A NFL esticou a corda e pode quebrar o modelo da TV

Pressionada por política, inflacionada pela NBA e cortejada por YouTube e Netflix, a liga testa até onde vai o limite financeiro e estratégico das emissoras

Eduardo Mendes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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O YouTube está próximo de adquirir o pacote de direitos de mídia de cinco jogos que está sendo oferecido pela NFL, informou Ryan Glasspiegel, do Front Office Sports, na quinta passada. As duas partes entraram na fase de revisão contratual, considerada um prelúdio para o acordo. John Ourand, do Puck, posteriormente classificou o YouTube como “o favorito”.

A programação de cinco partidas é composta por quatro horários que a NFL liberou como parte da venda da NFL Network para a ESPN (a rede transmite sete jogos por temporada, mas, como parte dessa negociação, quatro deles agora virão do catálogo existente da ESPN) além do jogo da primeira semana da International Series na Austrália, que a liga originalmente planejava comercializar separadamente.

Conforme relatado por Mike Florio, do Pro Football Talk, a NFL está oferecendo aos interessados um “cardápio” de opções para escolher, incluindo o jogo na Austrália, um novo confronto na véspera do Dia de Ação de Graças, uma segunda partida na Black Friday e uma data na véspera de Natal que não havia sido divulgada anteriormente.

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O avanço das tratativas com o YouTube acontece em meio às investigações abertas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos para apurar se a NFL havia se envolvido em práticas anticoncorrenciais ao vender seus direitos de mídia como uma liga, em vez de equipe por equipe.

Essa é uma disposição que se estende não apenas à NFL, mas a todas as ligas esportivas profissionais do país, conforme estabelecido pela Lei de Radiodifusão Esportiva de 1961. Como parte dessa legislação, as ligas concordaram em vender sua programação para emissoras de televisão aberta.

O Sports Media Watch acredita que um acordo com o YouTube presumivelmente resolveria a crescente reação negativa em Washington contra eventos esportivos em “plataformas de streaming pagas”, supondo que a empresa disponibilizasse seus jogos gratuitamente, como fez com a partida da primeira semana no Brasil na temporada passada.

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Fontes escutadas por Alexander Sherman, da CNBC Sports, atribuem o súbito interesse do governo na NFL diretamente à Fox, a única parceira de mídia que enviou um parecer público à FCC. Conforme destacou o jornalista, a família Murdoch, que controla o canal, tem laços profundos e antigos com legisladores republicanos e com o governo Trump.

É importante lembrar que os Murdoch tomaram a decisão de reduzir o foco da Fox para programação principalmente de notícias e esportes quando venderam a maior parte de seus ativos para a Disney em 2019 por US$ 71 bilhões. Segundo relatou Sherman, o CEO da Fox, Lachlan Murdoch, já afirmou estar preparado para “reequilibrar” o portfólio esportivo da Fox para acomodar a NFL.

O lobby da Fox não é o único movimento nos bastidores. Enquanto isso, uma guerra silenciosa se desenrola em torno da decisão de opt-out a partir de 2029 relativa ao contrato vigente de US$ 111 bilhões com duração de 11 anos.

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A NFL optou por iniciar as negociações com a CBS, da Paramount, antes de qualquer outro parceiro de mídia porque uma cláusula de mudança de controle (decorrente da aquisição da Paramount Global pela Skydance Media) permite que a liga rescinda o contrato até 2027. Foi pedido um aumento de pelo menos 50% em relação ao acordo atual de US$ 2,1 bilhões/ano.

Em setembro de 2024, mostrei como a liga poderia reorganizar completamente o cenário da mídia a partir desta brecha. Na ocasião, Sherman apostava que o ano de 2029 poderia ser o fim da era da mídia moderna. Essa ruptura, por sua vez, pode chegar antes.

De acordo com o jornalista em sua última coluna, a NFL estaria buscando um aumento na casa dos três dígitos, enquanto as emissoras prefeririam algo em torno de 25%.

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Isso coincide com sua reportagem anterior, que mencionava um aumento de 50% a 60% como o “ponto médio” entre o que a liga busca e o que lhe está sendo oferecido nas negociações em andamento com a Paramount.

Se a Fox e a CBS cederem a esse aumento exigido, Sherman mostra que elas terão que pagar cerca de US$ 1 bilhão a mais por ano pela NFL.

“Isso resultaria em um de dois desfechos: ou levaria ao cancelamento de outros programas para economizar dinheiro para o futebol americano, ou representaria uma perda significativa nos lucros das empresas de mídia. Nenhum dos dois desfechos é desejável, mas a Fox corre um risco particularmente alto.”

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Do total de jogos transmitidos na temporada, 81,4% são exibidos por CBS, FOX e NBC. Enquanto a própria NFL faz questão de ressaltar que 87% dos jogos já são exibidos gratuitamente na TV aberta.

A Bloomberg questionou como as empresas de mídia poderiam reduzir o poder de negociação da NFL. A resposta pode estar no espelho, ou melhor, no que a NBA acabou de fazer.

O efeito dos US$ 76 bilhões da NBA

A pressão por números maiores no novo acordo esperado pela NFL também decorre do contrato fechado pela NBA que entrou em vigência nesta temporada 2025/26.

Sherman compartilhou dados dos analistas da Guggenheim Securities que reforçam a preocupação do comissário Roger Goodell: a negociação de direitos de transmissão da NBA prevê um custo por hora de visualização de US$ 3,55, com base na audiência de 2024.

Isso representa quase o triplo do custo por hora de visualização que a NFL gera (US$ 1,27), apesar da liga ter quase quatro vezes mais público total em horas assistidas.

A NBA passou a oferecer jogos transmitidos em rede nacional todos os dias da semana em sete plataformas (quatro canais de TV e três serviços de streaming). E isso sem contar os jogos locais.

“Quando Roger Goodell, ouviu os detalhes dos novos contratos de mídia da NBA, ficou furioso”, relatou a jornalista Hannah Miller.

A Netflix também quer participar da festa

Jessica Toonkel e Joe Flint, do The Wall Street Journal, relataram que a Netflix está interessada em expandir seu acordo atual de dois jogos de Natal para um pacote de quatro partidas, incluindo os duelos da véspera do Dia de Ação de Graças e da Série Internacional.

Isso ainda é teoricamente possível se o YouTube vencer a licitação pelo pacote de cinco jogos, dependendo do que ele for selecionar no cardápio.

O desejo da Netflix em ampliar sua atuação com a NFL, apesar de não ter interesse em adquirir um pacote maior, joga a favor da liga. Conforme frisou Sherman, se as emissoras de televisão simplesmente disserem “não” ao desejo da NFL de obter mais dinheiro agora e esperarem até 2030, ela pode simplesmente entregar seus pacotes de transmissão para o YouTube e a Netflix.

Previsões da MoffettNathanson sugerem que os direitos esportivos ao vivo representarão de 20% a 40%+ dos gastos com conteúdo das grandes empresas de mídia tradicionais. Disney e Fox são as mais expostas ao custo dos direitos ao vivo, com 41% e 63% de seus gastos com conteúdo, respectivamente. Há um prêmio assumido de 50% na NFL aqui.

Nas palavras do analista Simon Lane, não é uma decisão garantida, especialmente considerando a investigação da FCC sobre negociação coletiva, mas teria um enorme impacto no quadro geral de gastos com conteúdo, representando cerca de US$ 4 bilhões de gastos incrementais direcionados para a NFL.

O futuro do jogo de bastidores da NFL

Ao ativar a cláusula de fusões e aquisições corporativas para iniciar negociações anos antes do previsto, a NFL estaria propondo uma jogada de mestre para obter vantagem dos detentores de direitos, ou revela o quão dependentes ambos os lados estão agora um do outro, tornando isso mais um acordo mútuo do que uma negociação?

E como seria de fato um pacote da NFL no YouTube? Representaria a entrada mais significativa no mercado de direitos esportivos desde a Amazon?

Por ora, as perguntas feitas recentemente pelo Unofficial Partner ficam sem respostas. O podcast já havia projetado no início do ano que o futuro tende menos a um “Netflix do esporte” e mais à incorporação do esporte em plataformas amplas de entretenimento, essencialmente TV paga distribuída pela internet.

Leia mais: A nova matemática dos direitos esportivos

Conforme mostrei aqui em fevereiro, essa assimetria desequilibra o poder de negociação, transferindo-o dos detentores de direitos para as plataformas. E reverte décadas de dinâmica competitiva que alimentaram a inflação dos direitos.

E novamente a NFL pode interferir, com ou sem pressão dos legisladores.

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Eduardo Mendes

Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.