O que a constante troca de técnicos no futebol tem a ver com investimentos

Os brasileiros têm uma tendência a focar demais em rentabilidade naquele instante, em resultados imediatos

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Arsene Wenger foi provavelmente o técnico de futebol mais famoso da história do Arsenal, popular clube londrino. Eu pude ir a alguns jogos do time e o respeito com o qual os torcedores e jogadores o tratavam era impressionante – e isso pouco mudou, apesar do time ter ficado anos (de 2004/5 a 2013/14) sem ganhar absolutamente nada.

A mesma coisa podemos dizer de Sir Alex Ferguson, que comandou o Manchester United por 27 anos e é considerado o treinador mais vitorioso da história do futebol.

Apesar de eu não seguir o futebol americano, podemos inferir também que os técnicos tendam a ficar um bom tempo nas equipes – o time mais famoso no momento, o New England Patriots, vencedor do último Super Bowl, está com o mesmo técnico, Bill Belichick, há 19 anos, sendo que eles ficaram sem ganhar nenhum Super Bowl de 2004 até 2014!

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O mesmo não se pode dizer dos times brasileiros. Aqui, técnicos com um histórico invejável são trocados após poucas partidas sem vitória. Uma mesma esquipe da série A chega a ter mais de 5 comandantes em uma única temporada.

Esse foco excessivo no curto-prazo faz com que os técnicos se preocupem somente com o próximo jogo, não em montar um time vitorioso para o longo-prazo, seguindo um planejamento plurianual. Isso, em parte, explica a dominação dos europeus nos últimos anos no Mundial de Clubes.

E o que isso tem a ver com investimentos? Bom, muita coisa. Os brasileiros têm uma tendência a focar demais em rentabilidade naquele instante – é um festival de olhar cotas diariamente e comparar com o CDI que nunca vi em nenhum lugar do mundo.

Investidores saem de fundos que perderam para o benchmark num mês e correm para os que estão se sobressaindo no período, e repetem no período seguinte (escrevi sobre esse problema aqui). Acredito que a origem disso esteja na época da hiperinflação, quando não se podia nem piscar e era preciso olhar o overnight diariamente e decidir para onde enviar os recursos.

Felizmente, agora a situação é diferente e é necessário usar um pensamento mais voltado ao longo-prazo, focando na relação risco x retorno de cada um dos investimentos e como eles funcionam no portfólio sob uma perspectiva global, abrangente. Isso fará toda a diferença no futuro.

Para atingir esses objetivos é necessário, mais do que nada, paciência. Como já disse Warren Buffett várias vezes, não é imprescindível ter um QI muito acima da média para participar desse jogo – na verdade, ele pode ser até prejudicial. Obviamente, inteligência e muito trabalho contam, mas depois do trabalho (bem) feito, saber esperar e não desesperar seja talvez a melhor estratégia.

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Ter uma visão global e investimentos seguros em lugares fora do país são sempre uma excelente recomendação. Não é possível, por exemplo, comprar ações de mineradoras de ouro (tópico importante agora e que estou recomendando há mais de um ano) no Brasil, embora várias tenham operações no país.

O mesmo vale para a prata, urânio (que achamos ser uma oportunidade única e valiosa) e até mesmo para setores nos quais achamos que temos alguma opção, como o de óleo e gás.

O Brasil representa menos de 1% do mercado financeiro global e agora, com a taxa de juros caindo, várias dificuldades aparecerão. Imagina só a situação daquele fundo de pensão cuja meta atuarial é de inflação +6% – onde ele vai conseguir esses números? Ou a do gestor de um fundo que cobra 2% ao ano – 33% da taxa de juros anual no país.

Sou brasileiro e amo esse país, mas é preciso lembrar que o Brasil é um país em desenvolvimento e carente de vários recursos e reformas. Ter uma parte dos investimentos em outro país, mais seguro, com uma moeda forte, regras claras e menos burocracia não deveria ser um tabu, muito pelo contrário, deveria ser quase uma obrigação daqueles que querem manter seu poder de compra.

Ressalto, mais uma vez, que agora não é hora de correr riscos desnecessários. Prudência nos investimentos continua a ser a minha recomendação.

Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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