O sistema educacional tem parte da culpa: os altos custos dos sistemas judiciário e de saúde nos EUA

Por que os EUA conseguem, simultaneamente, manter os melhores hospitais e firmas de advocacia do mundo, mas não conseguem fornecer tais serviços de maneira igualitária para a população?
Por  Matheus Tavares dos Santos
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O sistema de saúde e judiciário nos Estados Unidos são mundialmente reconhecidos por seus altos custos. Os EUA gastam mais em advogados e no sistema de saúde do que qualquer outro país do mundo – tanto em termos absolutos quanto relativos (porcentagem do PIB) – e, mesmo assim, possuem uma cobertura consideravelmente menor que outros países desenvolvidos.

Para ilustrar: o gasto per capita em saúde nos EUA chega a US$ 12 mil por ano, enquanto países como Reino Unido e Japão gastam quase 60% a menos – e, mesmo assim, durante o auge do Obama Care, a cobertura de seguros-saúde nos EUA ainda era 10% menor que a dos demais países desenvolvidos.

Em termos de legal services, os EUA sozinhos representam 50% dos gastos de todo o mundo, quantia duas vezes maior que os gastos de toda a Europa.

Contudo, isso não quer dizer que o problema do sistema judiciário e de saúde dos EUA esteja nessas próprias indústrias, uma vez que boa parte de suas ineficiências têm raízes no sistema educacional.

Ao contrário do resto do mundo, advogados e médicos nos EUA requerem formações em doutorado. Ou seja, enquanto um médico na Europa se forma, em média, em cinco anos, nos EUA, é comum levar de 10 a 15 anos para formar um profissional especializado em certas áreas médicas.

Isso não quer dizer apenas que a vida ativa de um médico no mercado de trabalho nos EUA é dez anos menor, mas, principalmente, que o custo de formação de um profissional é demasiadamente maior devido a um sistema educacional caro.

Com um custo médio anual de cerca de US$ 55 mil em uma Medical School (R$ 290 mil/ano) e de US$ 45 mil em uma Law School (R$ 235 mil/ano), o custo-oportunidade de formação de um profissional na área passa da faixa dos milhões de dólares por profissional, contando tanto os gastos em educação, quanto dezenas de meses de salários não ganhos durante os anos de estudo.

Quando comparado com faculdades na Europa, em que o custo é insignificante e o período de formação é quase três vezes menor, o sistema educacional dos EUA infla o preço dos profissionais da lei e saúde.

Ilustrativamente, nos EUA, o salário de um médico é duas vezes maior que a média dos países desenvolvidos, fato que denuncia a origem do problema: o custo de formação de tais profissionais eleva o custo de seu serviço a um valor desproporcionalmente mais caro.

Melhores, mas inacessíveis: a alta qualificação dos médicos gera menor penetração dos serviços

O custo do serviço inflado aumenta consideravelmente a significância desses setores no PIB. Os EUA gastam cerca de 18% do PIB em saúde – 56% a mais do que os 11,5% que os demais países desenvolvidos.

Todavia, isso não quer dizer que toda a população tem acesso a esses serviços. Na verdade, devido aos altos custos, a maior parte do faturamento dessas indústrias fica concentrada em atividades de alto valor agregado, mas de menor penetração nas camadas mais baixas.

Quando se trata de serviços de advocacia, por exemplo, a maior parte do faturamento da indústria vem de serviços prestados a corporações.

A Thomson Reuters estima que o tamanho da indústria de serviços legais nos EUA seja de US$ 437 bilhões e, desse montante, mais de um terço (US$ 160 bilhões) representa apenas os departamentos jurídicos internos de empresas. E, mesmo entre os dois terços restantes (US$ 277 bilhões), 27% são gastos em assuntos relacionados à propriedade intelectual e 41% para Mergers & Acquisitions, ou seja, em serviços para corporações.

Dentro desse contexto, existem inclusive hedge funds dedicados a financiar ações judiciais. Assim, torna-se fácil entender o motivo de como apenas um advogado nos EUA gera, em média, mais de US$ 1 milhão em legal fees por ano.

Isso não significa que não existem problemas estruturais dentro do próprio sistema judiciário e de saúde dos EUA. mas, sem dúvidas, o setor educacional também tem sua parcela de contribuição para as ineficiências dessas duas indústrias, seja nos altos custos de formação das faculdades americanas ou devido ao fato de se levar mais de dez anos para a formação dos profissionais desses ramos.

Essa realidade não apenas infla os preços praticados nas indústrias, mas, consequentemente, torna seus serviços inacessíveis.

Assim, os EUA conseguem, simultaneamente, manter os melhores hospitais e firmas de advocacia do mundo, mas não conseguem fornecer tais serviços de maneira igualitária para a população.

Matheus Tavares dos Santos Matheus é analista de investimentos em fundos de hedge na maior asset management do mundo. Em cargos anteriores, ele foi trabalhou em um fundo de Venture Capital com foco na América Latina e teve experiencias em bancos brasileiros e norte-americanos assim como na bolsa de valores brasileira.

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