Fundo Multimercado x Fundo de Venture Capital: como cripto está aproximando esses dois “grupos”

Será que teremos uma junção dessas duas categorias em breve? Um fundo com cabeça de investir em startup, mas que também opere derivativos?

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Essa semana, lendo um thread no Twitter do Kyle Samani sobre o que ele acha melhor no longo prazo, investir em fundos multimercados (hedge funds) ou fundos de Venture Capital (VC), me levou a refletir sobre o assunto e como cripto torna essa discussão ainda mais importante. Vamos a ela.

Primeiro, vale colocar que os dois tipos de fundos têm características muito diferentes.

Os fundos multimercados são fundos abertos, onde podemos aplicar quase que a todo momento, tem períodos para resgate não superiores a 90 dias, trabalham com alavancagem, uso constante de derivativos, posições liquidas e, no caso brasileiro, fazem parte da carteira que praticamente todo investidor.

Os fundos de venture capital são fundos fechados, com períodos de captação bem restritos e períodos para poder resgatar que normalmente excedem os 5 anos, investem em ativos ilíquidos (ações de empresas que estão começando – startups), não usam derivativos (não alavancam) e fazem parte de uma parcela de investimentos muito pequena da maioria dos brasileiros, em geral por terem valores iniciais na casa das centenas de milhares de reais.

Os dois fundos encaram de uma maneira diferente o mercado para tentarem fazer com que os investidores aumentem seu capital no longo prazo. Equipes, e até gestoras diferentes, são formadas nessas duas categorias, como se fossem guetos de investimentos apartados, com formas de investir e pensar diferentes.

Em termos de investimentos, três são os principais fatores que diferenciam esses dois tipos de fundos: liquidez, precificação e possível rentabilidade de longo prazo.

Falando de liquidez, isso é um fator que cada um tem que julgar o seu. Minha escola é a dos fundos multimercados, de derivativos, e gosto muito de ter posições que estejam precificadas de forma clara a cada momento que eu queira e, portanto, sempre tive dificuldades de investir via investimento anjo em startups.

Muito porque esse investimento anjo funciona muito similar aos investimentos dos VCs. Você analisa a proposta, coloca o dinheiro e vai saber quanto ele vale mesmo somente quando houver algum evento no futuro: uma nova captação, uma venda, ou coisa similar. Entre esses períodos, você não tem ideia do valor atual do seu investimento (precificação) e, mesmo se tivesse, teria a dificuldade de encontrar alguém para ficar com sua posição (liquidez).

Eu enfrento isso com investimentos anjo, mas essa é a dificuldade que todo gestor de fundo de Venture Capital tem. E como se lida com isso? via diversificação de portfólio. Investindo em várias iniciativas. As que dão errado viram pó, ou seja, tem valor zerado, as que dão certo você tem que torcer para continuar assim até o próximo evento ou forçar esse evento, que te daria a precificação e liquidez para sair.

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Como cripto altera minha visão sobre isso?

Cripto resolve os dois problemas fundamentais dessa forma de investir (precificação e liquidez). Com o advento de cripto, o que está acontecendo é que essas startups acabam emitindo seus tokens a mercado bem cedo no processo.

O que antes você não sabia, o preço, e se quisesse vender não sabia para quem, com cripto está mais que resolvido, pois você, não só tem o preço, mas ele está lá 24/7, na tela para você vender ou até aumentar sua participação.

Sendo assim, os fundos de investimentos de Venture Capital que investem em token poderiam ter liquidez igual ao dos fundos multimercado, ou seja, de curto prazo. Em teoria sim, mas aí outro fator entra em campo que são os estudados por finanças comportamentais.

O que você faria se o seu investimento em um fundo desses dobrasse em 60 dias e você pudesse resgatá-lo? Não tenho dúvidas de que sua resposta será de tirar o investimento inicial e deixar o lucro somente. E daí o lucro fica lá para sempre. Se sua resposta não é essa, você já consegue lidar com os seus vieses comportamentais de maneira muito diferente da maioria, o que certamente o torna um investidor especial.

O problema de retirar metade do capital logo no início é que você corta pela metade qualquer rentabilidade futura que terá, além de fazer com que, dependendo do volume relativo que tenha no fundo, e o fundo na startup, e o valor de mercado da startup, o valor dessa startup possa cair bem no curto prazo.

Por isso acho que fundos de venture capital que invistam via tokens tem que ter prazos de resgate para os investidores intermediários; nem o curto prazo dos fundos multimercados, nem o longo prazo dos fundos de VC tradicionais.

Tomei aqui como se os tokens fossem representações iguais às ações dessas startups, o que na maioria das vezes não é 100% correto e isso é um fator importante nessa análise. Outro ponto a ressaltar é que essas emissões iniciais de tokens, muito das vezes, têm restrições de período em que o investidor não pode negociá-los, o que tira da mesa a opção de dar liquidez de fundo multimercado a 100% da carteira do fundo de VC que investe via tokens.

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Indo agora para o terceiro ponto, o da rentabilidade de longo prazo, não vou me estender muito nele, mas há fundos com históricos de longo prazo e rentabilidades ótimas e semelhantes nos dois seguimentos.

Isso sempre me levou a pender para os multimercados por conta de ter liquidez que, apesar de não ter a cabeça de sacar, valorizo bastante.

Em suma, meu ponto é que os fundos de venture capital de cripto estão cada vez mais se aproximando dos fundos multimercados nos fatores liquidez da carteira e facilidade de precificação, o que faria com que o investidor desse fundo não precisasse ficar travado lá por um período tão longo.

Será que teremos uma junção dessas duas categorias em breve? Um fundo com cabeça de investir em startup, mas que também opere derivativos? Como seria ele vendido? Qual seu prazo de resgate? Perguntas a serem respondidas.

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Gustavo Cunha

Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)