No tom

A comunicação que se seguiu à decisão do Copom reforça o compromisso do BC com a meta de inflação e deve ajudar a manter as expectativas para o ano que vem sob controle

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
(Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

A decisão do Banco Central (BC) na semana passada, um aumento da Selic de 3,50% para 4,25% ao ano, não foi uma surpresa. Como, de resto, também não foi a eliminação da expressão “normalização parcial”, uma sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre sua intenção de manter a taxa de juros abaixo de 6,5% ao ano, substituída por “normalização da taxa de juros para patamar considerado neutro” (isto é, 6,5% ao ano), que discutirei em mais detalhes à frente.

Se houve algo inesperado na reunião do Copom foi o aviso que, muito embora o BC ainda pense em repetir a magnitude do ajuste em sua próxima reunião (no dia 4/8), o aumento pode ser ainda maior, caso as expectativas de inflação para 2022 continuem a se deteriorar, mensagem reforçada na Ata da reunião, divulgada há pouco.

Fonte: BCB (FOCUS)

Como se vê acima, analistas que contribuem para a pesquisa Focus, esperavam, há poucos meses, que a inflação, depois de desviar consideravelmente para cima da meta em 2021, retornaria a ela em 2022, uma indicação na crença da capacidade do BC em impedir que os fatores que elevaram a inflação este ano contaminassem o próximo. Isto, porém, deixou de ser verdade.

Não se trata, é bom deixar claro, de sangria desatada. As expectativas ainda se encontram algo como 0,3% acima da meta para o ano que vem, nada extraordinário. A causa do desconforto do BC é menos com a magnitude da diferença e mais com o fato de ela ocorrer quando ainda faltam 18 meses para o final de 2022, ou seja, tempo suficiente para que os aumentos de preços de commodities se dissipem e o BC calibre a taxa de juros para fazer com que a inflação convirja à meta. Posto de outra forma, sugere que analistas, de alguma forma, duvidam da disposição do BC em trazer a inflação de volta à trajetória de metas.

A origem da dúvida pode estar na própria expressão agora removida da comunicação do BC.

Quando iniciou o ciclo de aperto monetário em março, o Copom anunciou também que pretendia fazer uma “normalização parcial” da taxa de juros, ou seja, embora elevasse a Selic, imaginava que não seria necessário trazê-la até seu nível considerado “neutro” (que não estimula, nem desestimula, o crescimento na comparação com o seu ritmo potencial, em torno de 2,0-2,5% ao ano no longo prazo), que o próprio BC parece estimar se encontrar próxima ao supramencionado 6,5%.

Tal afirmação foi interpretada como possível falta de vontade para combater a inflação, a tal ponto que, na reunião seguinte, em maio, o BC tentou elucidar a questão, adicionando que “não há compromisso com essa posição e que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação”. Mesmo assim, analistas parecem ter continuado a duvidar da intenção do BC, fenômeno que, diga-se, pode ocorrer também com a intepretação acerca da “normalização da taxa de juros para patamar considerado neutro”.

Neste sentido, é bem vindo o esclarecimento constante da Ata, em que o BC afirma que:

“O compromisso inequívoco do Banco Central é com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante e os passos futuros da política monetária são livremente ajustados com esse objetivo, conforme novas informações se tornam disponíveis.”

PUBLICIDADE

O tom mais duro da comunicação, sinalizando a possibilidade de um aumento de 1 ponto percentual na Selic em agosto, e a mensagem da Ata reforçam o foco na inflação e devem ajudar a manter as expectativas sob controle.

O desafio do BC quanto à inflação é claro. Embora a batalha de 2021 já esteja perdida, ainda lhe cabe evitar que o impacto do aumento dos preços agora, mais concentrado nos produtos afetados pelo dólar, contamine os demais. Nesse sentido, foi importante o posicionamento expresso na Ata.

Pessoalmente, acredito que, face à severidade do choque, há certamente o risco de o BC não encerrar o ciclo de aperto em 6,5%, conforme planejado, chegando um tanto acima deste patamar. Parte por força dos desenvolvimentos que já conhecemos; parte ainda maior por conta da dinâmica da sucessão presidencial que aponta para um quadro de políticas econômicas impalatáveis dentre os favoritos ao cargo.

Receba com exclusividade as colunas de Alexandre Schwartsman em seu email:
Concordo que os dados pessoais fornecidos acima serão utilizados para envio de conteúdo informativo, analítico e publicitário sobre produtos, serviços e assuntos gerais, nos termos da Lei Geral de Proteção de Dados.
check_circle_outline Sua inscrição foi feita com sucesso.
error_outline Erro inesperado, tente novamente em instantes.

Alexandre Schwartsman

Alexandre Schwartsman foi diretor de assuntos internacionais do Banco Central e economista-chefe dos bancos ABN Amro e Santander. Hoje, comanda a consultoria econômica Schwartsman & Associados. Formou-se em administração pela Fundação Getulio Vargas, fez mestrado em economia na Universidade de São Paulo e doutorado em economia na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Leia também

Alexandre Schwartsman O Nome da Rosa
Alexandre Schwartsman O corpo padece
Alexandre Schwartsman Do museu de grandes novidades
Alexandre Schwartsman Bourbons tropicais
Alexandre Schwartsman O suspeito de sempre
Alexandre Schwartsman Nem uma rima, nem uma solução
Alexandre Schwartsman O futuro condena
Alexandre Schwartsman Não vale o que pesa
Alexandre Schwartsman Parece, mas não é