Fatos mostram que o governo chinês tem responsabilidade na pandemia da covid-19

Não se trata de apontar culpados por mero revanchismo, mas encontrar os responsáveis e exigir deles ações para que outra catástrofe desta não se repita

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Foto conceitual do COVID-19 (novo coronavírus) e globo terrestre, feita em estúdio
(CADU ROLIM / FOTOARENA / ESTADÃO CONTEÚDO)

Em meio à crise de saúde global, muito tem se discutido de quem é a culpa nesta história toda. Não se trata de apontar culpados por mero revanchismo, mas encontrar os responsáveis e exigir deles ações para que outra catástrofe desta não se repita.

Enganam-se aqueles que pensam que os erros não se repetem. Aliás, os fatos mostram o contrário.
Assim como o novo coronavírus, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) começou no “wet market” (mercado molhado) chinês em 2002 e atingiu 29 países, matando 800 pessoas.

Nesse mercado, nada higiênico, são comercializados animais selvagens (morcegos, roedores, tigres, etc.) para consumo humano. A partir da combinação entre pouca higiene e consumo de animais selvagens é que ocorre a transmissão do vírus para o ser humano.

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É ingenuidade acreditar que a população na China coma estes animais atualmente por falta de alimentos. Isso poderia ser verdade na década de 1970, quando a fome no país matou 36 milhões de habitantes, e o regime comunista não conseguia alimentar 900 milhões de pessoas.

Hoje, os animais selvagens são vendidos como iguarias e consumidos por pessoas ricas e poderosas na China. Fazem parte de uma indústria poderosa que movimenta 148 bilhões de yuans e exerce um grande lobby sobre o governo chinês.

É claro que, em condições normais, o gosto alimentar diz respeito a cada indivíduo. Mas e quando se trata da comercialização de animais selvagens (onde estão os ambientalistas nestas horas?), cujo consumo traz risco para a espécie humana?

A concretização desse perigo não é de hoje. Após a pandemia da SARS, o governo chinês até proibiu o funcionamento destes mercados, mas os reabriu posteriormente, diante do poderoso lobby dessa lucrativa indústria (fonte: aqui).

Mas o erro não para por aí. Na cidade de Wuhan, oito médicos chineses que tentaram denunciar o vírus foram presos.

Tão triste quanto à prisão dos médicos é saber que, caso o mundo soubesse das contaminações a tempo, 86% da pandemia poderia ter sido evitada, de acordo com estudo científico.

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É um erro acreditar que essas prisões foram feitas por um governo local, sem consentimento do governo central e do Partido Comunista da China. Quem pensa assim não tem a menor ideia de como uma ditadura funciona.

O erro não foi apenas do governo chinês, mas também da Organização Mundial da Saúde (OMS), que acreditou piamente na informação de que não havia problema algum. A mesma OMS que outrora dizia que o fechamento de fronteiras não adiantava para conter a epidemia.

E, na sucessão de erros, como não lembrar do governante italiano que foi intoxicado pelo vírus do politicamente correto ao lançar a campanha “Abrace um chinês”. Em vez de usar a racionalidade humana, preferiu embarcar no sentimentalismo tóxico. Deu no que deu.

É óbvio que ninguém é contrário ao povo chinês, que também é uma das maiores vítimas desta epidemia. Mas não é mais possível o Ocidente tolerar absurdos ambientais e sanitários do governo chinês, que colocam a humanidade em risco.

Como disse Paulo Guedes, se os países são taxados nas emissões de CO², cujos efeitos sobre o aquecimento global são bem questionáveis, por que não responsabilizar o governo de um país por uma tragédia humanitária?

Infelizmente, os vírus do politicamente correto e do utilitarismo pragmático (dinheiro) contaminaram o debate racional.

Para evitar uma nova pandemia, o Ocidente terá que fazer uma escolha daqui para a frente: pressionar o governo chinês para que medidas preventivas sejam tomadas e fiscalizadas, mesmo que isso custe bilhões de dólares perdidos em negócios com a China, ou correr o risco de ver surgir uma nova pandemia.

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Alan Ghani é economista, PhD em Finanças e professor de pós-graduação.

Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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