A Globo comprou exclusividade e a NFL quer descobrir quanto ela ainda vale

A estreia da liga no Maracanã coloca em discussão quanto a exclusividade ainda vale em um mercado esportivo cada vez mais fragmentado entre TV, streaming e plataformas digitais

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O primeiro jogo da história da NFL no Maracanã será ancorado pela Globo no Brasil. Para acompanhar Baltimore Ravens e Dallas Cowboys logo mais, o público terá opções no sportv, ge tv e ge.globo. Fora da oferta da emissora, o único caminho será o NFL Game Pass no DAZN.

A configuração é diferente da encontrada no segundo jogo da liga no país, ano passado, quando Los Angeles Chargers e Kansas City Chiefs dividiram espaço entre CazéTV, ESPN/Disney+, Sportv e ge tv.

É uma mudança que contrasta ainda mais com a estreia da NFL no Brasil, em 2024, quando Philadelphia Eagles e Green Bay Packers chegaram ao público brasileiro até pela TV aberta, por meio da RedeTV!.

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Nos Estados Unidos, o duelo desta noite chega aos fãs por oito caminhos diferentes de transmissão.

CBS e Paramount+ ficam com o pacote principal, enquanto NFL+, YouTube TV, DIRECTV, Fubo e Hulu + Live TV ampliam as alternativas de acesso.

A comparação entre os dois mercados abre uma discussão provocada pelo podcast Unofficial Partner desta semana: o valor e a natureza da exclusividade dos direitos de mídia estão passando por uma reavaliação.

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Murray Barnett, um dos apresentadores, lembra que a teoria tradicional defendia que “a exclusividade é fundamental”, mas questiona se ela continua sendo indispensável em um ambiente no qual o público está distribuído entre diferentes plataformas.

A própria NFL coloca essa tese à prova. Yannick Ramcke, coapresentador do podcast e gerente geral de OTT da OneFootball, reconhece a mudança na distribuição, mas relativiza seu impacto quando são consideradas propriedades esportivas de “primeira linha.”

Para ele, marcas como a NFL ainda conseguem sustentar exclusividade em jogos específicos porque continuam capazes de atrair atenção em escala global, e “superam a fragmentação.”

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Leia mais: A NFL pode crescer mais? O próximo embate está em quem define a moeda da audiência

A distribuição pulverizada também aparece na estratégia citada por Eduardo Gabbay, que enxerga o ecossistema Globo como amplificador de um esporte tradicionalmente americano e uma oportunidade para medir o alcance da emissora e de seus canais.

Em declaração à coluna, o diretor dos Canais Esportivos da Globo define a proposta multiplataforma da empresa como uma forma de “abraçar uma modalidade” e “ajudar a ampliar a relevância da NFL”, levando a liga a novos públicos.

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E os números da emissora sustentam essa leitura.

Na temporada 2025/26, os conteúdos da liga alcançaram mais de 25 milhões de pessoas na Globo. As transmissões do sportv tiveram um desempenho 56% superior ao da principal concorrente na TV paga. A editoria de Futebol Americano no ge.globo cresceu 22% no último ano e os conteúdos publicados nas redes da Globo superaram 181 milhões de videoviews.

Quando Ramcke afirma que não enxerga a NFL abrindo mão da exclusividade em jogos específicos e que, “partida a partida”, ainda haverá espaço para um comprador exclusivo, ele descreve uma visão de mercado que reverbera no Brasil.

Mesmo com a ESPN como outra detentora dos direitos no país e depois de duas temporadas compartilhando a exibição do jogo internacional, a NFL escolheu concentrar o duelo do Maracanã nos canais Globo.

Leia mais: Globo, NFL e o déjà-vu de 2006: a mesma disputa, agora em um jogo global e mais fragmentado

O confronto desta noite faz parte dos “mais de 80 jogos” assegurados pela emissora. Desse total, 41 serão exclusivos do sportv.

Barnett chama de “teoria antiga” a ideia de que um conteúdo fora dos canais esportivos próprios representa perda de público. A discussão atual passa pela capacidade de manter o conteúdo dentro do ecossistema e ampliar os pontos de contato com o fã.

Outros 40 jogos serão distribuídos pela Globo na ge tv. A oferta de partidas gratuitas no YouTube dentro desse hub cria um paralelo intrigante com o atual momento do NFL Sunday Ticket nos Estados Unidos.

Chamado pela NBC de “milagre moderno para os fãs de futebol americano”, o pacote adquirido com exclusividade pelo YouTube por US$ 2 bilhões em 2023 enfrenta uma redução no número de jogos disponíveis e aumento nos preços.

O problema de vender escassez em um mercado de abundância

Em 2002, a primeira temporada da NFL com 32 times, 215 dos 256 jogos (84%) foram disputados na tarde de domingo. Em 2025, já com uma semana a mais de temporada regular, esse número caiu para 198 das 272 partidas (73%).

A contagem feita pelo Wall Street Journal coloca em perspectiva a transformação do produto. O YouTube aumentou o preço do Sunday Ticket em quase 30%, enquanto o pacote passou a oferecer menos jogos.

Hoje, a assinatura custa US$ 82,99 por mês e entrega todos os confrontos de domingo à tarde fora do mercado local de cada time, com mais de 140 partidas por temporada.

Agora, a tentativa de transformar a paixão do fã hardcore da NFL em uma assinatura premium encontra novos desafios. Segundo o WSJ, muitos assinantes contratam o serviço para acompanhar seu time favorito, porém uma parcela deles não vive na região daquela franquia.

A análise indica que o Sunday Ticket perdeu parte da urgência para torcedores de equipes populares, que aparecem com frequência nas transmissões nacionais.

No ano passado, por exemplo, Chiefs e Cowboys disputaram oito partidas cada em horários nacionais, como Sunday Night Football ou outros dias da semana. Muitas das partidas de domingo à tarde também foram exibidas em grande parte do país pela Fox ou pela CBS.

Quando o pacote foi lançado em meados dos anos 90, a realidade era outra. Existia apenas uma janela semanal da NFL além do Monday Night Football. Mais de 90% da temporada regular era disputada aos domingos à tarde.

Naquele contexto, o Sunday Ticket resolvia um problema concreto. O torcedor perdia vários jogos importantes por semana e, em alguns casos, todas as partidas do seu time. O pacote se tornou um produto inovador para o mercado e ajudou a impulsionar a DirecTV, que atingiu seu auge com 21 milhões de assinantes em 2016.

A retrospectiva feita pelo analista Patrick Crakes reforça por que ele diz que o Sunday Ticket nunca foi pensado apenas como um produto independente da NFL, mas como uma ferramenta de aquisição de assinantes e marketing para um serviço de televisão por assinatura via satélite.

Mais de três décadas depois, a mudança de contexto expõe o desafio atual do YouTube. No ano passado, a plataforma desembolsou cerca de US$ 100 milhões para transmitir gratuitamente em todo o mundo o São Paulo Global Game.

Leia mais: NFL transforma São Paulo em vitrine global com expansão digital e ofensiva de marca

O projeto-piloto da NFL dentro dentro de seu laboratório sofisticado na gestão de seus direitos alcançou 17,3 milhões de audiência média global, sendo 16,2 milhões nos Estados Unidos e 1,1 milhão fora do país.

Um ano depois, a ge tv no YouTube se torna uma das poucas operações no mundo a transmitir jogos oficiais e ao vivo da NFL gratuitamente.

Leia mais: O próximo negócio da mídia esportiva: direitos, plataformas e criadores como novo eixo de valor

Resgatar a história do Sunday Ticket é relevante para mostrar como o valor de um direito esportivo está ligado à estratégia de distribuição construída ao seu redor.

A DirecTV usava o apelo da NFL para atrair assinantes nos anos dourados da TV por assinatura. No Brasil, a Globo testa uma adaptação desse modelo ao conectar exclusividade regional, distribuição aberta e produção de conteúdo para aproximar a liga de novos públicos.

Leia mais: A NFL esticou a corda e pode quebrar o modelo de TV

Como explicou Gabbay, ao combinar “o alcance da TV Globo, a profundidade da cobertura do sportv, a capacidade de distribuição e engajamento da ge tv e a força das plataformas digitais”, a emissora amplia a exposição da NFL e apresenta o esporte a diferentes perfis de público, criando “novos pontos de contato ao longo da semana”.

A difícil equação entre alcance e escassez

Na última quinta, o jogo entre Green Bay Packers e Atlanta Falcons foi exibido exclusivamente pelo sportv. A ge tv disponibilizou os melhores momentos na sequência, e 12 horas depois, o compacto de pouco mais de 15 minutos acumulava 22 mil visualizações no YouTube.

Para a segunda temporada da NFL na Globo, Gabbay explica que a emissora ampliou a oferta de conteúdo. Foram adicionados mais jogos no sportv, que além do Thursday Night Football passou a contar com três slots consecutivos em cada domingo da temporada, novos quadros, um pré-jogo especial na ge tv aos domingos com participação de influenciadores e o Radar NFL, boletim semanal exibido na TV Globo para abrir a rodada.

Em um trecho do podcast Unofficial Partner, Ramcke retoma essa discussão ao afirmar que audiência depende da combinação entre conteúdo e distribuição.

O analista usa a própria NFL como exemplo ao lembrar que a migração do Thursday Night Football para a Amazon não eliminou o alcance do produto. Para ele, a força da liga faz com que uma nova plataforma consiga construir audiência ao longo do tempo.

“Leva tempo, mas as pessoas comparecem”, resumiu.

Depois do jogo estreante no Maracanã, a Globo terá Los Angeles Rams e Denver Broncos pelo Sunday Night Football. Antes, abrindo a jornada, Cincinnati Bengals e Pittsburgh Steelers.

O esforço para uma jornada multiplataforma de 10 horas é explicado por Gabbay a partir da ótica de “um evento com potencial para mobilizar diferentes públicos em todo o nosso ecossistema.”

No fim, a estratégia da Globo se conecta a uma discussão maior sobre o valor dos direitos esportivos em um mercado pulverizado.

Para Ramcke, a fragmentação muda a forma de avaliar uma propriedade esportiva. A audiência distribuída entre diferentes ambientes exige uma capacidade maior de transformar dispersão em escala sem diluir a força do produto.

Em ativos com escala suficiente para mobilizar atenção em diferentes plataformas, a exclusividade por jogo continua tendo peso porque concentra uma demanda que poucos conteúdos conseguem gerar.

Essa é uma das particularidades da NFL. A liga reúne uma combinação rara de alcance, hábito e interesse comercial, capaz de sustentar diferentes formatos de entrega sem comprometer a força do produto.

Os próximos ciclos de direitos devem revelar em quais momentos a exclusividade continua sendo um diferencial e quando a ampliação do acesso pode gerar mais valor para o produto.


Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.