresas ligadas a commodities, Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos, destaca otimismo com a Petrobras (PETR3;PETR4) e com a PetroRio (PRIO3), ação que consegue registrar alta no ano, de 1,33%, em meio a uma forte recuperação durante o rali (com ganhos de 214,5%, segundo dados da Economática), apontando para o seu caixa forte. “Com essa busca por um equilíbrio entre oferta e demanda no petróleo, somos otimistas com essas petroleiras”.

Já sobre Petrobras, ele ressalta o resultado do primeiro trimestre, que animou os analistas apesar do prejuízo histórico. “O resultado operacional foi muito positivo, o impacto foi mais dos resultados financeiros, por conta de operações com derivativos e queda brusca no preço do barril do petróleo. A Petrobras desde 2016 é uma outra empresa, mais voltada a gerar lucro com uma operação mais enxuta. Devemos ter uma normalização se continuarem os cortes [de produção], avalia.

Carvalho também avalia que as empresas ligadas a minério de ferro também são fortes. “Há a avaliação recorrente de que o minério não seja sustentável acima de US$ 100, mas os governos devem aumentar seus gastos. Quando a China estimular sua infraestrutura isso deve fortalecer ainda mais o minérios.  Além disso, as empresas de siderurgia não recuperaram os níveis pré-pandemia – aços planos e longos devem ganhar com isso”, aponta.

Sobre a preocupação com o impacto operações da Vale (VALE3) em meio ao aumento das contaminações da população brasileira com o coronavírus, a Fitch Ratings aponta que haverá uma queda na produção de minério de ferro no Brasil, mas que deve afetar apenas ligeiramente o fluxo de caixa da Vale e de outras mineradoras internacionais, devido aos preços mais altos da commodity. A produção da companhia caiu mais de 10% na semana retrasada, após a Justiça suspender as operações do Complexo de Itabira em decorrência de resultados positivos de testes de coronavírus entre os funcionários da companhia, destaca a agência de classificação de risco.

A Vale manteve sua meta de produzir entre 310 milhões e 330 milhões de toneladas em 2020, mas a expectativa é de que seja cada vez mais difícil para ela atingir esses números. Segundo a Fitch, questões Ambientais, Sociais e de Governança (ESG) significativas, particularmente as referentes à execução da estratégia e manutenção do bem-estar dos funcionários, limitam os ratings de crédito da Vale a ‘BBB-‘ (BBB menos), com perspectiva estável.

“No entanto, a empresa tem baixo custo de produção, liderança de mercado, reservas abundantes e minério com alto teor de ferro — o que gera prêmios —, reduzindo, assim, as implicações de crédito”, afirma.

Já com relação à Petrobras, o Santander apontou, em relatório após conversa com o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, que a recuperação da companhia pode ser rápida, em “J”, por conta da expectativa de alta da demanda vinda da Ásia e com a política de corte de custos e venda de ativos.

De acordo com o analista Rodrigo Almeida, o crescimento da demanda, a elevação da produção e a utilização da capacidade da refinaria tornam a empresa preparada para enfrentar um ambiente de preços do petróleo de US$ 25 o barril no ano. “A Petrobras continua sendo nossa principal recomendação no segmento”, avalia.

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