O que significa investir em DEFI?

Investir em DEFI é tão vago quanto dizer que está “investindo no mercado financeiro”. DEFI compreende desde estruturas de empréstimos até investimentos, passando por toda gama de produtos intermediários do mercado financeiro, como derivativos e produtos estruturados.

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Muito tenho ouvido sobre investimentos em DEFI (decentralized finance), mas sempre que escuto isso volto com a pergunta: “O que você está fazendo? O que quer dizer ‘com investir em DEFI’?”

Para mim, DEFI é uma nova infraestrutura do mercado financeiro. Portanto, investir em DEFI é tão vago quanto dizer que está “investindo no mercado financeiro”. DEFI compreende desde estruturas de empréstimos até investimentos, passando por toda gama de produtos intermediários do mercado financeiro, como derivativos e produtos estruturados.

Muita gente também confunde DEFI com CEFI (centralized finance). Operar um derivativo (futuros) em uma Exchange centralizada é tudo menos DEFI. Estruturas que estão baseadas em blockchain centralizadas, como a Binance Chain, também não se enquadrariam em conceitos mais restritos de DEFI. DEFI implica em descentralização das operações, anonimato das contrapartes e ambiente de negociação mais livre, sem controle. Com vantagens e riscos decorrentes disso.

Mas vamos lá. Quais são as formas de se investir em DEFI.

A primeira, e que para mim deveria ser a principal, é investir em DEFI para ganhar rentabilidade decorrente de juros ou algo similar. Investir USDC via Aave ou Compound, aportar dois tokens quaisquer nas estruturas da Uniswap, investir em um dos “robôs” de arbitragem da Curve ou Yearn e por aÍ vai. Todas essas são operações em que se tem um ativo e ele é investido para ganho de juros.

Um conceito curioso aqui é esse de juros. No caso dos pools da Uniswap, ele é recebido via o fee de transação do pool. Não é juros propriamente dito, mas se você estiver em um pool em que a quantidade depositada de tokens for pequena, comparada ao volume negociado desse token no pool, a rentabilidade advinda desses fees é bastante boa.

O papel das stablecoins, em uma definição mais restrita, tokens atrelados a moedas fiduciárias, se faz presente de maneira intensa nesse tipo de investimento, já que usando tokens como USDC ou USDT conseguimos comparar as rentabilidades desses investimentos com os investimentos em USD no mercado financeiro tradicional

Uma segunda forma de se investir em DEFI é via compra dos tokens das plataformas que estão nesse mercado. Aqui a discussão é grande sobre o quanto isso seria similar a investir nas “ações” dessas empresas.

Ação, ou renda variável, é um conceito muito fechado no mercado financeiro tradicional e com definição igualmente restrita no campo jurídico e não vejo uma aplicação direta e automática em nenhum desses tokens.

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Isso não quer dizer que muitos desses tokens não funcionem como representações do sucesso da “empresa”, que é a plataforma de DEFI. Apesar de conceitos diferentes, um token de uma dessas plataformas de DEFI subirá tanto mais quando maior o sucesso dela.

Uma terceira via de investimentos em DEFI não é propriamente investimento, mas sim a capacidade de alavancagem que as estruturas de DEFI que possibilitam empréstimos poderão dar. Desconheço hoje alguma estrutura de DEFI em que seja possível obter alavancagens nos níveis das alavancagens dos mercados tradicionais, mas acredito que não tardará a surgir.

Um dos grandes pontos é ter mecanismos de zeragem automática das posições que garantam que o sistema não fique insolvente em momentos de grande volatilidade. Se em DEFI isso ainda não ocorre, no ambiente das exchanges centralizadas isso é uma realidade, com algumas já possibilitando alavancagens de até 125 vezes via derivativos. Isso mesmo: 125 vezes.

Vale aqui um parêntese. Quando houve a quebra da Bear Sterns, de um fundo e depois do banco em 2007, que eu e muitos consideram o começo da crise de 2008 que tem reflexos até agora, a alavancagem dos fundos deles naquele momento era de 80 vezes, se não me engano.

Alavancagem é perigosíssimo para o mercado como um todo. A diferença da alavancagem em cripto é que tudo tem liquidez diária e as exchanges já tem formas de zerar automaticamente, e compulsoriamente, os usuários, e que tem funcionado bem em todos os momentos em que ele se mostrou necessário. No mercado tradicional, hoje em 2021, isso ainda não existe.

Voltando às formas de se investir em DEFI, uma quarta via que está começando a se formar é a de securitização e produtos estruturados.

Poucas plataformas já estão efetivamente trabalhando nisso, mas, se extrapolarmos o sucesso que esses produtos têm no mercado tradicional, não será surpresa ver uma dessas plataformas despontando nos próximos semestres.

Por fim, um ponto interessante sobre DEFI é a briga, no bom sentido, que está ocorrendo entre as várias redes para prover a melhor infraestrutura da Blockchain para essas iniciativas.

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O que começou na Ethereum há poucos anos, hoje tem uma infinidade de novos entrantes que almejam crescer nesse seguimento. Deles, o que mais tem surpreendido em termos de valores aplicados e movimentados é a Solana. Mas outras como Polygon, Avalanche, Celo, Harmony, terra etc. vêm correndo rápido também. Sem contar a rede Bitcoin, que ficou à margem desse mercado até o momento e, com a atualização do Taproot, abre um espaço interessante para avançar.

Não faltam oportunidades para todos os tipos de investimentos que você quer fazer em DEFI. Escolha o seu e “Run, Forest, run!” (para quem não entendeu essa parte, fica a dica para assistir “Forest Gump”, filme incrível).

Material acessório:
DEFI. Um novo mercado em formação ou mais uma viagem do mundo cripto
DEFI explicado
Overview do mercado de DEFI (inglês)
Kraken report sobre o Taproot update do Bitcoin (inglês)
História do colapso da Bear Steans (inglês) – House of Cards: A Tale of Hubris and Wretched Excess on Wall Street

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Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).