Por que o Silicon Valley está de olho no Bitcoin

As empresas da indústria do Bitcoin captaram em 2014 mais de US$ 150 milhões com investidores e fundos de venture capital. Extrapolando esse nível de captação para o resto do ano, o total de recursos levantados pode superar US$ 280 milhões, um montante nada desprezível para um setor nascente.

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As empresas da indústria do Bitcoin captaram em 2014 mais de US$ 150 milhões com investidores e fundos de venture capital. Extrapolando esse nível de captação para o resto do ano, o total de recursos levantados pode superar US$ 280 milhões, um montante nada desprezível para um setor nascente.

Fonte: State of Bitcoin Q2 2014, CoinDesk

Já é mais do que sabido o interesse dos principais investidores de tecnologia no Bitcoin. Os principais venture capitalists do ramo estão de olho na criptomoeda há algum tempo. No ano passado, foram investidos ao redor de US$ 90 milhões em startups do setor; neste ano, passados apenas seis meses, investidores aportaram 63% mais do que no ano anterior.

Desde o início do Bitcoin, o total de investimento em empresas dedicadas a alguma atividade relacionada à criptomoeda supera US$ 240 milhões, sendo que apenas cinco empresas respondem por aproximadamente 60%: Xapo, Bitpay, Coinbase, Circle e BitFury.

Fonte: State of Bitcoin Q2 2014, CoinDesk

E a julgar pelas mais recentes conferências da indústria, os investimentos na economia do Bitcoin só tendem a aumentar. Como muito bem tuitou o ativista Roger Ver durante sua participação na CoinSummit – evento dedicado especialmente aos empreendedores, investidores e venture capitalists do setor, realizada em Londres na última semana:

 

Mas por que há tanto interesse da indústria de venture capital no Bitcoin? O que tem atraído cada vez mais investidores e experts de tecnologia às criptomoedas? Jeremy Liew, diretor executivo da Lightspeed Venture Partners, com participações na Ripple Labs e na BTC China, afirma categoricamente que “como um VC, meu interesse no ecossistema Bitcoin não é ideológico, mas mercenário. Eu vejo a oportunidade de sacudir mercados multibilionários”.

Para Fred Wilson, cofundador da Union Square Ventures, cujos investimentos vão do Twitter ao Tumblr, Foursquare e Zynga, o Bitcoin representa algo fundamental e poderoso. “Um protocolo de internet peer to peer aberto e distribuído para a transferência de poder de compra. Pela sua arquitetura e abertura, [o Bitcoin] me faz lembrar do SMTP, HTTP, RSS e o BitTorrent”, afirma Wilson ao justificar o início da sociedade com a Coinbase, o primeiro investimento da USV na indústria do Bitcoin: “Da mesma forma que aconteceu com esses protocolos, empreendedores e desenvolvedores estão agora construindo tecnologia sobre o Bitcoin para torná-lo mais útil, mais acessível e mais seguro”.

Por sinal, vale a pena ouvir uma palestra sua na conferência LeWeb, em Paris, realizada no ano passado, em que ele expõe o racional dos investimentos da USV, destacando as principais tendências do futuro e como o Bitcoin se encaixa na estratégia da empresa.

O braço de venture capital do Google, o Google Ventures, também está atento a esse mercado de moedas digitais e pagamentos. No ano passado, adquiriu uma participação minoritária na Ripple Labs e na Buttercoin.

Outros gigantes do Silicon Valley e de pagamentos online estão igualmente investidos no Bitcoin, como Sean Parker, famoso pelo Napster e Facebook, e Peter Thiel, fundador do PayPal. Ambos são sócios no Founders Fund – um fundo de venture capital e investimento-anjo criado em 2005 por Thiel –, um dos investidores do BitPay, a segunda startup mais capitalizada do ecossistema Bitcoin.

Embora seja um investidor no setor, Thiel é mais cauteloso quanto às chances de sucesso do Bitcoin, especialmente por causa das regulações – possivelmente danosas – passíveis de serem instauradas por governos. No entanto, ele não subestima o quão revolucionária é uma criptomoeda, algo que já previa há mais de uma década. Recordando uma palestra sua de novembro de 1999, Thiel prognosticava o fim da soberania monetária e como o dinheiro encriptado mudaria o mundo; o Bitcoin foi o primeiro a surgir, e, na sua opinião, potencial para transformar o mundo não lhe falta.

O BitPay conta com outros investidores ilustres como Sir Richard Branson – que já declarou que “os bancos estão em meio a mudanças e inovações enormes” – e o cofundador do Yahoo Jerry Yang. Este último detém também uma participação na Xapo, uma provedora de custódia e serviços de pagamentos com bitcoins e detentora do recorde de levantamento de capital na indústria, com US$ 40 milhões captados.

Em suma, o Bitcoin é uma tecnologia de ruptura, disruptive technology. É precisamente isso o que atrai muitos dos profissionais e investidores do Silicon Valley, sempre em busca do próximo “Twitter ou Facebook”.

Sem dúvida alguma, o Bitcoin é uma tecnologia transformadora, inovadora e fascinante. Algo com tal potencial é capaz de mover indivíduos muito mais do que uma mera recompensa financeira. Andrew Chang, ex-Google e agora COO da exchange itBit, identifica-se justamente com essa visão.

“Estou de acordo com a analogia – agora um tanto usual – de que o Bitcoin nos faz sentir como nos sentíamos com a internet em 1994”, reflete Chang em seu blog, justificando a sua saída do Google. “É uma tecnologia transformadora frequentemente mal compreendida, mas que tem potencial ilimitado de mudar como o mundo funciona e como entendemos os conceitos básicos de dinheiro e valor.”

Quem melhor captou a essência do Bitcoin e o que ele representa à indústria de tecnologia, porém, foi Marc Andreessen, sócio da firma de venture capital Andreessen Horowitz, criador do primeiro navegador da web , o Mosaic, e cofundador da Netscape Communications Corporation.

Andreessen vivenciou o início da internet em primeira mão e compreende perfeitamente o significado de uma tecnologia de ruptura. Ao vislumbrar no Bitcoin uma inovação sem precedentes, decidiu apostar e investir em empresas do setor. Sua firma de investimentos detém hoje participações em diversas startups do Bitcoin (como a Coinbase), o que corresponde a cerca de US$ 50 milhões.

Em um brilhante artigo de janeiro deste ano, publicado originalmente no New York Times, Andreessen reflete sobre os motivos que fazem a criptomoeda ter extrema relevância (Why Bitcoin matters). Aparentemente surgido do nada, a verdade é que “O Bitcoin é, no seu âmago, um sensacional avanço da ciência da computação – resultado de 20 anos de pesquisa de moedas criptográficas e 40 anos de pesquisa de criptografia, com contribuições de milhares de pesquisadores ao redor do mundo”, escreve Andreessen.

Moeda foi a primeira aplicação da tecnologia revolucionária do Bitcoin. Mas a transferência de uma propriedade digital com segurança não deve se restringir ao dinheiro. No futuro, a tecnologia poderá ser usada para transferência de outros ativos digitais, contratos, ações, valores mobiliários, etc.

“Muito além do que um mero conto de fadas libertário ou uma simples mania do Silicon Valley”, conclui Andreessen, “o Bitcoin propicia uma vista abrangente de oportunidades para reimaginar como o sistema financeiro pode e deve funcionar na era da internet, e um catalizador para reformar esse sistema de modo que seja mais poderoso para indivíduos e empresas”.

O Bitcoin tem o potencial de transformar e aprimorar não somente a própria moeda que usamos, mas também o sistema bancário, as casas de liquidação e custódia, bolsas de negociação de títulos e valores mobiliários, entre outros. Praticamente todo o sistema financeiro pode ser impactado – uma indústria gigantesca e multibilionária. Daí a definição disruptive technology.

É importante frisar que grande parte dos investidores do Silicon Valley está comprada na tecnologia em si – por meio de participações em diversas empresas do setor –, mas não necessariamente na cotação do bitcoin. Isso não significa que desacreditam no bitcoin como moeda. Indica, na realidade, duas coisas não necessariamente relacionadas: i) que preveem ainda alguma volatilidade no seu preço; e ii) que enxergam no Bitcoin mais do que apenas um dinheiro da era digital – encaram o Bitcoin como uma nova plataforma de inovação em que as mais diversas aplicações serão desenvolvidas, algumas das quais nem conseguimos prever no momento.

Por todos esses motivos, os donos do capital no Silicon Valley estão bullish on Bitcoin. Se eles estiverem certos, ganharão rios de dinheiro. E o mundo será beneficiado de uma forma jamais vista.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil