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100 dias de Bolsonaro: alta da bolsa se deve mais a Guedes do que a cenário externo

Por meio de uma análise econométrica, há indícios de que a alta na bolsa, desde quando Bolsonaro assumiu, decorra mais da condução da política econômica do que a fatores externos. O resultado vai ao encontro da opinião de setores da imprensa, que mesmo críticos à atuação de Bolsonaro em algumas questões, reconhecem méritos na área econômica (ministro Paulo Guedes) e na área de Infraestrutura (ministro Tarcísio Freitas).

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Jair Bolsonaro
(Valter Campanato/Agência Brasil)

O governo Bolsonaro completou 100 dias. Em pouco mais de três meses, é complicado fazer uma avaliação objetiva de qualquer governo baseada exclusivamente em indicadores quantitativos. Pela própria natureza das variáveis econômicas (PIB, desemprego, etc.), as medidas tomadas por governos demoram um certo tempo para serem captadas pelos indicadores. Diante dessa limitação temporal, a melhor maneira de se avaliar um presidente recém-eleito é pelas mudanças de expectativas provocadas pelas  ações de seu governo.

As pesquisas de avaliação de presidente, apesar de muito importantes, também não são a melhor maneira de se avaliar um governo em início de mandato. A razão é que a população tende a julgar um governo pela melhora ou piora de sua vida econômica atual (renda, inflação, desemprego). No entanto, a realidade econômica, no início de um mandato, não se deve às ações de um governo recém-eleito, mas de seu antecessor.

Por exemplo, segundo o Ibope, a ex-presidente Dilma tinha uma aprovação de 73% logo no início do mandato (março de 2011); no entanto, esse percentual provavelmente foi influenciado pelo crescimento econômico do país de 7,5%, em 2010, no governo Lula. Da mesma forma, que não poderíamos culpar Michel Temer pela forte queda do PIB em 2016, ano em que assume a presidência, já que o número evidentemente foi fruto da política econômica desastrosa do governo Dilma.

Isso posto, tanto os indicadores econômicos atuais como as pesquisas de avaliação do governo captam muito mais os efeitos gerados no governo Temer do que no atual, seja para o bem ou para o mal. Assim, diante da persistência das variáveis econômicas, não é possível atribuir o mérito da estabilidade monetária (inflação sob controle) e do avanço do emprego formal - 173 mil vagas criadas em fevereiro de 2019 (melhor resultado em 5 anos) – ao governo Bolsonaro, mas ao seu antecessor, Temer. A razão é óbvia: não se controla a inflação e criam-se milhares de vagas de emprego em apenas 2 meses de governo.

Uma alternativa para avaliar o desempenho do governo Bolsonaro seria analisá-lo qualitativamente. No entanto, a análise qualitativa está mais sujeita ao viés de opinião. Além disso, o objetivo aqui é justamente propor uma análise quantitativa, sem cair na armadilha da defasagem temporal do desempenho econômico do governo anterior. Para essa finalidade, a mensuração do desempenho do governo Bolsonaro será realizada pelo desempenho do Ibovespa no período.

A ideia de se usar o Ibovespa é que, além de ele conter empresas de diversos segmentos, ele é a melhor variável antecedente para captar as expectativas em relação à economia brasileira. Grosso modo, quando as perspectivas econômicas são favoráveis, a bolsa sobe; quando são desfavoráveis, a bolsa cai.

Dessa forma, mensurou-se o desempenho da Bolsa desde que Bolsonaro assumiu a presidência. A ideia é captar, pelo Ibovespa, o quanto a condução da política econômica de Bolsonaro afetou as expectativas dos agentes econômicos. No entanto, é razoável admitir que a alta do Ibovespa possa ter sido influenciada mais pela conjuntura internacional (bolsa nos EUA) do que pelos fatores internos. A fim de separar esses efeitos, rodamos uma regressão para verificar o quanto a bolsa aqui é influenciada por fatores externos.

Para isso, como as séries são estacionárias (que se desenvolvem no tempo aleatoriamente ao redor de uma média constante, refletindo alguma forma de equilíbrio estável), regrediu-se o retorno do Ibovespa contra o retorno do S&P 500 (retorno das 500 maiores empresas listadas na bolsa americana). Utilizou-se o S&P 500 como variável proxy da conjuntura internacional.

Confira os resultados da regressão abaixo:

tabela_regressão

Os resultados mostram que há uma relação significativa entre o retorno do S&P 500 e o retorno do Ibovespa. A cada 1% de variação no S&P 500, o Ibovespa varia 0,53%. No entanto, apenas 10% da variação do Ibovespa é explicada pelo S&P 500 (R2 da regressão), sendo que 90% são explicados por outras variáveis.

É claro que não se trata aqui de um artigo acadêmico, portanto, os resultados não devem ser interpretados como provas irrefutáveis de que a alta de 7% na bolsa, desde a posse de Bolsonaro até 08 de abril, decorra mais de méritos do governo na condução da política econômica do que fatores externos.

No entanto, a análise econométrica respeitou premissas fundamentais, servindo de base para nos dar indícios de que uma parte considerável da alta na bolsa decorra de expectativas positivas em relação à condução da política econômica. Nesse sentido, a aprovação dos 100 dias de governo Bolsonaro é positiva.

Diga-se de passagem, esse resultado vai ao encontro da opinião de setores da imprensa, que mesmo críticos à atuação de Bolsonaro em algumas questões, reconhecem méritos na área econômica (ministro Paulo Guedes) e na área de Infraestrutura (ministro Tarcísio Freitas).

Se as medidas econômicas adotadas por esses dois ministros emplacarem, a bolsa deverá subir bastante e a população começará a sentir os efeitos concretos de uma melhora econômica gerada pelo governo Bolsonaro. Em boa parte, a aprovação do governo Bolsonaro dependerá do sucesso desses dois ministérios. Por enquanto, paciência e torcida para que as ações deem certo.

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Agradeço ao amigo e colunista do InfoMoney, Alexandre Pacheco pela sugestão do tema.

Alan Ghani é economista, PhD em Finanças e professor de pós graduação.

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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