Análise de resultados

Banco do Brasil (BBAS3): resultado do 4º tri divide analistas, mas guidance ambicioso anima; ação fecha em alta de 4,74%

Surpresa positiva ocorreu principalmente por melhores ganhos de tesouraria, menores provisões, maiores receitas de
tarifas

Por  Lara Rizério, André Cabette Fábio -

Depois das decepções com os números do Santander Brasil (SANB11) e do Bradesco (BBDC4) e com a surpresa positiva com o Itaú (ITUB4), o Banco do Brasil (BBAS3) divulgou seus números do quarto trimestre de 2021 considerados positivos, mas que ainda assim trouxeram pontos que dividiram os analistas de mercado.

Contudo, as projeções para 2022, consideradas ambiciosas, mas que também mostraram pontos fortes do banco, trouxeram perspectivas mais positivas e animaram as ações. Com isso, as ações BBAS3 abriram em alta forte, chegaram a saltar 6,44%, a R$ 35,70, fechando em alta de 4,74%, a R$ 35,13. 

Para o Morgan Stanley, o guidance (projeções) para 2022 parece forte, mas os resultados do quarto trimestre de 2021 nem tanto, enquanto o Bradesco BBI também destacou ver números mistos. Já para o Credit Suisse e para a XP, os números do último trimestre do ano passado também foram positivos, destacando ainda os pontos positivos para este ano.

O banco estatal registrou lucro líquido ajustado de R$ 5,9 bilhões no quarto trimestre do ano passado, um desempenho 60,5% superior ao reportado no mesmo período de 2020. O consenso do mercado era de um lucro de R$ 4,78 bilhões, segundo os analistas consultados pela Refinitiv. Em 2021, o lucro ajustado foi recorde em R$ 21 bilhões, um crescimento anual de 51,4%.

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O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) foi de 16,6%, ante 14,3% no terceiro trimestre de 2021 e 12,1% no quarto trimestre de 2020, com tendências mistas para o resultado com intermediação financeira (NII), avalia o Bradesco BBI.

A surpresa positiva ocorreu principalmente por melhores ganhos de tesouraria, menores provisões, maiores receitas de
tarifas e uma alíquota efetiva de imposto mais baixa, mas foram parcialmente compensadas por uma margem de crédito fraca e despesas operacionais mais altas, apontam os analistas do BBI.

“Destacamos que a Previ apresentou mais um resultado relevante, sustentando também o forte lucro líquido recorrente do trimestre”, avaliam. Além disso, ressaltam ser importante ressaltar que os índices de cobertura (que representa a proporção que a provisão para risco de crédito é capaz de cobrir os créditos inadimplentes) e inadimplência do banco permaneceram em níveis saudáveis, mostrando uma carteira menos arriscada.

A XP aponta que a inadimplência continuou caindo, atingindo 1,75% (o menor entre os pares). Apesar do provisionamento marginalmente menor no quarto trimestre de 2021, seu índice de cobertura aumentou para 325%, o maior do setor, “o que consideramos positivo e coerente com o perfil defensivo de sua carteira”, avalia.

Para os analistas da casa, o Banco do Brasil apresentou resultados positivos. “Apesar da margem financeira bruta (MFB) mais fraca do que o esperado, as maiores receitas de serviços, menores despesas operacionais e custos de crédito compensaram a MFB, resultando em um lucro líquido de R$ 5,9 bilhões no trimestre, superando nossas estimativas. Além disso, o perfil defensivo de sua carteira de crédito continua sustentando seu baixo índice de inadimplência e robusto índice de cobertura”, destaca.

Com isso, reiteraram a visão positiva para o Banco do Brasil, sendo o papel favorito da XP no setor, com preço-alvo R$ 52 por ação, ou potencial de valorização de 55% em relação ao fechamento de segunda-feira.

Já para o Bradesco BBI, os resultados foram mistos, apesar do lucro superando as estimativas. Do lado positivo, os ganhos de tesouraria surpreenderam, apesar da contração trimestral impactada por uma base de comparação mais dura no terceiro trimestre.

Além disso, as provisões diminuíram e o índice de cobertura do banco ficou estável, traduzindo-se em tendências saudáveis ​​de qualidade de ativos na carteira, enquanto também observou-se um desempenho positivo de tarifas no último trimestre do ano.

Apesar disso, a margem de crédito do banco ainda foi impactada por maiores custos de captação, demonstrando desafios no processo de reprecificação de sua carteira de crédito, enquanto as despesas operacionais ficaram acima da estimativa dos analistas do banco.

Por sua vez, observam que os resultados da Previ continuaram em um patamar forte, o que, aliado a uma alíquota efetiva mais baixa, sustentou o resultado superior às estimativas do BBI e ao consenso. Os analistas seguem com recomendação neutra para o papel, ou preço-alvo de R$ 38 (upside de 13%).

O Morgan Stanley destacou que o lucro líquido ficou bem acima das estimativas, mas a maior parte do crescimento sequencial e da surpresa positiva foi devido a impostos efetivos mais baixos e “outras receitas operacionais” anormalmente altas. Excluindo estes, o lucro antes dos impostos foi de R$ 8,997 bilhões, queda de 6% na base trimestral e ficando 6% abaixo das estimativas. Contudo, a recomendação para os ativos segue overweight (exposição acima da média do mercado) com preço-alvo de R$ 57, ou avanço de 70% em relação ao fechamento da véspera.

Já o Credit Suisse aponta que os resultados e o guidance reforçam a visão de ambiente de receita líquida de juros forte e qualidade de ativos controlada para o BB, destacando também o controle de custos.

Guidance ambicioso

Como mencionado pelo Credit, além do resultado, o BB também divulgou seu guidance (projeções) para o ano de 2022. O destaque ficou para o robusto crescimento da carteira de crédito de 8% a 12% impulsionado pelos empréstimos de varejo e rural, o que a XP avalia que pode ser desafiador considerando o cenário macroeconômico mais deteriorado.

O BBI também destaca a projeção de lucro líquido na faixa entre R$ 23-26 bilhões, bem acima da estimativa dos analistas da casa e do consenso da Bloomberg de R$ 20,5 bilhões e R$ 20,8 bilhões, respectivamente.

“Embora reconheçamos que o lucro líquido recorrente implícito no guidance para 2022 está bem acima da nossa estimativa, é importante notar que os ganhos de tesouraria são uma variável importante para suportar a faixa de crescimento do NII consolidado esperado de 11-15%, enquanto uma melhora no a margem de crédito ainda depende da capacidade do banco de reprecificar seus empréstimos a taxas mais altas. Dito isso, dado o guidance ambicioso, acreditamos que os resultados do quarto trimestre de 2021 devem ser bem recebidos pelo mercado”, apontam.

O Itaú BBA ressaltou que com a inadimplência caindo no trimestre, a cobertura aumentandou e os índices de eficiência melhorando, isso define o clima para o guidance de 2022 crescimento do lucro líquido, entre 10% e 24% na base anual. O BBA segue com recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para a ação, com preço-alvo de R$ 41,73 (upside de 24,42% frente o fechamento da véspera).

O Credit ressalta que, no ponto médio, o lucro do guidance implica em um crescimento de 17% na base anual, impulsionado por 13% de avanço de NII e levando a um número 17% acima do consenso.

O banco suíço projeta que,  daqui pra frente, deverá haver uma grande quantidade de revisões de lucros e também que o ambiente positivo de NII e lucro deva continuar ao longo de 2023, o que aumenta a confiança dos analistas para uma projeção de lucros de R$ 26,6 bilhões para 2023. O número está 20% acima do consenso e os analistas ainda enxergam um valuation muito descontado, mesmo se considerarmos o ponto médio do guidance.

Neste cenário, os analistas do Credit veem o BB negociando a um múltiplo de 3,9 vezes o preço sobre o lucro esperado para 2022, nível bastante similar a 2015-2016, quando o Brasil estava em uma situação de crédito bastante complicada. Atualmente, avaliam, o BB se encontra em uma posição muito melhor e mais capitalizado, reiterando assim o top pick junto com o Itaú, com preço-alvo de R$ 45 para os ativos BBAS3 (upside de 34%).

Destaques da teleconferência

Em teleconferência com jornalistas, Fausto Ribeiro,  presidente-executivo do BB, afirmou que o banco vai continuar a reduzir a diferença de rentabilidade que o separa dos rivais privados.

Ribeiro disse que o BB vai se concentrar em reprecificar taxas de juros para equiparar com o aumento de custo de captação de recursos, bem com da Selic.

Questionado em teleconferência com jornalistas sobre a queda na receita com contas correntes no quarto trimestre de 2021, mais elevada que a de outros grandes bancos, Ribeiro reconheceu que há perda com serviços como o TED, substituído em grande medida pelo PIX.

De acordo com José Ricardo Forni, vice-presidente de gestão financeira e de relações com investidores, “as tarifas de conta corrente tendem a diminuir com o tempo. O PIX dinamizou esse movimento”. Agora, ele afirma que o banco vem deixando uma “lógica voltada à tarifa transacional”.

Ambos os executivos dizem que o banco pretende recompor a receita perdida com o PIX com outros serviços aos clientes. Forni cita assessoria financeira, market place e outros serviços “agregados ao aplicativo”.

Já Ana Paula Teixeira, vice-presidente de controles internos e gestão de riscos do Banco do Brasil, diz que vê como possível avançar em 2022 sobre linhas de empréstimo com maior rentabilidade, porém com maior risco ajustado. Assim, diz esperar que a inadimplência suba de forma gradual, mas ainda “abaixo de níveis históricos”.

Ela afirma que, em 2021, a qualidade do índice de cobertura se manteve estável. Em 2022 diz que a tendência é que haja consumo da cobertura por conta do maior risco de crédito.

Crescimento nas margens

Questionado sobre como o banco pretende atingir a guidance de crescimento da margem financeira de 11% a 15% em 2022, Ribeiro disse que o BB tem um modelo de originação de operações robusto que leva a uma inadimplência abaixo da média do setor financeiro.

Ele diz que pretende crescer com foco de negócios diferente, dando prioridade a linhas com maior margem, como cartões de crédito não consignados. Ele afirmou que soluções de TI adquiridas em 2021 dão espaço para trabalhar no mar aberto “de forma mais sustentável”, sem “tanto receio de fraudes”.

De acordo com o executivo, o índice de cobertura do banco dá “margem para poder fazer um crescimento em ativos de maior rentabilidade” em 2022, “queimando em algum momento um pouco dessa gordura”. Mesmo assim, diz que o indicador deve permanecer “um pouco acima da média de mercado”.

O vice-presidente de gestão Forni disse que a margem financeira em 2021 foi em parte consumida pela Selic, que levou à reprecificação da carteira. Agora, diz que o ciclo de elevação está em seu fim, e o banco se beneficia “do barateamento do custo de recaptação da poupança”.

Ele afirma que é hora de explorar a cadeia de negócio do agro, nos setores de revenda de insumos e maquinário, por exemplo. Além disso, diz que vê potencial no atacado para explorar a folha de pagamento das empresas e fornecedores, por exemplo. Assim, diz esperar retirar maior margem financeira para o banco.

Payout

Forni afirmou que o banco prevê dividend payout  (ou pagamento de dividendos como proporção do lucro) de 40% em 2022. Ele diz que a previsão está em linha com o consumo e crescimento de crédito de 2021 alinhado à trajetória de crescimento para 2022.

Demissões

Na teleconferência com analistas, Fausto Ribeiro foi questionado sobre o pedido de demissão de seu antecessor por conta da movimentação e sobre a continuidade do processo de fechamentos de unidades sob sua gestão. Ele afirmou que o banco adota “ações necessárias” para manter a lucratividade e o atendimento aos clientes.

Em março de 2021, o então presidente do BB, André Brandão, se demitiu do cargo após pressões do presidente Jair Bolsonaro, insatisfeito com o fechamento de agências. O processo continuou, no entanto, sob a gestão de Ribeiro.

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