O poder do mito

A lorota mais recente dos economistas do PT é atribuir a culpa pela recessão de 2014-16 à política do segundo governo Dilma, ignorando as consequências desastrosas da chamada Nova Matriz Econômica

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Acabei de arrumar os livros na casa nova. Um lugar de honra foi reservado a meus volumes sobre mitologia, tema que curto desde muito novo (cortesia de Monteiro Lobato). Abrindo a seção, tenho lá “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell, uma das grandes referências na disciplina.

Mitos ajudam a forjar a identidade de grupos, um dos motivos pelos quais minhas Bíblias se encontram também na mesma seção, mas não é disso que pretendo tratar aqui (infelizmente; se me deixassem, não escreveria sobre outro assunto) e sim sobre o mais novo mito sendo agora perpetrado por economistas ligados ao PT, a saber, que a recessão de 2015-2016 teria sido resultado das políticas econômicas adotadas pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como se a presidente Dilma – conhecida por meter o bedelho em todos os assuntos, nenhum dos quais dominava – fosse mera espectadora de seu próprio governo.

Cabe, em primeiro lugar, reconhecer uma evolução considerável. Até muito recentemente, os economistas (e militantes) do PT de maneira geral sofriam de curiosa doença: de alguma maneira, ao invocar o desempenho econômico do país sob o governo do partido, não conseguiam se lembrar do governo Dilma, quando o país enfrentou a pior recessão de sua história, mais grave que a gerada pela crise sanitária de 2020.

Confrontados, porém, com a redução do PIB de superior a 8% e a duplicação da taxa de desemprego (de 6,5% para 13%), tiveram que criar um malabarismo retórico que livrasse a cara do partido da devastação econômica. Sobrou para o ex-ministro da Fazenda, que aceitou segurar o rojão no começo do segundo governo Dilma em 2015.

Aí descobri a real extensão dos poderes maléficos do Joaquim. Ele conseguiu, tornando-se ministro em janeiro daquele ano, alterar o passado, fazendo com que a recessão se iniciasse nove meses antes de tomar posse, no segundo trimestre de 2014. Sua conexão com o lado escuro da Força é tamanha que o investimento, provavelmente antecipando sua posse 18 meses à frente, começou a cair já no terceiro trimestre de 2013.

Assim, segundo esse pessoal, nem o início da recessão, nem a queda do investimento seriam consequência da Nova Matriz Econômica (NME), que deu suas caras ao final do governo Lula, sendo plenamente implementada ao longo do período 2011-2014. Trata-se de uma lorota sem tamanho.

Naquele intervalo, houve considerável piora do desempenho fiscal. O superávit primário médio então registrou em média 1,6% do PIB, contra 2,8% do PIB no quadriênio anterior. “Limpo” de pedaladas, porém, a queda foi ainda maior, de 1,9% para 0,4% do PIB. O resultado foi a inversão da tendência da dívida bruta, que voltou a subir a partir de 2013.

O Banco Central (BC) se comportou de maneira subserviente, deixando de ajustar a taxa de juros mesmo em face de aceleração da inflação, ficando próximo ao limite superior do intervalo de tolerância da meta, não ultrapassado apenas por conta da mão pesada do governo nos preços administrados, notadamente combustíveis e energia elétrica.

A consequência, como já notada neste espaço, foi a transformação do lucro da Petrobras, R$ 68 bilhões a preços do final de 2021, em prejuízo de R$ 40 bilhões em 2014, enquanto sua geração de caixa, R$ 118 bilhões, foi reduzida para R$ 32 bilhões no mesmo intervalo. Já as distribuidoras de energia namoraram a insolvência, requerendo aportes massivos de fundos públicos.

Ao mesmo tempo, a tentativa de recriar a indústria naval redundou em mais um fiasco, do qual a Sete Brasil é apenas o exemplo mais bem acabado. Some-se a isto mais alguns bilhões de reais enterrados nos PowerPoints do grupo X, outros tantos sob a forma de estádios de futebol, para não falar do Bolsa-Empresário, e temos um quadro de desperdício de recursos que pouco (ou melhor, nada) geraram de produto nos anos subsequentes.

Por fim, a recusa em tratar da inflação como se devia, levou o BC a usar e abusar das intervenções no mercado cambial para conter a alta de preços. Em meados de 2013, o BC não tinha qualquer exposição no mercado de swaps cambiais; em dezembro de 2014 sua posição vendida equivalia a cerca de US$ 110 bilhões.

A combinação de irresponsabilidade fiscal (potencializada pela fraude das pedaladas), descaso com a inflação, intervenção desmedida no câmbio, controle arbitrário de preços públicos e, por fim, mas não menos importante, a escolha sem critério de “campeões nacionais” levou a economia ao seu limite de sustentabilidade.

Assim, ao final de 2014, o país registrou déficit superior a US$ 100 bilhões em suas transações com o exterior, ao mesmo tempo que a dívida pública crescia aceleradamente, a inflação ameaçava romper o limite de tolerância da meta e empresas do setor energético passavam por dificuldades financeiras sérias.

Não é necessário ser um profundo entendedor para concluir que esse estado de coisas levaria necessariamente à recessão. A cereja no bolo da crise não foi Joaquim Levy, mas a percepção de que o governo Dilma não tinha nem a competência, nem o apoio político, sequer de seu partido, para promover a necessária mudança de rumo.

A recessão foi, sim, culpa de Dilma e dos economistas do seu partido, que criaram com esmero as condições para o desastre de 2014-2016, do qual ainda não nos recuperamos.

Alexandre Schwartsman

Alexandre Schwartsman foi diretor de assuntos internacionais do Banco Central e economista-chefe dos bancos ABN Amro e Santander. Hoje, comanda a consultoria econômica Schwartsman & Associados. Formou-se em administração pela Fundação Getulio Vargas, fez mestrado em economia na Universidade de São Paulo e doutorado em economia na Universidade da Califórnia em Berkeley.