Nos últimos anos, ficou difícil acompanhar o noticiário sem esbarrar em notícias sobre ondas de calor recordes, secas prolongadas, enchentes históricas ou incêndios florestais. Em 2026, em particular, um termo passou a aparecer com frequência cada vez maior: Super El Niño.
Meteorologistas, produtores rurais, governos e investidores acompanham o fenômeno, porque ele pode influenciar o clima em diversas regiões do planeta ao mesmo tempo. Dependendo da intensidade, os reflexos chegam à produção agrícola, ao preço dos alimentos, ao consumo de energia e à atividade econômica.
A seguir, veja como se forma o El Niño, quando ele ganha a classificação de Super El Niño e quais são seus principais efeitos sobre o clima e a economia.
O que é o El Niño e por que ele chama tanta atenção
O El Niño ocorre quando as águas da região equatorial do Oceano Pacífico ficam mais quentes do que o normal durante vários meses. Embora tenha origem no mar, seus efeitos alcançam diferentes partes do planeta, já que o aquecimento das águas interfere na circulação atmosférica e modifica a distribuição de calor e umidade em diversas regiões.
Por isso, um evento que começa no Pacífico pode influenciar o volume de chuvas no Sul do Brasil, aumentar o risco de secas em áreas da Amazônia, afetar a agricultura em diferentes continentes e alterar condições climáticas em países distantes, como Estados Unidos, Austrália e Índia.
Como o El Niño se forma?
O El Niño tem origem no Oceano Pacífico Equatorial. Em condições normais, os ventos alísios deslocam as águas mais quentes para o oeste do oceano, em direção à Ásia e à Oceania. Isso permite que águas mais frias cheguem à superfície próximo à costa da América do Sul.
Em alguns períodos, esses ventos perdem força. Sem esse empurrão constante, as águas mais quentes se acumulam na região central e leste do Pacífico.
Esse aquecimento influencia a atmosfera e altera a distribuição de chuvas em diversas regiões do planeta, favorecendo períodos mais secos em alguns locais e mais chuvosos em outros.
Os centros meteorológicos monitoram esse aquecimento por meio de regiões específicas do Pacífico Equatorial. A principal delas é a chamada Niño 3.4. Quando a temperatura média nessa área permanece acima dos níveis considerados normais por vários meses consecutivos, os especialistas classificam o evento como El Niño.
Como nasce o El Niño:
| 1º. Ventos alísios perdem força | Menos água quente segue a oeste do Pacífico. |
| 2º. Calor se acumula no oceano | Temperatura da superfície do mar sobe. |
| 3º. Oceano Pacífico aquece acima da média | Circulação atmosférica muda. |
| 4º. Atmosfera reage ao calor | Chuvas e secas mudam de posição. |
| 5º. Aquecimento persiste por meses | O fenômeno é classificado como El Niño. |
Quando um El Niño se transforma em Super El Niño?
Nem todo El Niño vem com a mesma intensidade. Quando o aquecimento das águas do Pacífico atinge níveis bem acima da média observada durante um evento comum, ele costuma ser chamado de Super El Niño.
Veja alguns exemplos recentes:
| Ano | O que aconteceu |
| 1982-1983 | Enchentes atingiram países da América do Sul, enquanto Austrália e outras regiões enfrentaram secas severas |
| 1997-1998 | Chuvas intensas causaram enchentes no Peru e na Califórnia; incêndios e secas afetaram partes do Sudeste Asiático |
| 2015-2016 | O planeta registrou temperaturas recordes, enquanto diferentes regiões enfrentaram secas, enchentes e perdas agrícolas |
O começo do El Niño não segue uma data fixa. Em muitos casos, os primeiros sinais aparecem durante o primeiro semestre do ano, enquanto o pico de intensidade costuma ocorrer entre o fim do ano e o início do ano seguinte.
Esse comportamento não é uma regra. Alguns episódios se desenvolvem mais rapidamente, enquanto outros levam mais tempo para ganhar força.
O que muda no Brasil durante um Super El Niño?
Os efeitos do Super El Niño não aparecem da mesma forma em todo o país. Enquanto algumas regiões tendem a registrar chuvas acima da média, outras podem enfrentar períodos de seca mais intensa e temperaturas elevadas.
Região Sul: mais chuva e maior risco de enchentes
O Sul costuma concentrar alguns dos impactos mais visíveis do fenômeno. O aumento das chuvas eleva o risco de temporais, enchentes, deslizamentos e cheias de rios, especialmente durante a primavera e o verão.
No campo, o excesso de umidade pode atrasar o plantio, dificultar a colheita e aumentar a incidência de doenças em determinadas culturas.
Norte e Nordeste: seca, rios mais baixos e queimadas
Com menos chuva, rios na Amazônia podem registrar níveis abaixo do normal, dificultando o transporte de pessoas, mercadorias e insumos em regiões que dependem das hidrovias.
A vegetação também fica mais vulnerável ao fogo, aumentando o risco de queimadas e de problemas relacionados à qualidade do ar.
Em parte do Nordeste, principalmente nas áreas semiáridas, o Super El Niño pode reduzir o volume de chuvas e agravar períodos de estiagem. A menor disponibilidade de água afeta reservatórios, atividades agrícolas e o abastecimento em algumas localidades.
Sudeste e Centro-Oeste: calor mais intenso e efeitos sobre a produção agrícola
Em tempos de Super El Niño, o Sudeste costuma registrar temperaturas acima da média e ondas de calor mais frequentes. O calor excessivo pode afetar culturas como a do café, por exemplo, que dependem de condições específicas de temperatura e chuva ao longo de seu ciclo produtivo.
No Centro-Oeste, mudanças no regime de chuvas podem influenciar o desenvolvimento de culturas como soja, milho e algodão, além de afetar a qualidade das pastagens utilizadas na pecuária.
Como Super El Niño vai afetar os EUA (e outros países)
As alterações provocadas pelo Super El Niño não se limitam aos países banhados pelo Pacífico.
Nos Estados Unidos, os impactos costumam variar conforme a região. Estados do sul frequentemente registram condições mais úmidas durante o inverno, enquanto parte do norte tende a enfrentar temperaturas acima da média.
Na América do Sul, algumas áreas recebem mais chuva do que o habitual, enquanto outras convivem com estiagens prolongadas que afetam a agricultura, a geração de energia e o abastecimento de água.
Países da Ásia e da Oceania estão entre os mais expostos aos efeitos do fenômeno. Em regiões como Indonésia e Austrália, episódios intensos de El Niño costumam aumentar o risco de secas, ondas de calor e incêndios florestais.
A Índia também acompanha o fenômeno de perto porque alterações no regime de monções podem afetar a produção agrícola e o abastecimento de centenas de milhões de pessoas.
Por que o agronegócio acompanha o Super El Niño tão de perto?
Como o fenômeno altera o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país, ele pode desorganizar o calendário agrícola, reduzir a produtividade e aumentar os custos de produção.
Por isso, especialistas e centros de pesquisa costumam analisar os efeitos do fenômeno de acordo com as culturas e os sistemas de produção mais afetados.
| Atividade afetada | Impactos | Como acontece |
|---|---|---|
| Soja e milho | Atrasos no plantio e riscos para a safrinha | – Chuvas irregulares podem atrasar o plantio da soja e exigir replantio – Como a soja e o milho safrinha costumam ser cultivados em sequência, atrasos na primeira cultura reduzem a janela ideal para a segunda |
| Café, trigo e arroz | Dependem da região e cultura | – Calor excessivo é ruim para floradas e formação dos grãos de café – O excesso de chuva durante a colheita reduz a qualidade do trigo – O arroz também pode sofrer prejuízos com chuvas intensas no Sul do país |
| Pecuária | Pastagens perdem qualidade | – Temperaturas altas e períodos mais secos podem reduzir a disponibilidade de pasto – Produtores gastam mais com ração e suplementação alimentar |
Mudanças na temperatura e na umidade também podem favorecer a proliferação de pragas e doenças nas lavouras. Em algumas condições, insetos e fungos encontram um ambiente mais favorável para se multiplicar, aumentando os gastos com monitoramento e controle.
Consequentemente, os efeitos também chegam ao consumidor. Quando o clima reduz a produção ou eleva os custos no campo, a oferta de alguns produtos diminui. Com menos oferta e mais despesas ao longo da cadeia produtiva, alimentos e commodities agrícolas tendem a ficar mais caros, pressionando a inflação.
El Niño e La Niña: qual a diferença?
El Niño e La Niña fazem parte do mesmo sistema climático, conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENSO), mas apresentam características opostas.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que a média histórica. Já o La Niña surge quando essas mesmas águas registram temperaturas abaixo do normal.
Essa diferença altera a circulação atmosférica e produz efeitos distintos em várias partes do planeta.
De forma geral, regiões que costumam receber mais chuva durante episódios de El Niño podem registrar condições mais secas durante eventos de La Niña. O inverso também costuma ocorrer.
No Brasil, a La Niña frequentemente favorece chuvas acima da média em partes do Norte e do Nordeste, enquanto o Sul pode enfrentar períodos de estiagem com maior frequência.
El Niño x La Niña: veja as principais diferenças
| Aspecto | El Niño | La Niña |
|---|---|---|
| Temperatura do Pacífico | Acima da média | Abaixo da média |
| Origem | Ventos alísios fracos; acúmulo de águas mais quentes | Ventos alísios fortes; maior presença de águas frias |
| Sul do Brasil (tendência) | Mais chuva | Menos chuva |
| Norte Amazônia (tendência) | Menos chuva | Mais chuva |
| Temperatura média global | Geralmente mais elevada | Geralmente mais baixa |