Olhando por trás dos números

No mercado atual, em que o preço dos ativos sempre sobe graças a doses cavalares de QE (injeção de liquidez pelos bancos centrais), o trabalho dos investidores fundamentalistas se torna cada vez mais difícil. Isso, porque os agentes começam a valorizar unicamente o famoso EPS (earnings per share, ou lucro por ação), em vez de avaliar a fundo os fundamentos da empresa. Tudo se resume a atingir e ultrapassar o EPS esperado pelos analistas, para que uma ação pareça valer a pena.
Por  Marcelo López
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No mercado atual, em que o preço dos ativos sempre sobe graças a doses cavalares de QE (injeção de liquidez pelos bancos centrais), o trabalho dos investidores fundamentalistas se torna cada vez mais difícil. Isso, porque os agentes começam a valorizar unicamente o famoso EPS (earnings per share, ou lucro por ação), em vez de avaliar a fundo os fundamentos da empresa. Tudo se resume a atingir e ultrapassar o EPS esperado pelos analistas, para que uma ação pareça valer a pena.

Várias empresas, já sabendo disso, manipulam essa métrica da maneira mais óbvia, contudo, os investidores parecem simplesmente ignorar ou não se preocupar. Por exemplo, se uma empresa registra vendas de $1,000, um lucro de $100 e tem um total de 100 ações, o EPS dessa empresa é de $1. Se a mesma empresa não aumentar suas vendas, nem melhorar suas margens, ela consegue fazer esse índice subir apenas recomprando suas próprias ações. Assim, se a empresa recompra 20 dessas ações, sem mudar absolutamente nada em sua operação, ela consegue apresentar um EPS de $1,25, o que implica em uma alta substancial de 25% nos lucros por ação.

O movimento de recompras de ações tem sido um dos propulsores do atual mercado. São muitos os benefícios para vários envolvidos, pelo menos enquanto dura a tendência de alta do mercado, chamada comumente de bull market. Várias empresas emitem dívida e usam os recursos captados para recomprar suas próprias ações, sem levar em consideração se esse é um investimento realmente saudável para as empresas e acionistas. Para os executivos da empresa, isso significa preços das ações mais altos e, consequentemente, maiores bônus. Para os acionistas, isso significa um ganho de capital. E essa roda vai girando, até o momento em que esse movimento se reverte e as empresas são obrigadas a emitir ações para pagar a dívida anteriormente assumida. Já falei sobre isso antes e os riscos estão aumentando.

Ao tentar encontrar algo em que realmente valha a pena investir, sempre olho para ativos que são pouco conhecidos, ou seja, que não estão na moda. Normalmente, existem preconceitos contra eles, até parecem fadados a chegar a zero e vem andando nessa direção há algum tempo, o que reforça ainda mais a tese. Para piorar, os grandes investidores os estão vendendo ou não querem nem chegar perto ou ao menos ouvir falar.

Acho que encontrei algo interessante, além do urânio. São mineradoras dos chamados PGMs (metais do grupo da platina) que operam no sul do continente africano (África do Sul e Zimbábue). Além dos inúmeros problemas enfrentados por essa indústria em declínio, com a platina custando mais hoje para ser obtida do que seu valor de venda, a produção desses metais está concentrada em lugares pouco amigáveis para investidores.

A hora de começar e investir nesses ativos é justamente quando todos estão olhando para o outro lado, em uma corrida maluca (e suicida) para ver quem consegue pagar mais caro por um ativo que já está superavalidado e, por isso mesmo, apresenta as menores taxas de retorno nos anos à frente. 

Marcelo López Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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