Fed eleva taxa de juros nos EUA em meio à queda do PIB no 1º tri: isso faz sentido?

Levando em consideração uma inflação anualizada de 8,5% ao ano, nada mais prudente do que o Fed adotar uma postura hawkish

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Os paladinos defensores da não subida de juros por choque de oferta devem estar em polvorosa, mas não sei o motivo. Já aprendemos, em aulas introdutórias de economia, que preços são formados pela conjunção de oferta e demanda. Claro que alguns ainda defendem um pouquinho mais de inflação para sustentar o crescimento econômico. Faltaram na aula dois sobre a neutralidade da moeda no longo prazo. Paciência.

Mas vamos começar com os fatos.

O Federal Reserve subiu ontem, em 0,5 ponto percentual, a sua taxa básica de juro, como forma de endereçar o impacto dos choques sucessivos da pandemia da Covid-19, da invasão da Ucrânia pela Rússia e do lockdown implantado pela China, este último que limitou o embarque de insumos importantes, como semicondutores, para a produção de drones para a agricultura, tratores, equipamentos eletroeletrônicos, elétricos, etc.

Contudo, essa decisão, a princípio, iria contra um dado econômico anterior, que mostrou recuo de 1,4% no PIB no primeiro trimestre de 2022 em termos anualizados, após ter avançado 6,9% no último trimestre de 2021.

Mas por que será que a autoridade monetária subiu juros em meio a um trimestre de queda da atividade?

Economistas muitas vezes tentam explicar o não óbvio com obviedades de certa forma dúbias, mas nesse caso, estudantes de economia entenderão. Se desmembrarmos o PIB dos EUA durante o 1º trimestre do ano, notaremos que o consumo e os investimentos em formação bruta de capital cresceram 2,7%, acima dos 2,5% do 4º trimestre de 2021 e 9,2%, bem acima dos 2.9% no trimestre anterior, respectivamente.

A pergunta, contudo, continua. Então por que a queda do PIB?

Ora, se analisarmos o PIB pelo lado da demanda, assumindo uma economia aberta, a principal causa da retração da economia norte-americana deveu-se a um aumento das importações. Como sabemos que importações são consideradas um redutor do PIB, afinal estamos consumindo bens e serviços de fora, e não produzidos aqui dentro (PIB), podemos chegar à conclusão errônea de que a economia dos EUA, de fato, esteja perdendo ímpeto.

Nada mais longe da verdade. Primeiro que sabemos que os principais fatores que impactam a importação são: Câmbio e renda doméstica. Câmbio apreciado torna mais vantajoso importar bens e serviços e um aumento da renda doméstica leva os agentes econômicos a importarem poupança como forma de atender aos seus anseios de consumo. Daí a narrativa equivocada de contração da economia norte-americana.

Baseado nessa breve digressão para graduados, e levando em consideração uma inflação anualizada de 8,5% ao ano, nada mais prudente do que o Fed adotar uma postura mais hawkish [mais dura com relação à inflação] em suas reuniões do Federal Open Market Committee (Fomc), apoiando por unanimidade um aumento na taxa básica de juro de 0,5 ponto percentual.

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Por enquanto, pelo menos aparentemente, o mercado ainda não conseguiu precificar até quanto o Fed irá puxar os juros até o fim de 2023, talvez até 3% ou 3,25%, como parece precificar a curva de juros. Saberemos, com mais propriedade, quando a curva de juros dos EUA ou inverter (mercado descobrir até onde o Fed vai) ou ficar mais plana consistentemente.

Além de decidir subir sua taxa básica de juro, o Fed decidiu também reduzir seu balanço vendendo títulos públicos e mortgage backed securities (MBS), ou títulos garantidos de hipoteca, enxugando a liquidez da economia em US$ 47,5 bilhões por mês, aumentando as vendas para US$ 95 bilhões daqui a três meses, o que retiraria de circulação mais de US$ 710 bilhões em 12 meses.

De qualquer modo, apesar de terem existido expectativas contrárias, que apontavam um aumento de apenas 0,25 ponto na última reunião do Fed, dada a queda do PIB dos EUA no 1º  trimestre, esta não seria uma decisão que corroboraria o fim do modo hawkish do Fed.

Aliás, muito pelo contrário. Enquanto a curva de juros já precifica um juro da ordem de 3%-3,25% para o fim de 2023, não nos parece de todo desprezível acreditar em um maior recrudescimento na política monetária, o que certamente poderia levar agentes econômicos a inverterem o processo de rotação de ativos, iniciado no começo deste ano.

Ou seja, reverter o processo de investir em países exportadores de commodities e voltar ao porto seguro dos EUA investindo seus mais de 25% de rentabilidade em dólar alcançados no Brasil em US TIPS ou Treasury Inflation Protected Securities.

Assim, evitando o alto nível de octanagem das eleições que se aproximam, o que potencialmente pode suscitar uma maior volatilidade da nossa moeda (o que faria esses mesmos investidores perderem parte desses polpudos ganhos no Brasil). Há de se refletir.

Roberto Dumas Damas

Roberto Dumas Damas é economista-chefe do Voiter e representou o Itaú BBA em Xangai de 2007 a 2011. Em 2017, atuou no banco dos BRICs em Xangai. Dumas é mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), além de professor de MBA e pós graduação do Insper e da FIA e professor convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China)

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