Interferência no radar

Como a Petrobras passou de estatal promissora para investimento nebuloso e de alto risco em poucas semanas

Primeiros sinais começaram em meados de janeiro, mas foi em fevereiro que aversão ao risco tomou conta dos investidores com a estatal

Logo da Petrobras em tela de celular
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Depois de um começo de ano bastante promissor, com os ativos chegando a superar os R$ 31 entre os dias 7 e 8 de janeiro em meio à continuidade dos desinvestimentos e perspectiva de normalização do mercado de petróleo após o turbulento 2020, as últimas semanas foram de grande mudança para quem tinha uma perspectiva positiva para as ações da Petrobras (PETR3;PETR4). Isso levou a uma queda de quase 30% para as ações da companhia apenas nesse período, considerando os ativos PETR4 (e com uma baixa acumulada de mais de 20% em 2021).

E foi justamente a normalização das cotações do petróleo após a forte queda em 2020, com o WTI e o brent voltando para a casa de US$ 60 o barril (além da valorização do dólar), que trouxe de volta à tona uma questão que sempre assombrou a estatal, mas que não tinha aparecido tanto até o início deste ano: a paridade de importação.

Em meados de janeiro, alguns sinais de que a companhia praticava preços domésticos abaixo dos níveis de paridade de importação começaram a gerar alertas em entes do mercado. Notoriamente, a Associação Brasileira dos Importadores Independentes de Combustíveis (ABICOM) entrou com uma reclamação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) na ocasião alegando que a Petrobras estaria praticando preços predatórios de combustíveis nas refinarias, abaixo dos níveis de paridade de importação, com a companhia reajustando os preços menos do que o suficiente.

Ao mesmo tempo, notícias sobre articulação para a greve dos caminhoneiros em meio à reclamação do preço do diesel, entre outras questões, chamaram a atenção dos investidores e levaram a um aumento da cautela com relação à companhia. Porém, na ocasião, analistas de mercado reiteraram a confiança com a tese de investimentos na estatal.

Foi em fevereiro, contudo, que o noticiário negativo dominou, fazendo com que diversos analistas revisassem suas teses de investimentos e levando a uma queda de cerca de 19% para os papéis ON apenas no acumulado do mês. Assim, em poucas semanas, ela passou de uma companhia com um cenário promissor para voltar a ser uma estatal nebulosa para os investidores em meio ao noticiário de maior interferência.

O começo do mês foi turbulento em meio à polêmica sobre a revelação da política de análises de preços da companhia, informação esta vinda à tona pela Reuters. A agência informou que a empresa tinha ampliado o período de apuração do resultado da política de preços de combustíveis em relação à paridade internacional de três meses para um ano, gerando muitas dúvidas sobre o impacto desses parâmetros de reajustes no resultado da empresa. Isso suscitou uma onda de revisões de recomendações para baixo para as ações da companhia. Mas a turbulência maior ainda estaria por vir.

A princípio, no dia 18 de fevereiro, houve um certo alívio no mercado quando a Petrobras anunciou um reajuste de 15% no preço do diesel e de 10% na gasolina, uma vez que o “gap” ante os preços praticados externamente diminuiria.

Contudo, esse reajuste também suscitou diversas reclamações por parte do presidente Jair Bolsonaro. Em sua live semanal no mesmo dia, o presidente voltou a criticar a companhia. Ele afirmou na ocasião que não iria interferir na estatal, mas disse que “alguma coisa iria acontecer nos próximos dias”, sem deixar claro o que seria feito (o que ficaria mais claro nas outras sessões).

O presidente ainda criticou expressamente falas anteriores de Roberto Castello Branco, CEO da Petrobras. Dias antes, o executivo havia dito que a ameaça de greve de caminhoneiros não era problema da Petrobras.

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No dia seguinte, marcado por bastante tensão no mercado, o governo anunciou após o fechamento do pregão a indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para o lugar de Castello Branco no comando da Petrobras, o que levou a mais uma onda de cortes de recomendações para as ações da empresa em meio aos sinais de interferência estatal. Na sessão seguinte (segunda-feira, 22 de fevereiro), as ações PETR3 fecharam em queda de 20,48%. Somada, a perda de valor de mercado para a Petrobras nas sessões entre sexta e segunda-feira foi de R$ 102 bilhões.

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Em meio à forte volatilidade, as ações até registraram uma recuperação expressiva na terça-feira (23), com alguns analistas destacando que ainda era cedo para saber como seria a gestão de Silva e Luna à frente da estatal e também com notícias que apontavam que as finanças da Petrobras poderiam não ser impactadas tão severamente em caso de maior controle de preços caso outras políticas fossem adotadas (como no caso de fundos de estabilização, entre outros).

De qualquer forma, as ações PETR3 e PETR4 se tornaram ainda mais sensíveis a quaisquer declarações políticas, principalmente vindas de Bolsonaro.

Na noite do dia 24 de fevereiro, a Petrobras divulgou o seu resultado do quarto trimestre e do consolidado de 2020. O lucro no quarto trimestre de 2020 foi de R$ 59,89 bilhões, sendo o maior da história das empresas de capital aberto brasileiras, com os números bastante elogiados pelos analistas.

Quebrando o silêncio, Castello Branco participou da sua última teleconferência como CEO da Petrobras com uma camiseta com a frase “mind the gap”, que significa “cuidado com o vão” e é usada em estações de metrô em cidades de língua inglesa para alertar os passageiros sobre o vão entre o trem e a plataforma. “Gap” também pode se referir a intervalo ou à defasagem entre duas coisas, o que muitos entenderam como um recado para Bolsonaro em meio ao aumento da disparidade dos preços de combustíveis praticados pela Petrobras em relação à cotação internacional.

Ao ser questionado sobre os dizeres na sua camiseta, ele afirmou que ‘mind the gap’ foi o lema adotado pela diretoria da Petrobras na elaboração do planejamento estratégico da empresa. O compromisso era “fechar o gap/vão” que separa a Petrobras dos seus pares internacionais.

Vale ressaltar que, mesmo com os números positivos da estatal, as ações tiveram uma nova sessão de queda no pós-resultado. Um dos motivos foi a afirmação de Bolsonaro em discurso que todas as estatais precisam cumprir uma função social e que “não se pode admitir um presidente de estatal que não tenha essa visão”. Ele ainda afirmou ainda que o general Joaquim Silva e Luna daria uma nova dimensão à empresa.

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“Na nossa visão, a fala colabora para uma maior percepção de risco para as ações da Petrobras, principalmente no que diz respeito à manutenção de uma política de preços de combustíveis alinhada com referências internacionais de preços de petróleo e câmbio”, apontou a XP Investimentos.

Posteriormente, outras polêmicas passaram a envolver a estatal. Para citar apenas as da última semana, cinco conselheiros da companhia pediram para não terem os seus mandatos renovados, sendo que dois deles manifestaram insatisfações com interferências na estatal. Essas renúncias também geraram incerteza também sobre o processo de condução de Silva e Luna ao comando da companhia (veja mais clicando aqui).

Também nos últimos dias, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu processo para investigar uso de informação privilegiada nos negócios com ações da Petrobras (PETR3;PETR4), no episódio envolvendo anúncio da troca no comando. A suspeita de que alguém pode ter lucrado R$ 18 milhões com o vazamento de informações sobre o que ocorreria na estatal vieram à tona no início da semana e mexeram com os ânimos do mercado, além de aumentarem ainda mais a desconfiança sobre a estatal.

A CVM já abriu seis processos para investigar diferentes assuntos ligados ao episódio de mudança de CEO, entre eles o motivo de a empresa não ter divulgado fato relevante previamente sobre o assunto, a reclamação de investidor de ingerência do acionista controlador e não submissão prévia da proposta do governo ao conselho de administração da empresa.

Além disso, na reta final do mandato de Castello Branco (que ficará no cargo de CEO até dia 20) a continuidade da alta do petróleo no mercado internacional fez com que a companhia elevasse os preços dos combustíveis novamente no começo da semana. Isso levou a uma reação irônica de Bolsonaro em fala a apoiadores: “Gostaram do novo aumento da gasolina?”

Cabe destacar ainda que o preço do petróleo registra novas sessões de alta entre quinta e sexta-feira  depois que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) aprovou a manutenção dos níveis de produção de commodity em abril iguais aos de março, o que significa extensão dos cortes na produção. O brent, referência internacional, já se aproxima da casa dos US$ 70 o barril. Sérgio Araújo, presidente da Abicom, avaliou que a Petrobras não teria como evitar um novo aumento de combustíveis depois da decisão do cartel. Segundo análise da Ativa Investimentos, a defasagem da gasolina está em 15%. Porém, ainda há muitas incertezas sobre a política de reajustes, principalmente com a gestão Silva e Luna.

Em meio a tantas polêmicas, diversas casas de análise recomendam ficar longe do papel, como é o caso da XP, Bradesco BBI, Credit Suisse, entre outros, que agora recomendam venda para os ativos.

Por outro lado, cabe ressaltar: alguns bancos ainda recomendam a compra para as ações, enquanto algumas gestoras aproveitaram a queda brusca para elevarem a participação no papel (veja mais clicando aqui).

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O Goldman Sachs, por exemplo, manteve nesta semana recomendação de compra para os papéis em razão do valuation atrativo e por apontar que o corte de impostos para diesel e gás de cozinha – e que afetou o setor de bancos e Braskem (BRKM5) em contrapartida – pode ser uma alternativa para reduzir os preços ao consumidor final.

Contudo, apontaram, os riscos para a estatal aumentaram de forma significativa nas últimas semanas, após o descontentamento do governo federal com a política de preços da companhia.

Assim, mesmo aqueles que estão mais otimistas também mostram cautela com o ativo, com os investidores monitorando o desenrolar dos processos na CVM, a convocação de Assembleia Geral Extraordinária (AGE) por parte da Petrobras para a escolha de um novo Conselho de Administração e também como se dará a condução de Silva e Luna ao cargo de CEO.

“Os próximos capítulos serão fundamentais para entendermos para onde vai a Petrobras. Precisamos saber quem serão os substitutos para os conselheiros (que deixaram a estatal) e se Silva e Luna realmente ficará no cargo”, destacou Ilan Arbetman, analista de Ativa Investimentos, ao Broadcast, apontando o clima de cautela com a companhia. “É complicado agir no calor do momento. É necessário saber se haverá continuidade das políticas praticadas hoje pela estatal. Ainda não temos clareza.”

De qualquer forma, as ações da companhia se tornaram mais suscetíveis a declarações de políticos e também a especulações e rumores de mercado, o que reflete na recomendação dos analistas para a ação da companhia. De acordo com compilação da Refinitiv, de 9 casas que cobriam o papel PN da estatal, 8 tinham recomendação de compra e apenas 1 tinha recomendação neutra. Já nesta sexta, 4 recomendam compra, 2 têm recomendação neutra e 3 de venda.

Conforme destacou o Bradesco BBI em relatório em que reduziu recomendação para o papel, os acontecimentos das últimas semanas levaram a uma série de perguntas que permanecem sem resposta e que adicionam riscos ao caso de investimento da Petrobras.  Dentre elas: (1) Qual será a nova política de preços de diesel da Petrobras?; (2) Os recentes reajustes no preço do diesel podem ser revertidos? e (3) A Petrobras continuará a buscar ativamente a venda de refinarias em um ano pré-eleitoral? As perguntas ainda podem demorar para serem respondidas – enquanto isso, cautela deve guiar os investimentos com a estatal.

(Com informações da Reuters e do Estadão Conteúdo)

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