WeWork, a ilha da fantasia e o IPO perfeito para shortear

Os habitantes da Ilha da Fantasia alegam que a empresa vale muito porque está crescendo muito rapidamente, algo digno de uma empresa de tecnologia. Mas WeWork não é uma empresa de tecnologia

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De volta ao mundo da fantasia, tivemos essa semana a notícia de que o IPO (oferta pública inicial) das ações da WeWork não deve mais acontecer. Isso é uma chateação, já que estou sempre à procura de ações de empresas que sejam negociadas a preços estratosféricos para poder shortear (vender a descoberto).

Em certo ponto, a WeWork chegou a ser avaliada pela Goldman Sachs em US$ 65 bilhões, e Masayoshi Son, CEO do Softbank, investiu mais US$ 2 bilhões na empresa esse ano a um valuation de “apenas” US$ 47 bilhões. No total, o Softbank já despejou ou se comprometeu a despejar quase US$ 11 bilhões na empresa. Agora, contudo, estão tendo dificuldades em fazer o IPO até mesmo em um patamar de US$ 10 bilhões.

Os habitantes da Ilha da Fantasia alegam que a empresa vale muito porque está crescendo muito rapidamente, algo digno de uma empresa de tecnologia. Mas WeWork não é uma empresa de tecnologia e seu modelo, amplamente divulgado pela Regus (e outras), tampouco é original. A única parte original é a cerveja/tequila e confesso que nunca ouvi falar na Regus ou nas suas concorrentes oferecerem álcool aos inquilinos.

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O modelo de negócio é muito simples: a WeWork aluga espaços em prédios comerciais e os subloca para potenciais empreendedores. Com um ambiente mais descolado e foco em startups, a empresa vem crescendo a taxas realmente impressionantes.

Mas eu vejo isso de maneira diferente: se você vender seu produto a um preço muito abaixo do custo, você vai vender muito – mas isso não quer dizer que o modelo seja sustentável ou que você deva fazê-lo. Imagina qual seria a demanda por BMWs se a empresa decidisse vender seus modelos a US$ 1?

A WeWork, que conseguiu ter um prejuízo de US$ 1,9 bilhão no ano passado, ante uma receita de US$ 1,8 bilhão, tem problemas para todos os lados. Além de nunca ter obtido lucro, não tem planos de conseguir atingir um nos próximos anos.

Aliás, eu poderia até dissertar sobre a importância de não ter lucro. Uma vez que a empresa passa a ter lucro, ela é avaliada por um múltiplo desse valor. Se, por outro lado, ela só der prejuízo, métricas mirabolantes e criativas para avaliá-la são adotadas e disseminadas entre analistas – e isso serve a um propósito, justificar um preço.

Estatísticas não financeiras como número de acessos, de contas abertas ou de usuários passam a servir como referência em algumas situações. Em outras, opta-se por subir no DRE em direção a algum número que seja positivo, passando pelo EBITDA, lucro bruto, até chegar à receita.

Seu fundador, Adam Neumann, recebeu quase US$ 6 milhões há alguns meses por deixar a empresa usar a marca We (após a primeira tentativa frustrada de IPO, Neumann devolveu os recursos para a empresa).

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Ele também tem ações diferentes das do público, com poder de voto 20 vezes maior (essa atrocidade também foi renegociada na última semana e agora seu poder de voto é “apenas” 10x maior).

Mas o mais interessante, no meu ponto de vista, é que ele pegou dinheiro emprestado com a empresa para comprar imóveis que ele alugou para a própria empresa – obviamente, nenhum conflito de interesses aí.

Também, para facilitar o IPO e atrair mais deslumbrados investidores, agora o Conselho da empresa pode demitir o CEO, caso julgue melhor para a companhia – até a semana passada, não podia, ou seja, o Conselho não justificava sua existência.

Ainda não sei se a WeWork é uma empresa de tecnologia sem tecnologia ou uma empresa imobiliária sem imóveis. Mas sei que a Regus vale GBP 3,6 bilhões na bolsa londrina, é lucrativa e paga dividendos.

A WeWork, ainda que viesse a bolsa a um valuation de US$ 15 bilhões (a última notícia é que viria a US$ 10 bilhões – menos do que o dinheiro que já levantaram até hoje), valeria 3 vezes mais que a concorrente. Pense sobre isso um instante, por que o Softbank e a WeWork seguiriam com um IPO desses por um valor 75% menor do que o estimado inicialmente?

Provavelmente o melhor caminho para o Softbank seja seguir com o IPO, já que o mesmo dará alguma liquidez para ele. Apesar do fundo ter que assumir um prejuízo de quase US$ 7 bilhões com o investimento, pelo menos terá liquidez e a empresa conseguirá levantar mais dívidas para manter esse castelo de cartas em pé por enquanto.

Taxas de juros negativas distorceram totalmente o mercado financeiro e empresas como Tesla, WeWork, Pinterest e tantas outras não existiriam fora da Ilha da Fantasia dos bancos centrais.

Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.