Como a arquitetura de produtos aproximou a previdência dos fundos multimercado

Em cinco anos, o K10 Prev, da Kapitalo, alcançou correlação de 0,9953 com a estratégia do multimercado K10 e foi eleito Melhor Fundo de Previdência Multimercado no Outliers InfoMoney 2026

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Um fundo de previdência pode acompanhar de perto o desempenho de um multimercado mesmo operando sob regras mais restritivas? A experiência do K10 Prev XP Seg, da Kapitalo Investimentos, mostra que a estrutura do produto pode reduzir significativamente a distância entre as duas estratégias.

Criado em junho de 2021, o fundo previdenciário acumulou rentabilidade de 96,33% até 30 de julho de 2026, ante 96,01% do K10 FIC MM, usado como referência. Nesse período, a correlação entre os retornos diários dos dois veículos chegou a 0,9953 — quanto mais próximo de 1, maior a semelhança entre seus movimentos.

O resultado contribuiu para que o K10 Prev fosse eleito o Melhor Fundo de Previdência Multimercado na edição de 2026 da Premiação Outliers InfoMoney. A terceira edição será realizada no dia 28 de janeiro, no Teatro B32, na Faria Lima, em São Paulo (SP).

Previdência conseguiu acompanhar o multimercado

A aproximação chama atenção porque os Fundos de Investimento Especialmente Constituídos (FIEs), que recebem recursos de planos PGBL e VGBL, operam sob limitações específicas. Entre elas estão margem requerida limitada a 15% da posição em ativos aceitos por câmara, prêmios de opções restritos a 5% dessa posição, vedação à alavancagem propriamente dita e limites de exposição cambial.

Essas regras normalmente exigem adaptações e, em alguns casos, a redução das estratégias originalmente desenvolvidas para fundos multimercado.

“A pergunta não era quanto da estratégia daria para levar, era como não deixar nada para trás”, pontua Rodrigo Cavenaghi, sócio-executivo da Kapitalo e responsável pela arquitetura de produtos da gestora. “A resposta não estava na carteira, estava na arquitetura do produto.”

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Para medir o resultado, Cavenaghi comparou as cotas diárias do K10 Prev XP Seg e do K10 FIC MM entre 23 de junho de 2021 e 30 de julho de 2026. A análise reuniu 1.283 observações extraídas da plataforma Comdinheiro.

Além da correlação de 0,9953, o levantamento encontrou um tracking error anualizado de 0,65%, indicador que mede o desvio do fundo em relação à estratégia de referência. Em 45% dos dias, a diferença entre os retornos ficou abaixo de 0,01 ponto percentual; em 86%, foi inferior a 0,05 ponto.

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A razão entre as volatilidades dos fundos ficou em 97,7%. Isso significa que a volatilidade do produto previdenciário ficou 2,3% abaixo da apresentada pela estratégia original — uma diferença relevante porque as exigências de margem tendem a limitar justamente o risco que o FIE consegue assumir.

No período completo, a diferença máxima entre as trajetórias de rentabilidade acumulada foi de 1,16 ponto percentual, enquanto a diferença média ficou em 0,23 ponto. Os fundos, contudo, possuem estruturas de taxas distintas.

“O que os dados permitem afirmar é que não houve desconto de retorno, o que normalmente não acontece na previdência”, diz Cavenaghi.

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Diferimento tributário ganha peso no longo prazo

A proximidade da rentabilidade bruta não é o único ponto relevante para o investidor. Em uma simulação feita separadamente — e que não integra o estudo sobre a replicação da estratégia — Cavenaghi e Kauê Andrade Mamed, coordenador jurídico da Kapitalo, compararam o efeito da tributação sobre os dois tipos de veículo.

Mantida a mesma rentabilidade bruta durante 20 anos, o FIE terminou a simulação com cerca de 33% mais patrimônio líquido do que um multimercado comum sujeito ao come-cotas.

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A diferença decorre da forma de recolhimento do Imposto de Renda. Nos fundos submetidos ao come-cotas, há uma antecipação semestral do tributo, que reduz o dinheiro aplicado e, consequentemente, a base sobre a qual incidem os juros compostos.

No FIE, o imposto é diferido para o resgate. Caso o investidor escolha a tabela regressiva, a alíquota pode chegar a 10% para cada aporte mantido por mais de dez anos.

“Quando olhamos apenas para a rentabilidade bruta, podemos imaginar que dois investimentos com o mesmo desempenho terão necessariamente o mesmo resultado final. Mas a tributação interfere diretamente na formação do patrimônio. No longo prazo, deixar o imposto para o momento do resgate permite que uma parcela maior dos recursos continue trabalhando e se beneficie dos juros compostos”, explica Cavenaghi.

A vantagem tributária, entretanto, não garante que todo fundo previdenciário terá desempenho bruto superior ao de um multimercado convencional. Os FIEs continuam sujeitos a restrições que podem limitar o uso de derivativos, as exigências de margem e a exposição a ativos no exterior.

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Estrutura busca reduzir diferenças entre carteiras

O K10 é um fundo macro lançado em 2018 e liderado por Bruno Cordeiro. Sua estratégia parte da análise dos principais cenários econômicos globais e dos mercados de commodities.

Para transportar essa estratégia à previdência, o K10 Prev foi montado por meio de uma combinação de fundos masters. Em uma estrutura convencional, cada fundo feeder — o veículo que recebe o dinheiro do investidor — aplica em um único master. No modelo desenvolvido pela Kapitalo, os feeders podem adquirir cotas de diferentes masters, e a exposição de cada produto é determinada pela composição dessas cotas.

Segundo a gestora, esse desenho reduz a necessidade de ratear ordens de negociação entre diferentes carteiras, uma possível fonte de erros e divergências entre fundos que deveriam seguir estratégias semelhantes.

Os dados fazem parte de um estudo assinado por Cavenaghi e Mamed, ainda em processo de submissão para publicação. O trabalho também reconstrói as mudanças regulatórias dos fundos destinados à previdência complementar aberta, da Resolução CMN nº 3.308/2005 à Resolução CMN nº 4.993/2022, atualmente em vigor.

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Regulação ainda pode avançar, diz estudo

Ao longo desse período, as regras passaram por flexibilizações relacionadas a risco, derivativos e investimentos no exterior. A Resolução CMN nº 4.444/2015, por exemplo, dividiu os recursos em quatro segmentos e elevou de 49% para 70% o limite de renda variável para PGBL e VGBL. A norma também estabeleceu o parâmetro de 15% de margem requerida, mantido praticamente inalterado no regramento atual.

O estudo defende ainda uma revisão na regra que impede os FIEs de adquirir determinados ativos de empresas coligadas à seguradora responsável pela distribuição do plano. A medida busca evitar conflitos de interesse, mas, segundo os autores, também pode alcançar gestoras independentes sem vínculo societário ou econômico com a seguradora.

A proposta é manter a proteção ao investidor, mas permitir maior flexibilidade quando houver independência efetiva da gestão, mecanismos de controle, políticas de melhor execução e governança adequada.

“A questão não é eliminar a proteção regulatória, mas avaliar se a mesma restrição deve ser aplicada indistintamente a estruturas com riscos de conflito muito diferentes. Uma regulação baseada em governança pode permitir maior eficiência sem abrir mão da proteção ao participante”, afirma Cavenaghi.

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Jamille Niero
Minhas Finanças | Economia | Investimentos

Jornalista especializada no mercado de seguros, previdência complementar, capitalização e saúde suplementar, com passagem por mídia segmentada e comunicação corporativa