Não foi dessa vez

Ação do IRB fecha em queda após balanço e atinge mínima histórica: o que não agradou os investidores no resultado?

Analistas veem progresso nos números, mas destacam caminho longo para recuperação da lucratividade; Safra espera por “melhor visibilidade”

Por  Lara Rizério -

SÃO PAULO – Mais um resultado do IRB (IRBR3) é recebido com queda de suas ações na Bolsa brasileira, apesar de algumas tendências sendo vistas como positivas no balanço do segundo trimestre de 2021.

As ações do ressegurador chegaram a ter queda de  7,51% nesta terça-feira (17), a R$ 5,05, e renovando a mínima histórica. Anteriormente, a mínima intradiária da companhia tinha sido registrada em 21 de setembro de 2020, quando o papel atingiu R$ 5,33, fechando aquela sessão a R$ 5,41. O papel IRBR3 fechou em baixa de 3,66%, a R$ 5,26. No ano, a queda de IRBR3 é de cerca de 35%.

A companhia reportou na noite da véspera prejuízo líquido de R$ 206,9 milhões no segundo trimestre, 68,5% menor do que a perda de R$ 656,7 milhões um ano antes, mas ante um lucro líquido de R$ 50,8 milhões no primeiro trimestre.

Nos primeiros seis meses de 2021, o prejuízo líquido totalizou R$ 156,1 milhões, ante perdas de R$ 621,7 milhões no ano anterior, ou uma queda nas perdas de 74,9%.

De acordo com a companhia, o resultado do período de abril a junho deste ano foi impactado pela conjuntura econômica que afetou globalmente o setor de resseguros, bem como por sinistros decorrentes de negócios descontinuados (run-off), com efeito de R$ 190,3 milhões. Eles foram parcialmente compensados pelo efeito não recorrentes (one-offs) na ordem de R$ 14,4 milhões – despesa de tributos e administrativas que foram compensadas por crédito em impostos.

Excluindo tais efeitos, run-off e one-off, o IRB disse que teria apresentado um prejuízo líquido normalizado de R$ 31 milhões no segundo trimestre.

Apesar da baixa, os analistas do Credit Suisse veem os resultados do IRB como neutros a ligeiramente positivos para as ações, com melhorias nos índices de retrocessão e de perdas em relação ao segundo trimestre do ano passado.

Eles avaliam que os resultados negativos foram parcialmente precificados pelo mercado em vista de um prejuízo líquido reportado de R$ 49 milhões em abril, divulgado anteriormente na base de dados da Susep. As perdas foram além da estimativa do consenso Bloomberg, de R$ 52 milhões, mas os analistas destacaram que, com os ajustes, o efeito seria um prejuízo menor (de R$ 31 milhões).

Os prêmios continuam a ser impactados pela estratégia de “re-underwriting”  [de limpeza do balanço] da empresa, enquanto os índices de sinistralidade viram um resultado positivo por conta disso.

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Os resultados foram novamente ajudados por um impacto positivo no valor de R $ 27,1 milhões de créditos tributários relacionados a Imposto de PIS/ Cofins no trimestre e pelo resultado financeiro.

Por outro lado, os prêmios emitidos caíram 15,1% na base anual (ante queda de 3,3% no ano a ano no primeiro trimestre de 2021), liderados pelo segmento internacional (queda de 33%), que mais do que compensou o crescimento de 7% no mercado local.

“Os prêmios continuam a ser impactado negativamente pelo plano ‘CFG – Clean, Fix, Growth’ [Limpar, Consertar, Crescer], uma vez que a empresa está descontinuando operações que não são lucrativas, incluindo a maioria dos segmentos internacionais e no segmento rural do Brasil”, apontam o Credit.

A taxa de retrocessão diminuiu para 26,4% (versus 32,8% no segundo trimestre) devido à não-renovação de um contrato emitido no segundo trimestre de 2020 no Brasil e também por conta de ajuste no portfolio.  A retrocessão ocorre quando a resseguradora transfere parte dos seus riscos absorvidos a outros resseguradores ou até mesmo para seguradoras.

Já o índice de sinistralidade total ficou em 95,7%, abaixo dos 135,3% registrados no segundo trimestre do ano passado, mas acima dos 72,1% do primeiro trimestre deste ano, segundo os dados divulgados na noite de segunda-feira.

O prêmio ganho ficou quase estável, a R$ 1,73 bilhão, e o prêmio retido caiu 7%, para R$ 1,59 bilhão, na mesma base de comparação. O resultado financeiro e patrimonial cresceu 81,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, para R$ 89,2 milhões.

Mesmo apontando os números como ligeiramente positivos para a ação, o Credit reiterou a recomendação underperform (perspectiva de desempenho inferior à média do mercado), uma vez que avaliam que as ações continuam a ser negociadas com um valuation injustificado. O preço-alvo para os ativos, contudo, é de R$ 7,50, um potencial de alta de 37% em relação ao último fechamento.

Já para os analistas do Safra, o resultado do IRB foi negativo, levando em conta que a companhia continua reportando perdas significativas com seu legado de contratos inadimplentes que estão em processo de renegociação ou descontinuação.

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Por outro lado, ponderam que os números do IRB sugerem uma tendência de recuperação, principalmente olhando para o resultado ajustado. Contudo, seguem com recomendação neutra para as ações e preço-alvo de R$ 7,80 por papel, ou alta de 43% em relação ao fechamento da véspera.

“Ainda aguardamos uma melhor visibilidade dos resultados, que pode vir no próximo ano”, destacaram Luis F. Azevedo e Silvio Doria, analistas do Safra.

O BTG Pactual aponta que a atual administração que assumiu depois da companhia ter apurado as fraudes que vieram à tona em fevereiro de 2020, tem feito um bom trabalho para recuperar a “saúde” do IRB. Os analistas também destacam que a empresa está bem capitalizada, melhorou a liquidez e consegue gerar caixa. Contudo, “o processo de reestruturação da carteira não é um caminho fácil ou rápido”.

Com a revisão nas carteiras, especialmente no exterior, tem ocorrido quedas nos prêmios fora do Brasil, enquanto a avaliação dos analistas é de que a recuperação segue distante. A recomendação dos analistas para os papéis é neutra.

Destaques da teleconferência

Em teleconferência, a companhia reforçou ter encerrado no segundo trimestre  o processo de revisão de contratos deficitários do portfólio. Wilson Toneto, CEO interino do IRB e vice-presidente executivo técnico e de operações destacou em coletiva com jornalistas que o IRB descontinuou 162 contratos desde julho de 2020, dos quais 17 tiveram impacto significativo sobre os resultados, representando por volta de 8% do portfólio. Por outro lado, também foram firmados cerca de 239 novos negócios com novas taxas.

De qualquer forma, o impacto da revisão desses contratos descontinuados deve continuar até 2023, ainda que com efeitos maiores entre o ano passado e 2021, segundo afirmou Isabel Blazquez Solano, vice-presidente executiva de Resseguros.

Werner Suffert, vice-presidente executivo financeiro e de relações com investidores, ainda destacou as novas regras da Susep que devem liberar capital para a companhia. A empresa não precisará constituir a margem de segurança de 20% sobre o capital mínimo regulatório, sendo substituída por uma declaração detalhada dos processos de controle de riscos e solvência.

Essa medida, associada à alta de juros básicos da economia, a Selic, pode elevar a participação do resultado financeiro nos números gerais do IRB. “A alta do juro básico vai ter impacto significativo para 2021, mas o efeito positivo maior será para os próximos trimestres. Isso principalmente nos períodos que tiveram rodando com a taxa total”, apontou.

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Para os ciclos futuros, a expectativa é de que, no ambiente de aplicações, a companhia tenha uma remuneração maior. “Isso em conjunto junto com a menor despesa financeira por conta da mudança instrumento de garantia que temos no exterior, o resultado financeiro vai ajudar significativamente nos próximos trimestres”, reforçou.

Toneto ainda apontou que a empresa gerou caixa no trimestre, o quarto dado positivo na sequência, o que não ocorria desde 2017. “Antes do processo de reestruturação o caixa tinha um processo negativo. Agora, acumulamos no primeiro semestre em caixa R$ 960 milhões. Em algum momento, o resultado que está aparecendo no caixa irá aparecer no resultado econômico da companhia”, apontou.

Um outro tema que foi destacado foi sobre o processo de escolha do novo CEO. Desde março, com a saída de Antonio Cassio dos Santos, Toneto é o CEO interino do IRB. De acordo com o executivo, após a nomeação do novo conselho e a alteração e consolidação do estatuto social, há condições para finalização do processo, que deve ser concluído e anunciado nas próximas semanas.

Leia mais: Luiz Barsi compra ações e já detém mais de 1,5% do IRB; investidor sugere Schvartsman, ex-Vale, como novo CEO

Além disso, a companhia também destacou que tem claras suas metas e desafios de curto, médio e longo prazo, mas a volta da divulgação do guidance (projeções) segue em avaliação pelo Conselho de Administração.

A reestruturação da companhia após o turbulento ano de 2020 continua, mas os investidores ainda esperam por dados mais consistentes com a recuperação do IRB e sem tantos impactos dos contratos descontinuados. Por enquanto, ainda que haja notícias animadoras, a ordem da maioria dos analistas segue sendo de cautela com IRBR3.

(com informações da Reuters)

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