O colapso da MtGox, uma corrida bancária digital (Parte 2/2)

Na primeira parte deste post, fizemos referência às reservas fracionárias para entender como a queda da MtGox foi possível. Encerramos esta parte final, analisando o caso concreto da exchange, possivelmente a maior fraude da história do Bitcoin até o momento.

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O colapso da MtGox, estupidez ou má-fé?

Crítico contumaz da MtGox, o especialista em segurança de TI Andreas Antonopoulos já vinha alertando sobre os perigos da exchange pelo menos desde abril de 2013, quando então acusou a empresa de ser “um risco sistêmico ao Bitcoin, uma armadilha mortal aos traders e um negócio gerido por incompetentes”. 

Sendo uma empresa que controlava e custodiava os bitcoins de seus clientes, a MtGox precisava adotar práticas prudentes de armazenamento desses saldos. Segundo a companhia, a maioria dos fundos era mantida na forma off-line (cold storage), técnica que permite uma segurança bastante confiável contra ataque de hackers. Apenas o estritamente necessário para as retiradas usuais do negócio era mantido online (hot wallet). Dessa forma, caso houvesse investidas de algum hacker, apenas os bitcoins armazenados na hot wallet estariam sob risco potencial.

Mas, ao fim da segunda-feira, 24 de fevereiro, a MtGox já estava em uma crise sem volta. E ao contrário do que alegava, um documento vazado da companhia atestava que a maior parte dos bitcoins havia desaparecido – cerca de 744.408 bitcoins, equivalente a US$ 370 milhões – supostamente, devido a ataque de hackers e aos problemas da tal transaction malleability. Como muito bem apontado por Antonopoulos, isso significava que ou a companhia havia feito falsas declarações de suas práticas de segurança ou era simplesmente uma mentira descarada, uma vez que a MtGox alegava manter a maior parte dos bitcoins de clientes na forma off-line.

Jeff Garzik, desenvolvedor do Bitcoin e igualmente perplexo com o tamanho do prejuízo, escreveu em seu Twitter: “Caso verdade, o tamanho da perda é atordoante. Gox parece ter violado não somente a confiança, mas contabilidade básica, programação, e princípios de segurança financeira”.

 

Se a MtGox agiu de má-fé ou foi extraordinariamente incompetente, não podemos saber. Aguardemos os desdobramentos dessa crise. O que, sim, é certo, é que a MtGox estava basicamente operando sob um regime de reservas fracionárias e, possivelmente, há alguns anos, como o próprio documento vazado comprova (ainda não se sabe se o documento é genuíno). A empresa vendia bitcoins que não possuía. Os clientes, por sua vez, acreditavam estar comprando bitcoins, mas estavam apenas acumulando promessas de pagamento na moeda digital. 

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Mas e por que a queda não aconteceu antes? Simplesmente porque os ativos detidos em bitcoins eram suficientes para fazer frente às retiradas ao longo desses últimos meses. Como ocorre com qualquer banco que opera sob esse regime, enquanto os clientes não aparecem em massa para resgatar seus depósitos, não há problema. Mas no dia em que a maioria muda de percepção e resolve sacar seu dinheiro, o banco vai à bancarrota.

Muito provavelmente, a MtGox estava tecnicamente insolvente há alguns meses, mas conseguiu postergar o inevitável até agora. Mas alguma hora a corrida bancária chega, até mesmo no mundo digital. Por fim, o que realmente assombra é a magnitude do seu passivo frente ao ativo, 744 mil bitcoins para apenas 2.000 em hot wallet  uma fração de meros 0,3%, de dar inveja aos bancos mais alavancados do mundo (se os dados do documento acima forem fidedignos). O que me faz perguntar: esses 744 mil bitcoins desapareceram de fato ou grande parte nem sequer existiu?

As lições para o futuro e a resiliência da moeda digital

Como já mencionado em um post anterior, a indústria do Bitcoin é nascente. Isso significa que ainda há players nesse mercado com baixa qualificação, adotando práticas de gestão ruins, no melhor dos casos, ou até mesmo ilegais. Ainda não temos certeza de em qual dos casos a MtGox se encaixa, incompetência pura ou safadeza, mas não seria imprudente afirmar que haja um pouco de cada. Em suma, a MtGox representa o fracasso de uma exchange mal gerida que havia centralizado o controle dos fundos dos clientes em contas de custódia, fora do blockchain. Ao manter os saldos fora do registro público do Bitcoin, a empresa removeu as proteções de transparência e o controle pelo usuário final, “replicando o modelo de um banco centralizado”, de acordo com Antonopoulos, “sem os controles e a supervisão que tais instituições requerem”.

Felizmente já há iniciativas no sentido de remediar esse problema e evitar que exchanges reportem saldos que não possuem – o que significa a prática de reservas fracionárias –, como a da CoinKite, cujo relatório de auditoria amplo e transparente é disponibilizado publicamente pela empresa, ou até mesmo a implementação sugerida pelo desenvolvedor Greg Maxwell para comprovação dos saldos em contas das exchanges. É o mercado impondo as melhores práticas de gestão e segurança e a criptografia assegurando comprovação matemática da solvência de exchanges e impedindo, assim, a imprudente prática das reservas fracionárias; a criptografia logrará o que a legislação e a regulação foram incapazes de garantir por milênios.

Mas enquanto essas melhorias não estejam perfeitamente implantadas, reitero o que já recomendei no passado: evite deixar bitcoins em exchanges que custodiam seus saldos fora do blockchain. Quando você compra a moeda por meio dessas empresas, você tem a opção de retirar seus bitcoins, transferindo-os a uma carteira que só você controla. Assim, você não fica sujeito ao risco da empresa. Mas, por outro lado, você assume a responsabilidade de guardar os seus bitcoins. Portanto, é tarefa primordial a qualquer interessado em adquirir bitcoins aprender como armazenar com a máxima segurança possível as senhas da sua carteira.

A verdade é que a resiliência do Bitcoin é notável. Apesar de todos esses péssimos episódios, seu preço segue sendo negociado em patamares muito superiores aos de há alguns meses, a taxa de hash continua crescendo exponencialmente, e os fundamentos do protocolo permanecem tão robustos e seguros quanto antes.

Por pior que tenham sido os danos à imagem do Bitcoin e, principalmente, as perdas dos clientes fraudados, a queda da MtGox revelou algumas vulnerabilidades, impelindo a busca de soluções e tornando a própria tecnologia mais sólida do que antes. O Bitcoin não está pronto para a adoção maciça mundial. Mas cada obstáculo ultrapassado o torna mais forte.

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Assim é o mercado, um processo de concorrência, de tentativa e erro, em que os indivíduos e as empresas vão aprendendo e corrigindo os desvios de rota. Felizmente não há bancos centrais prontos para resgatar os “grandes demais para falir” na economia do Bitcoin. Isso faz com que não haja risco moral algum; as más condutas são assim punidas, propiciando lições genuínas de aprendizado e melhoria para a prevenção de problemas futuros. Os medíocres perecem e os competentes prosperam. Não há incentivo melhor à prudência do que o risco de falência. Tenho certeza de que esse drama levará não somente as empresas a se profissionalizar, mas também os consumidores a buscar exchanges comprovadamente seguras.

Por fim, que fique claro aos usuários e às demais partes interessadas: é preciso distinguir entre um sistema de confiança descentralizada (o Bitcoin) e as falhas de uma empresa que não adotou os mecanismos de segurança oferecidos pela tecnologia do blockchain do Bitcoin. A grande sacada do Bitcoin é remover a necessidade de confiança em alguma entidade central, mantendo de forma distribuída um registro público e universal (o blockchain) inviolável por malfeitores. A MtGox preferiu prescindir do blockchain, reinstaurando a necessidade de confiança em um ente central (ela própria), e por isso sucumbe. O Bitcoin, no entanto, seguirá trilhando seu caminho mais forte do que ontem. 

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil