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Por que investir no bitcoin

Nos artigos anteriores, vimos como o bitcoin deve ser enquadrado em uma nova classe de ativos - a das moedas digitais - e como sua metodologia de avaliação se assemelha à das moedas e das commodities monetárias. Nesta parte final, vamos expor a tese de investimento em si.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

[Nota de esclarecimento: o autor não detém participação em nenhuma empresa ligada ao bitcoin, nem é membro do conselho ou administrador de alguma. Este artigo não é uma recomendação de investimento. Quem tiver interesse em aportar recursos financeiros nesse novo ativo deve consultar seu assessor financeiro e estudar todos os riscos inerentes ao investimento.]

 

Nos artigos anteriores, vimos como o bitcoin deve ser enquadrado em uma nova classe de ativos – a das moedas digitais – e como sua metodologia de avaliação se assemelha à das moedas e das commodities monetárias. Nesta parte final, vamos expor a tese de investimento em si.

E sem esquivar-nos do nosso objetivo, vamos direto à questão que interessa: por que investir no bitcoin? A resposta é simples: porque o potencial de apreciação é bastante elevado. “Mas não é um ativo de risco?”, poderíamos perguntar. Sim, ainda é um investimento arriscado, mas menos do que um ano atrás, e muito menos do que quando a moeda digital surgiu, em 2009. Porém, para defender essa tese, é preciso entender os fundamentos do bitcoin, isto é, os drivers da sua curva de oferta e demanda.

A oferta de bitcoins

Em primeiro lugar, tratemos da parte simples: a oferta de bitcoins. Graças às regras definidas pelo seu criador, Satoshi Nakamoto, a quantidade de bitcoins que poderá ser emitida ao longo do tempo é predeterminada e sabida por todos os usuários desde já. E, da mesma forma, a taxa de emissão da oferta da moeda já foi estabelecida.

Quando o sistema começou a funcionar, a taxa de emissão era de 50 bitcoins a cada dez minutos, em média. Conforme estipulado pelo protocolo, essa taxa cai pela metade a cada quatro anos (o equivalente a 210 mil blocos registrados no blockchain). Isso quer dizer que a taxa de crescimento da oferta de bitcoins é decrescente. Mas a emissão da criptomoeda tem um limite máximo já fixado: 21 milhões de unidades – isso não é um problema, pois cada bitcoin dispõe de oito casas decimais, sendo, assim, perfeitamente divisível. De acordo com a taxa de criação predeterminada, esse teto será atingido ao redor do ano de 2140.

Isso significa que a oferta de bitcoins é inelástica. Assim como o ouro – cuja oferta é limitada pela natureza –, o bitcoin apresenta uma escassez autêntica assegurada pelos algoritmos criptográficos (para entender melhor como isso ocorre, veja este artigo). Aconteça o que acontecer, a quantidade de bitcoins em circulação jamais ultrapassará a limitação estabelecida – salvo um consenso entre toda a comunidade resolvendo alterar essa regar, algo bastante improvável.

Do ponto de vista de investimento em uma commodity, esse conhecimento já elimina metade do problema de prever o preço do ativo – se a oferta já é sabida, basta compreendermos como se comportará a demanda para termos uma boa indicação de como evoluirá sua cotação.

O grande desafio está, portanto, em saber antever como progredirá a demanda pelo bitcoin para prever o seu câmbio no futuro.

A demanda por bitcoin

Mas como medir a demanda atual pelo bitcoin? Podemos usar diversas métricas. Tomemos como um dos indicadores o número de carteiras em utilização. Atualmente, há pouco mais de 5 milhões de carteiras de bitcoin, ou cinco vezes mais do que um ano antes, o que representa um crescimento nada desprezível.

Na outra ponta, a dos comerciantes, estima-se que existiam cerca de 20 mil empresas aceitando a moeda digital como pagamento em novembro de 2013. Em menos de seis meses, essa quantidade triplicou. Merece destaque a Dell Computers, um gigante do comércio online de computadores, que passou a aceitar o bitcoin recentemente. 

Proliferaram também ao redor do mundo os terminais ATM – caixas eletrônicos para comprar e vender bitcoins com moeda corrente. No começo deste ano, havia menos de 20 em operação; hoje já são mais de cem.

Além disso, toda semana há novas invenções por empreendedores ávidos em tornar o uso do bitcoin mais fácil e seguro. A quantidade de startups e investimento de venture capitalists na indústria só mostra sinais de crescimento.

Principais métricas de adoção Fonte: State of Bitcoin Q2 2014 – CoinDesk

Não nos iludamos, porém, pois essas estatísticas são quase irrelevantes quando comparadas ao resto do mercado mundial. Você já imaginou quantos correntistas existem nas diversas nações ao redor do globo? Ou quantos comerciantes aceitam o dólar ou real como forma de pagamento? São quantidades simplesmente imensuráveis.

Que isso não seja mal interpretado, pois reconheço o caminho percorrido pela criptomoeda desde o seu nascimento, em 2009. O bitcoin, sim, já cresceu consideravelmente – o que já é um feito notável, com certeza –, mas ainda corresponde a uma parcela ínfima do sistema financeiro mundial.

Mas e por que alguém usaria bitcoins? Por que essa demanda continua crescendo? Quais suas vantagens? Qual a sua utilidade? De fato, elas são inúmeras. E, por serem deveras importante, vale a pena elencar algumas das quais já mencionamos em artigos anteriores:

- Rapidez: não há forma mais rápida no mundo de transferir valores entre dois indivíduos, independentemente de localização geográfica e montante.

- Custo: não há forma mais barata no mundo de transferir valores entre dois indivíduos, independentemente de localização geográfica e montante.

- Segurança: sabendo usá-lo com os devidos cuidados, é bastante seguro, tanto do ponto de vista do consumidor quanto do comerciante.

- Independência de terceiros fiduciários: você não depende de um banco ou outro intermediário para custodiar seus bitcoins ou transacionar com outros usuários. E funciona 24/7, there’s no bank holiday.

- Independência política: o bitcoin não está sujeito a pressões políticas, o que impede qualquer tipo de abuso da moeda por governos, algo recorrente na história monetária milenar.

- Privacidade financeira: adotadas algumas medidas, o bitcoin pode ser uma excelente forma de assegurar o seu direito de privacidade financeira. Pela sua natureza descentralizada, nenhuma carteira pode ser confiscada por terceiros.

- Proteção contra inflação: como já destacado acima, a oferta de bitcoins é inelástica. Bitcoins não podem ser inflacionados por nenhuma entidade. Isso garante ao usuário uma certeza quanto à manutenção do poder de compra da criptomoeda, ceteris paribus, pois sua escassez está assegurada.

- Inclusão financeira: você pode criar sua carteira em menos de 60 segundos (blockchain.info) sem jamais precisar comprovar renda, residência ou qualquer outra exigência burocrática. Em poucos instantes, você está conectado a uma plataforma financeira verdadeiramente global.

Essas são algumas das principais utilidades e vantagens do bitcoin que explicam o seu crescente uso ao redor do mundo. E essas características atraem diferentes usuários em regiões distintas com maior ou menor intensidade. Em países inflacionários e com rígido controle de capitais, como a Argentina, os cidadãos enxergam no bitcoin uma alternativa genuína de proteção e preservação de patrimônio. No Quênia, um país com infraestrutura bancária deficiente, uma criptomoeda com essas propriedades permitirá conectar e bancarizar milhões de pessoas.

Os fatores de riscos

Entretanto, e como falamos logo no início deste post, investir na criptomoeda ainda é arriscado. O desenvolvimento da rede Bitcoin e da aceitação de ativos digitais baseados na matemática – os quais fazem parte de uma nova indústria e em constante mudança – estão sujeitos a diversos fatores difíceis de prever. Assim, faz-se a pergunta: o que poderia afetar a demanda por bitcoins e, consequentemente, o seu valor? Quais os riscos inerentes a esse novo ativo?

No prospecto do ETF (exchange traded fund) de bitcoin dos irmãos Winklevoss, podemos encontrar alguns dos fatores de riscos associados ao investimento na commodity digital, dentre eles (veja o link acima para a lista completa):

- Regulações e/ou restrições de governos ou agências quasi-governamentais.

- A manutenção e o desenvolvimento do protocolo do software de código aberto da rede Bitcoin.

- Mudanças nos gostos e nas preferências dos consumidores e público em geral.

- Disponibilidade e popularidade de outras formas ou métodos de comprar e vender bens e serviços, incluindo novas maneiras de utilizar moedas fiduciárias.

- Conjuntura econômica geral e ambiente regulatório relacionado aos ativos digitais baseados na matemática.

- Baixa aceitação no varejo e no comércio em geral quando comparado com o uso especulativo, o que contribui para a volatilidade da cotação.

- Interrupções de serviço ou falhas nas exchanges de bitcoin.

- Possibilidade de algum governo, no futuro, tornar ilegal o uso do bitcoin sob qualquer forma (comprar, vender, entesourar, etc.).

Todos esses riscos podem afetar a demanda futura por bitcoins e impactar negativamente seu preço. Particularmente, acredito que o upside potencial mais do que compensa os riscos. Mas cabe a cada um julgar as probabilidades de algum desses obstáculos se intensificarem ou se materializarem.

Muito se especula sobre o último item da lista – a possibilidade de algum governo banir o uso de criptomoeda, o que já ocorreu na Bolívia –, no entanto, e embora isso seja possível, mesmo que países desenvolvidos decidam proibir o uso da moeda digital, será impossível impedi-lo por completo.

E, de certa forma, uma proibição sumária do bitcoin poderia até mesmo contribuir para uma demanda maior, como afirmou Nassim Taleb em um tweet irônico no ano passado: “Para o bitcoin ter êxito, ele precisa ser banido por alguns governos e criticado por legisladores. Caso contrário ele vai sumir”. 

 

Um adendo: moeda “deflacionária” ou maior poder de compra?

Alguns economistas criticam a natureza “deflacionária” da criptomoeda – a crítica em si mereceria um artigo específico, pois o próprio uso do adjetivo “deflacionário” é equivocado. Implícita nesse julgamento está a expectativa de uma crescente demanda em paralelo com uma oferta finita. Em outras palavras, o bitcoin é uma moeda que tende a apreciar-se ao longo do tempo; seu poder de compra tende a aumentar. Isso, segundo tais economistas, seria ruim para uma economia.

A verdade é que isso carece de fundamento. Nenhum indivíduo teria objeções a um dinheiro que mantém ou até aumenta o poder de compra com o passar do tempo. Uma moeda inflacionária, isto é, uma moeda que perde poder aquisitivo ano após ano, é uma característica marcante da era das moedas fiduciárias, mas não é uma lei econômica, tampouco uma precondição para o crescimento da economia.

Por que investir

Em síntese, o bitcoin apresenta uma oferta limitada – devido a sua escassez autêntica – e uma demanda crescente – derivada das diversas vantagens e benefícios que levam cada vez mais indivíduos a adotarem-na. Porém, por ser um ativo inédito e bastante recente, ainda há certos riscos. A despeito deles – dos quais nenhum ativo está livre, nem mesmo os Treasurys­ –, acredito que a demanda crescente aliada à oferta inelástica exercerão uma pressão altista sobre o preço do bitcoin.

Ademais, quando constatamos que o Bitcoin é uma mera fração do sistema financeiro mundial, podemos concluir que o potencial de crescimento é extraordinário. Ainda há muito terreno para percorrer; o espaço para a demanda aumentar é enorme. Mas isso não ocorrerá subitamente. A confiança requer tempo.

Com pouco mais de cinco anos de operação, diversos episódios testaram a confiabilidade da moeda – especialmente em 2014, após a quebra da MtGox. Mas a cada percalço, os problemas são sanados, e o sistema se torna mais resiliente. 

A presente análise não é exaustiva. Encare-a como uma boa introdução a essa nova classe de ativos e veja como ela pode se encaixar em uma estratégia de investimentos. Questões como quanto do seu patrimônio alocar nessa nova classe dependerão de seu apetite de risco – o que varia imensamente de investidor para investidor.

Não poderia finalizar sem uma previsão sobre a cotação da moeda. Por mais temerários que possam ser, exercícios de futurologia são sempre requisitados. Assim, a pergunta remanescente é: qual o preço-alvo do bitcoin? Quanto ele pode se apreciar nos próximos anos? 

Antes de responder a essa pergunta, é preciso aferir se o preço atual – cerca de US$ 600 – está alto ou baixo. Por ser um ativo bastante recente, essa resposta também não é trivial. Mas entendo que, após alguns anos de negociações e diversas turbulências na indústria, as forças de mercado têm determinado um piso para a cotação da commodity digital – há alguns meses o preço do bitcoin oscila no intervalo entre US$ 520 e US$ 620.

Cotação do bitcoin Fonte: Blockchain.info

Dito isso, reconheçamos que prever precisamente a cotação da moeda é impossível. Mas posso dizer que acho bem provável a cotação subir pelo menos 20% nos próximos dois anos, atingido um câmbio superior a US$ 720. Mas é claro que posso estar completamente errado. Aguardemos o futuro.

Por fim, gostaria de recordar um conselho do Gavin Andresen, um dos desenvolvedores líderes do Bitcoin, publicado no seu Twitter em março de 2013: “Invista no Bitcoin somente o tempo ou dinheiro que esteja disposto a perder”. Confesso ter a impressão de que hoje esse conselho já não é mais tão válido; acredito que já tenhamos passado desse estágio.

De fato, o bitcoin é uma das grandes invenções da humanidade. Uma moeda incorruptível é um feito extraordinário. Uma moeda apolítica é algo necessário e imperativo. E, do ponto de vista financeiro, pode ser também um excelente investimento.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

perfil do autor

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Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil

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