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Como perder dinheiro

A insanidade de se emprestar dinheiro para um governo a juros negativos é algo realmente novo. Nos mais de 5.000 anos de história, tal experimento nunca foi tentado ou, pelo menos, registrado. Muitos hedge funds e fundos soberanos participaram da folia. É o famoso investimento do idiota maior: não interessa o preço que você pagou por um ativo, desde que você encontre um idiota maior que você para comprá-lo a um preço ainda mais alto.

Dívida
(ThinkStock)

Segundo Roberto Campos, excepcional brasileiro com quem tive a chance de corresponder brevemente, existem três maneiras de se perder dinheiro: a mais prazerosa com as mulheres, a mais rápida com o jogo e a mais segura investindo em agricultura.

Pois existem algumas formas ainda mais seguras hoje em dia: investir em bonds (títulos da dívida) de alguns países como Suíça, Suécia, Alemanha e Japão (dentre outros poucos). Não vou nem mencionar bonds argentinos (os mais cobiçados ano passado), ou os bonds do Quirquistão (sobre os quais já escrevi no blog) nem as criptomoedas (as tulipas do século XXI, sobre as quais já escrevi algumas vezes).

A insanidade de se emprestar dinheiro para um governo a juros negativos é algo realmente novo. Nos mais de 5.000 anos de história, tal experimento nunca foi tentado ou, pelo menos, registrado.

Uma pessoa que compra um título da dívida de 10 anos dos países acima mencionados, por exemplo, tem a certeza que vai perder dinheiro. Temos que parar por um instante e pensar realmente no que isso significa. Emprestamos dinheiro para alguém e temos a certeza que iremos receber menos do que emprestamos! E por que alguém faria isso, o atento leitor poderia perguntar? Bom, eu poderia elaborar algo melhor, mas a minha primeira resposta seria porque não é o dinheiro dele.

Muitos hedge funds e fundos soberanos participaram da folia. É o famoso investimento do idiota maior: não interessa o preço que você pagou por um ativo, desde que você encontre um idiota maior que você para comprá-lo a um preço ainda mais alto.

Com taxas de juros negativas, os Bancos Centrais (BCs) esperavam que as pessoas, que agora perdem dinheiro se quiserem poupar, se transformassem em ávidos consumidores e voltassem às compras. É melhor gastar o dinheiro com alguma coisa para as pessoas do que vê-lo se deteriorar numa conta em um banco.

Com isso, o comércio faria novos pedidos, as fábricas voltariam a contratar, a economia responderia e tudo voltaria a funcionar perfeitamente. O plano era excepcional, só se esqueceram de combinar com os russos.

O fato é que se as taxas de juros começam a cair, as pessoas tendem a poupar mais – e esse pequeno detalhe que faltou nos livros de macroeconomia dos BCs está fazendo a diferença. Além do mais, a inflação, que se comportou bem nos últimos anos, começa a mostrar sinais de recrudescimento.

Com uma inflação mais alta, esses títulos do governo com juros negativos garantem que o investidor vai perder ainda mais poder de compra. De repente esses grandes investidores vão se dar conta disso e possivelmente vão todos correr para a porta de saída.

Vimos movimentos bruscos nas taxas de juros de alguns desses países que certamente impactarão o mercado local (hipotecas, dívida com cartão de crédito, dívidas estudantis, empréstimos para a compra de automóveis, etc). Não é difícil prever que o final não será feliz.

Apesar de saber que o mercado pode ficar insano por muito mais tempo, agora não é hora de correr riscos desnecessários. Muito pelo contrário, agora é hora de ter cautela e deixar uma posição líquida para aproveitar barganhas que certamente irão aparecer.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

 

perfil do autor

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Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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