Por que ganhamos mais dinheiro no bull market do que no bear market?

Otimismo, inflação, instrumentos e comportamento podem estar no epicentro da resposta
Por  Gustavo Cunha -
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Essa é uma questão que sempre fica na cabeça de todos os gestores de dinheiro. Não deveria ser simétrico esse mercado?

O mercado financeiro já oferece há algumas décadas formas de estarmos posicionados para ganhar com a alta ou queda dos ativos. Ganhar com alta é simples, só comprar e esperar. Ganhar com a queda é também simples, embora com um operacional maior e depende do instrumento que você quer utilizar.

Vamos ao exemplo de ações, mas que pode ser replicado na maioria dos ativos:

No caso de ações, para ganhar com a alta você compra as ações e espera elas subirem. Para ganhar com sua queda você pode alugar as ações, vendê-las e recomprá-las quando tiver que pagar o empréstimo em uma data futura na expectativa de que esse preço futuro seja menor que o preço atual. Pode também utilizar derivativos como futuros e opções para montar posições compradas ou vendidas.

Para quem não é tão inteirado sobre o mercado financeiro e seus instrumentos, o posicionamento para alta é sempre mais lógico e prático.

Mas o ponto aqui é outro. Em um ciclo de alta dos ativos muito mais agentes de mercado conseguem ganhar do que em um ciclo de baixa.

Um indicativo do porquê isso ocorre pode vir da própria quantidade de instrumentos financeiros que se posicionam para alta. Quantos fundos de ações existem? Quantos deles são fundos que estão sempre apostando na queda de preço? Quantos fundos de crédito apostam sempre no aumento do spread de crédito? Quantos instrumentos estão sempre apostando na queda do Bitcoin (BTC)?

A resposta para essas perguntas é fácil: pouquíssimos.

Vejo algumas razões para isso, e que estão no cerne da resposta à primeira pergunta: porque mais agentes ganham dinheiro com a alta dos preços do que com a baixa. Vamos a elas:

A primeira, e talvez a que mais influência tem, está no fato de termos uma postura em geral otimista sobre o mundo. É um fator inerente a nós, humanos. E isso se reflete nesses instrumentos.

Casos de pessoas que encontram disfunções no mercado financeiro e apostam na queda são tão poucos, e causam tamanha estranheza para nós que, em muitos casos, até viram filme (The big short, de 2015 é o exemplo que vem na minha cabeça e recomendação para quem ainda não viu).

Logo taxamos essas pessoas de pessimistas e por que não dizer a isolamos? Quem gostaria de conviver com um total pessimista o tempo todo? É da nossa natureza buscar se aproximar de pessoas que tenham uma visão mais otimista sobre o mundo.

A segunda tem relação com a característica inflacionária das moedas atuais. Diferentemente de quando tínhamos o padrão-ouro e as moedas dos governos tinham uma limitação para sua emissão, atualmente essa restrição não existe. É muito difícil encontrar hoje qualquer ativo que tenha seu preço nominal inferior a seu preço nominal de 25 anos atrás.

Emissões monetárias acabam por gerar inflação que fazem com que o preço dos ativos sempre subam. Uma tentação enorme a ficar sempre comprado. A dúvida aqui é qual o melhor para comprar e não se devemos ficar comprados ou não.

A terceira razão que vejo é um reflexo das duas anteriores. Há muito mais formas de se posicionar a favor de uma alta do que de uma baixa. Apesar dos instrumentos financeiros para ambos estarem disponíveis a quantidade é desbalanceada.

A quarta e última razão é que na maioria dos instrumentos que podemos apostar na queda o custo disso fica explícito, diferentemente dos custos de se apostar na alta.

Por exemplo, para apostar na queda de uma ação, temos que alugá-la para poder vendê-la e, portanto, pagamos o custo desse aluguel, que fica explícito e é cobrado periodicamente. Para comprar uma ação não temos esse custo, que pode vir via inflação, mas que é pouco perceptível para a maioria.

Dito isso, não é de se estranhar que momentos como os atuais, de queda generalizada do preço dos ativos, a imensa maioria das pessoas esteja perdendo dinheiro e não ganhando.

A arte, e a grande dificuldade, no caso da gestão de ativos é conseguir, diante de todos esses fatores que nos influenciam no dia a dia, tentar ser imparcial, saber que altas e baixas fazem parte e que, como investidores, temos que estar preparados para enfrentar os dois movimentos e tirar o melhor proveito de ambos.

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Gustavo Cunha Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)

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