O problema são os economistas, não o bitcoin

Em um passado não muito distante, era comum encontrar artigos na imprensa especializada repletos de erros básicos sobre o que é o Bitcoin. Tanto no exterior quanto na imprensa nacional, jornalistas e economistas demonstravam claramente não ter pesquisado quase nada sobre essa tecnologia inovadora. Mas de vez em quando aparece algum economista que entendeu o mínimo sobre o fenômeno, para então se lançar à tarefa de criticar a criptomoeda sob uma perspectiva estrita da teoria econômica. O exemplo mais recente é uma postagem no Blog do Antonio Luiz, da Revista Carta Capital.

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Em um passado não muito distante, era comum encontrar artigos na imprensa especializada repletos de erros básicos sobre o que é o Bitcoin. Tanto no exterior quanto na imprensa nacional, jornalistas e economistas demonstravam claramente não ter pesquisado quase nada sobre essa tecnologia inovadora.

Mas de vez em quando aparece algum economista que entendeu o mínimo sobre o fenômeno, para então se lançar à tarefa de criticar a criptomoeda sob uma perspectiva estrita da teoria econômica. O exemplo mais recente é uma postagem no Blog do Antonio Luiz, da Revista Carta Capital.

Infelizmente, o texto já começa mal, pois seu título, “Bitcoin, a TelexFree dos ricos, cultos e descolados?”, não tem relação alguma com o teor do artigo, é nitidamente enviesado e desconectado da realidade – nunca encontrei nenhum indício de que o bitcoin fosse usado majoritariamente por pessoas ricas, inteligentes e descoladas, e não saberia dizer se os usuários da TelexFree são compostos por cidadãos pobres, burros e caretas. Mas enfim, imagino que o objetivo do título deva ter sido apenas uma estratégia para chamar mais atenção.

É preciso reconhecer, no entanto, o mérito da sua crítica quanto às empresas de “marketing multinível” que têm usado o bitcoin como ativo subjacente para atrair almas desavisadas. Que fique claro a todos: um esquema de pirâmide pode ser levado a cabo usando-se reais, bitcoins, pipocas ou qualquer outro bem usado como pretexto. O autor corretamente distingue entre empresas de “marketing multinível” e o bitcoin, que, na sua essência, nada tem a ver com esquemas de pirâmide, mas pode ser usado para tanto por quem assim desejar.

Mas o que o autor tem a dizer sobre o bitcoin em si? Para facilitar a crítica, destacarei alguns trechos em vermelho para comentar cada um separadamente.

Sobre a quebra da MtGox, o autor afirma: “Desfez-se um dos mitos em torno do bitcoin – a suposta segurança – mas alegou-se que isso não comprometia o princípio da criptomoeda, assim como um assalto a banco não invalida as moedas tradicionais. De qualquer forma, o entusiasmo esfriou um pouco”.

Não há mito e não são meras alegações. A quebra da maior exchange à época de fato não comprometeu o Bitcoin ou o blockchain de forma alguma, assim como um assalto a uma agência do Banco do Brasil definitivamente não compromete o real. O que ocorreu foi a liquidação de uma empresa com práticas de gestão questionáveis, segurança de TI precária ou, na pior das hipóteses, simplesmente fraudulenta. Ou o autor não entende os princípios da criptomoeda ou os ignora, pois a segurança do Bitcoin é um de seus traços mais marcantes, e o histórico de inviolabilidade do blockchain é um fato, passível de inspeção por qualquer um. Para quem quiser saber mais, dediquei dois posts sobre o tema.

“O fato de que uma ‘moeda’ não garantida por qualquer governo ou lastro represente hoje uma massa monetária de 6,5 bilhões de dólares (há hoje pouco mais de 13 milhões de bitcoins) é em si intrigante, principalmente do ponto de vista da teoria monetária ortodoxa, aceita pela grande maioria dos economistas do século XIX e XX, que condenava ao colapso qualquer moeda não devidamente lastreada por metal precioso.”

Que os economistas do século XIX assim pensavam, não discordo. Mas a grande maioria dos economistas do século XX, em realidade, já enxergava no metal precioso apenas um empecilho a ser descartado tão logo quanto possível – o que ficou evidente após o fim de Bretton Woods, em 1971, quando a ordem monetária eliminou o último vínculo com o ouro, migrando para uma moeda fiduciária dependente exclusivamente da confiança dos bancos centrais.

O motivo de os estudiosos de teoria monetária do século XIX crerem que uma moeda sem lastro colapsaria reside no fato de que, naquela época, a moeda de papel que circulava nada mais era do que um mero substituto de dinheiro; a moeda propriamente dita era o ouro depositado no cofre dos bancos. Os papéis eram certificados de depósitos, ou cédulas de banco, que na prática representavam a mesma coisa: uma obrigação do banco emissor de resgatar em espécie o ouro sob sua custódia.

Assim, uma cédula de banco não resgatável em nada – sem lastro – era inimaginável na cabeça dos economistas de então, pois o dinheiro era o ouro, e não o papel emitido pelas instituições financeiras.

No caso do bitcoin, a criptomoeda é o equivalente ao ouro, é a moeda propriamente dita, não é substituto de nada, é o bem em si. Dessa forma, não há qualquer incompatibilidade entre a noção de moeda dos economistas do século XIX e o bitcoin. Mas, provavelmente, apenas os economistas da Escola Austríaca entenderão esse conceito. Para mais detalhes, recomendo a leitura do capítulo IV do meu livro.

“Mas é sustentável? Uma moeda cujo valor repousa unicamente na expectativa de que outro agente privado a aceite por valor igual àquele pelo qual foi adquirida não seria análoga a uma pirâmide, destinada a desmoronar mais cedo ou mais tarde quando se perceba que não se apoia em coisa alguma?”

Isso não poderia ser dito sobre o ouro no passado? Um metal que servia para quase nada, a não ser adorno, e mesmo assim acabou sendo empregado como dinheiro por milênios? Uma mercadoria que os indivíduos entesouravam para intercambiar no futuro na expectativa de que outros indivíduos a aceitariam em troca? As características que fazem uma mercadoria se tornar dinheiro são diversas (escassez relativa, durabilidade, divisibilidade, etc.), das quais o ouro, no passado, e o bitcoin, no presente, compartilham.

O bitcoin apoia-se na criptografia moderna, na sua escassez autêntica, na capacidade de realizar transações rápidas e seguras em qualquer parte do mundo, no fato de não depender de terceiros fiduciários e propiciar baixos custos de transação, na inviolabilidade de confisco por qualquer agente que seja, incluindo governos, etc. Indivíduos enxergam utilidades genuínas no bitcoin e, por isso, lhe atribuem algum valor.

“Por trás do Dow Jones existe um mínimo de substância concreta: os dividendos pagos pela maioria das sociedades anônimas. As fantasias de supervalorização a médio prazo repousavam em uma expectativa irreal de crescimento da economia e da participação do lucro das grandes empresas no PIB, mas ao menos se podia confiar que existe um piso, pois a maioria continuaria a pagar alguma coisa. No caso das moedas tradicionais, existe no mínimo a garantia dos governos de aceitá-las no pagamento das taxas e impostos que representam uma parcela substancial da economia e usá-las para pagar suas despesas. No caso do bitcoin, não há nada desse tipo. A expectativa de valorização da criptomoeda repousa única e exclusivamente na expectativa de que ela substitua as moedas tradicionais numa fatia significativa das transações hoje realizadas por seu intermédio, ou mesmo totalmente. O quanto isso é razoável?”

Em primeiro lugar, bitcoins não são comparáveis a empresas que têm fluxo de caixa advindo de suas operações. Seria como comparar diamantes com os dividendos da Coca-Cola – aqueles são uma mercadoria; estes, os fluxos de caixa gerados por atividades empresariais.

Sim, é fato que as moedas tradicionais gozam do respaldo estatal amparado pelas leis de curso forçado, o que lhes assegura uma demanda mínima. Mas isso não é garantia de moeda boa – ou algum brasileiro se esqueceu das hiperinflações perpetradas pelo nosso governo em décadas passadas? O suporte governamental não evita uma inflação desenfreada, embora garanta uma demanda mínima. Em outras palavras, o lastro estatal não assegura uma moeda boa, apenas que até uma moeda ruim tenha vasta aceitação no mercado. Leia mais neste post.

A expectativa de valorização repousa na expectativa de que cada vez mais usuários adotem a moeda mundo afora, aproveitando as diversas vantagens que o bitcoin proporciona hoje, como é o caso nas remessas de dinheiro internacionais, em compras no exterior, em compras online, como forma de investimento diversificado, para comerciantes que queiram fugir dos altos custos de cartões de crédito, etc. Dito isso, resta claro que a demanda por bitcoins não advém apenas de uma expectativa de valorização, mas também de outras vantagens frente às moedas tradicionais.

Afirmar que há unicamente uma expectativa de que o bitcoin um dia substituirá as moedas tradicionais de forma significativa e que aí repousa sua valorização é desprezar por completo todas as utilidades da moeda digital.

“A ideia é que um algoritmo computacional supostamente inalterável e inviolável é mais ‘confiável’ que um governo para respaldar uma moeda.”

O algoritmo não é inviolável, embora até hoje não tenha sido corrompido. O que garante a inviolabilidade do bitcoin, porém, não é apenas a criptografia, mas também a arquitetura do sistema, que permite a todos os usuários monitorarem constantemente a criação do meio circulante.

Mas acredito que o ônus da prova esteja em comprovar que um governo é o ente mais confiável para respaldar uma moeda – tanto em teoria quanto empiricamente. Sugiro começar revisitando a história do denário durante o Império Romano. Ou podemos restringir-nos à história monetária contemporânea; basta analisar o dólar americano desde a criação do Federal Reserve, em 1913; a moeda perdeu mais de 90% do seu valor no século passado.

“É uma singular combinação de tecnologia ultramoderna com uma concepção antiquada de moeda, na prática muito pouco diferente do padrão-ouro do século XIX. Que tenha sido, até agora, pouco questionada é um sintoma de que os especialistas em tecnologia são tão ignorantes do debate econômico moderno quanto os economistas da informática do século XXI.”

A concepção de moeda “antiquada” a que o autor se refere é a que o dinheiro não deve estar sujeito às pressões políticas nem deve ter sua oferta inflacionada à vontade. Um dos fatores de sucesso do bitcoin reside justamente no fato de os especialistas em tecnologia – dentre eles o próprio criador, Satoshi Nakamoto, que aparentemente dominava os conceitos básicos sobre o dinheiro – serem ignorantes do debate econômico moderno. Se não o fossem, já teriam imposto um banqueiro central e um comitê de política monetária com a capacidade – e a autonomia! – de dobrar a base monetária a gosto. E o bitcoin já teria colapsado – assim como fracassou o Freicoin, uma moeda digital criada com base em uma ciência econômica moderna que incentivava os usuários a gastá-la ao invés de entesourá-la.   

“A ampliação continuada da base monetária por governos era então o que se considerava ‘inflação’, independentemente do seu impacto real sobre os preços. E um mal em si, uma espécie de pecado original da economia que se tornou uma tentação irresistível para os governantes desde que os mercados saíram do jardim do Éden do escambo primitivo e morderam o fruto proibido da moeda cunhada pelos reis para agilizar suas transações.”

A ampliação da base monetária por governos continua sendo inflação; o termo foi apenas deturpado pela teoria econômica moderna – hoje inflação significa comumente um aumento de preços –, invertendo o sentido original pela consequência gerada pelo fenômeno.

Escambo primitivo não é um jardim do Éden. Em realidade, é o extremo oposto, pois intercambiar mercadoria por mercadoria não era somente trabalhoso, como também, muitas vezes, inviável. Foi para resolver justamente o problema da dupla coincidência de desejos – tenho uma vaca e quero pão, mas o padeiro deseja um sapato – que um meio de troca acabou surgindo. Um meio de troca amplamente usado no mercado é o que chamamos de moeda ou dinheiro.

A conclusão óbvia é que rei nenhum criou a moeda; esta surgiu no mercado por meio dos incontáveis intercâmbios entre indivíduos. Os reis arrogavam-se o privilégio de cunhar a moeda para agilizar as suas transações, não as do mercado. Tanto é verdade que, cedo ou tarde, adulteravam o conteúdo metálico das moedas para reabastecer os cofres do erário – inflação à moda antiga.

“…os criadores do bitcoin, mais modestos, querem ‘apenas’ dar cabo da inflação, dos impostos e da interferência dos governos nos mercados. O bitcoin é mais um exemplo do chamado ‘solucionismo’, a busca de maneiras rápidas e práticas de resolver problemas que precisam de profunda análise teórica para serem devidamente compreendidas e formuladas. Conforme um dito atribuído ao jornalista estadunidense H. L. Mencken, para toda questão complexa sempre há uma resposta clara, simples e errada, mas neste caso sequer se trata disso: responde à pergunta errada.”

Os criadores do bitcoin não querem dar cabo da inflação, nem dos impostos, nem da interferência dos governos nos mercados; querem, na verdade, oferecer uma alternativa a quem procura uma válvula de escape dos abusos e do autoritarismo dos governos no âmbito monetário. O bitcoin é voluntário, adere quem quer. O mesmo não pode ser dito da moeda estatal, que é imposta aos cidadãos, seja ela boa, seja ruim.

Quanto à pergunta que o bitcoin responde, o próprio criador da criptomoeda tratou de expô-la:

O problema básico com a moeda convencional é toda a confiança necessária para fazê-la funcionar. Precisamos confiar que o banco central não desvalorizará o dinheiro, mas a história das moedas fiduciárias está repleta de quebras dessa confiança. Bancos têm a obrigação de guardar nosso dinheiro e transferi-lo eletronicamente, mas eles o emprestam em ondas de bolhas de crédito com uma mera fração em reserva. Temos que confiar-lhes nossa privacidade, confiar que não deixarão ladrões de identidade drenar nossas contas.

Pelo sucesso obtido desde a sua criação, parece-me que o bitcoin está respondendo à pergunta correta.

“No mundo moderno, o dinheiro é criação do sistema financeiro privado, regulamentado apenas parcialmente por um Banco Central fortemente influenciado (no mínimo) por seus interesses.”

Sim, o dinheiro é criado majoritariamente pelo sistema financeiro, privado e público – vale ressaltar que, no Brasil, os bancos públicos respondem por mais da metade de todo o crédito da economia, sendo estes os maiores criadores de moeda em território nacional. Mas não, não são apenas “parcialmente regulamentados” por um banco central, independentemente dos interesses em ação em dado momento.

A criação de moeda pelo sistema bancário, na magnitude em que ocorre nas economias modernas, é possibilitada essencialmente pela presença de um banco central, que atua não apenas como um prestamista de última instância, mas também como o orquestrador da expansão monetário dos bancos. Longe de ser um mero coadjuvante, um banco central é o protagonista de toda a criação de moeda pelo sistema financeiro moderno.

“Uma inflação moderada, da ordem de 2% ao ano nos países mais ricos (e logicamente maior nos emergentes), é hoje geralmente vista como o ideal para uma economia saudável, que desencoraja o entesouramento e proporciona certa flexibilidade a preços e salários. Inflação zero e deflação só interessam a credores e detentores de rendas fixas que veem suas rendas reais crescerem sem que precisem mover um dedo, à custa do desempenho da economia e da opressão e eventual falência dos devedores.”

Por que inflação de preços de 2% é bom nos países mais ricos, mas nos emergentes precisa ser maior? E por que 6% não pode ser bom para a economia? Ou então 1,25%? E quais preços você deve incluir? E o preço dos imóveis? E dos demais ativos financeiros? Com qual peso? Mas o combustível não tem a mesma relevância para uma cidade que usa principalmente a bicicleta como meio de transporte? Não há respostas a essas questões. Apenas arbitrariedades. Não são leis econômicas. São convenções definidas por engenheiros sociais.

Inflação não é causa de crescimento econômico – se fosse, a década brasileira de 1980 não teria a alcunha de “perdida”. Tampouco é consequência da atividade econômica em crescimento. Ora, se temos uma oferta monetária inelástica, quanto mais bens e serviços uma economia produz, menores tendem a ser os preços deles. Quanto maior o crescimento econômico, maior a produtividade, menor deveriam ser os preços dos bens produzidos. Quanto maior a abundância de mercadorias, menos unidades monetárias são necessárias para adquiri-las.

Preços em alta – ou em queda – não são determinantes para o crescimento da economia. Para que uma empresa seja rentável e reinvista seus lucros – aumentando a produtividade futura –, é necessário apenas que o diferencial entre os preços de vendas e os custos de produção seja positivo. Lucro ocorre não apenas com preços de vendas cada vez mais altos, mas também com valores de vendas maiores que os do custo incorrido.

A indústria da tecnologia de informação é o melhor exemplo dessa verdade. Os preços dos computadores e demais aparatos de TI caem ano após ano, a qualidade dos produtos só aumenta, e a indústria prospera no mundo todo.

Inflação é efeito da política governamental de aumentar a massa monetária. O crescimento econômico ocorre a despeito da inflação e das variações da oferta de moeda. Crescimento econômico é resultado de empresários que poupam e investem, produzindo cada vez mais com cada vez menos recursos. Inflação não causa o desenvolvimento econômico, mas pode provocar enormes distorções na economia.

“Mesmo em tempos mais antigos, a tentativa de evitar a desvalorização da moeda ante pressões incontroláveis (crise, pragas, guerra) levou a resultados catastróficos, como foi exemplo a crise de 1929, produto da tentativa de restaurar o padrão-ouro após a I Guerra Mundial.”

Por que “pragas” impõem “pressões incontroláveis” para desvalorizar a moeda me escapa por completo. Agora, quanto às guerras, não há dúvidas: que governo na história preferiu aumentar impostos, em vez de imprimir dinheiro, para financiar conflitos bélicos? E crises? Bom, as pressões nesse caso são inequívocas, ou alguém se esqueceu dos bancos e empresas insolventes implorando por liquidez emergencial na crise de 2008?

A crise de 1929 não foi fruto da tentativa de evitar a desvalorização da moeda. Na verdade, a crise foi precedida e causada por uma forte expansão monetária pelo Federal Reserve na década de 1920, em parte para auxiliar Sir Winston Churchill a retornar a libra esterlina à antiga paridade com o dólar – de uma forma equivocada, vale salientar, uma vez que o Banco da Inglaterra tentou restaurar o padrão-ouro, apreciando a libra artificialmente ao impor uma paridade com o dólar no patamar pré-guerra.

“O bitcoin, caso se tornasse de fato a moeda predominante, seria precisamente uma garantia não só de inflação zero, como de deflação ilimitada ao contrapor uma massa monetária rigidamente fixa a uma economia em expansão continuada.”

Se deflação é aqui entendida com uma queda do nível geral de preços, reitero o ponto feito anteriormente: o crescimento econômico é plenamente compatível com uma moeda que se aprecia ao longo do tempo, do ponto de vista tanto teórico quanto empírico – basta analisarmos a forte expansão econômica do século XIX nos EUA e no mundo como um todo, período em que a ordem monetária funcionava sob o padrão-ouro e em que a estabilidade dos preços era a norma.

Mas usando a própria lógica do autor, a premissa de “deflação e economia em expansão continuada” é incongruente, pois ele mesmo afirma que a inflação zero ou deflação “é uma séria ameaça associada à estagnação e ao desemprego”. Tomando essa alegação como verdade, caso o bitcoin se torne a moeda predominante, não haveria crescimento econômico, e o autor não precisa se preocupar com deflação ilimitada – ela jamais ocorreria. Ele precisa escolher das duas uma: ou a queda de preços inibe o crescimento econômico, ou a economia cresce a despeito da queda de preços. Como diz o ditado inglês: “You can’t have your cake and eat it too.”

“Na prática, é muito improvável que isso aconteça, devido a um fato monetário bem atestado desde o tempo do Império Romano: a Lei de Gresham, geralmente formulada como ‘A moeda ‘ruim’ tende a expulsar do mercado a moeda ‘boa’’. Se existe uma moeda mais sujeita a desvalorização, é essa que vai ser usada nas transações comerciais, enquanto aquela ‘imune à inflação’ sai de circulação para ser guardada debaixo dos colchões como tesouro.”

Essa formulação tem por base a interpretação equivocada da famosa lei de Gresham. A lei de Gresham é válida apenas quando há um controle de preços imposto pelo governo sobre o dinheiro. O que ela diz, na verdade, é que “o dinheiro que está artificialmente sobrevalorizado pelo governo tirará de circulação o dinheiro que está artificialmente subvalorizado”.

Ou, dito de outra forma, apenas quando o governo obriga os cidadãos a aceitarem uma moeda ruim (lei de curso forçado) é que ela será empregada nas trocas e os indivíduos entesourarão a moeda boa não depreciada. Mas façamos um experimento mental: se não houvesse imposição legal alguma quanto às moedas a serem aceitas nas trocas comerciais, quem em sã consciência preferiria receber uma moeda ruim no lugar de uma boa?

O autor, no entanto, rebate essa pergunta na seção de comentários, logo abaixo do artigo, com a seguinte alegação: “A lei de Gresham não tem nada a ver com uma imposição de usar somente a moeda ‘ruim’. É resultado da escolha racional do agente privado. Se ele acredita que uma moeda tende a se desvalorizar, vai procurar passá-la para a frente e assim colocá-la em circulação, ao mesmo tempo que evita gastar aquela que acredita que vai se valorizar e portanto a tira de circulação e a converte em tesouro”.

Esquece ele que somos todos compradores e vendedores e que uma troca é uma via de mão dupla. Quem compra não tem o direito de impor ao vendedor a moeda que dará em troca – a não ser que haja uma lei que assim obrigue as partes. Na posse de uma moeda ruim, o comprador não conseguirá “passá-la para a frente e assim colocá-la em circulação”, porque o vendedor não aceitará uma moeda que tende a se desvalorizar.

Em um livre mercado, dinheiro bom expulsa o dinheiro ruim, não o oposto. É o resultado da escolha racional dos agentes privados. Ou alguém acredita que, na década de 80, algum brasileiro teria voluntariamente aceitado os cruzados – que valiam menos dia após dia –, caso não fosse obrigado a assim fazê-lo?

“A moeda ideal não deve ter quantidade eternamente congelada, nem sequer valor permanentemente estável, mas sim ser racionalmente ajustável às necessidades da economia.”

A moeda ideal deve ser livre e nada além disso. Implícito no argumento de que a moeda deve ser “racionalmente ajustável às necessidades da economia” está a figura do planejador central, isto é, aquele que deverá “ajustar a moeda às necessidades da economia”. O problema é que a história do mundo está repleta de episódios em que a moeda foi ajustada às necessidades dos governos, não da economia ou da sociedade, quem em última instância pagou pelos “ajustes”.

Deve haver liberdade tanto de escolha quanto de provisão de moeda. Em um ambiente de liberdade monetária, não sabemos se o dólar, o real ou o bitcoin prevaleceriam. Só o tempo e o mercado – representado pelas escolhas individuais dos cidadãos – resolveriam essa questão.

A priori, podemos afirmar apenas que o ser humano prefere o melhor ao pior, mais a menos. Nesse sentido, tendemos a preferir uma moeda que se aprecia ou mantém o poder de compra a uma que é desvalorizada constantemente. Mas escassez relativa não é a única característica que faz uma moeda ser escolhida pelo mercado. Que a concorrência forneça alternativas para o mercado decidir.

“Essa é a principal razão pela qual e se pode afirmar que as expectativas em torno do bitcoin são exageradas. Mais cedo ou mais tarde, isso será compreendido e seu valor se ajustará a um papel marginal na circulação monetária – um meio para transações em um ‘mercado cinza’ mais ou menos tolerado pelos governos, assim como as notas de 500 euros – ou entrará em colapso. Pior ainda para as imitações que se multiplicam sem controle.”

Afirmar que a Lei de Gresham é a “razão para desacreditar no bitcoin” diz mais sobre o entendimento do autor acerca dos fenômenos monetários do que sobre o futuro da criptomoeda. Se as expectativas são exageradas ou não, depende de cada ator individualmente.

Mas não nos esqueçamos, quando o bitcoin foi criado, a própria expectativa de que ele pudesse algum dia ser usado para comprar um cappuccino era em si mesma considerada um exagero. Algo descabido e desconectado da realidade. Mas a despeito da opinião e da previsão dos economistas, cá estamos.

Por fim, se o bitcoin algum dia vier a colapsar, não será por nenhuma das razões expostas pelo autor. Será por alguma falha grave na tecnologia ou porque alguma criptomoeda aprimorada a superou – o que beneficiaria ainda mais os indivíduos. Uma moeda que tende a se valorizar – o que os economistas modernos chamam de deflação – não fracassa por apreciar-se ao longo do tempo. Mas uma moeda que é inflacionada ou até mesmo hiperinflacionada só é entesourada por um tempo mínimo necessário e, na maior parte das vezes, quando há algum tipo de coerção institucional que a respalde.

No fim das contas, este artigo é mais um exemplo do desconhecimento dos economistas não sobre o bitcoin, mas sobre a própria noção de moeda. O artigo evidencia não o que há de errado com a moeda digital, mas sim o que há de errado com a ciência econômica mainstream.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil