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Durante a pandemia, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), deixou de ser visto apenas como um servidor público encarregado da política sanitária americana.
Transformou-se em símbolo da própria ciência.
A frase “atacar Fauci é atacar a ciência” sintetizou um ambiente em que discordar das autoridades passou, muitas vezes, a ser confundido com negar a realidade.
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Médico e imunologista que por quase quatro décadas dirigiu o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Fauci tornou-se a principal referência técnica dos Estados Unidos durante a crise da covid-19.
Os acontecimentos das últimas semanas, porém, convidam a uma revisão daquele período.
Em audiência na Comissão de Segurança Interna do Senado americano, Fauci invocou a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos mais de uma centena de vezes para não responder a perguntas sobre sua atuação durante a pandemia.
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Ao mesmo tempo, vieram a público documentos e anotações atribuídos a seu diário pessoal que alimentam novos questionamentos sobre decisões tomadas entre 2020 e 2022.
É verdade que os advogados costumam recomendar a invocação da Quinta Emenda quando há risco de autoincriminação. Esse é um direito constitucional.
O ponto, porém, não é esse. É que o próprio uso desse instrumento revela que as perguntas formuladas pelo Senado tinham potencial de produzir consequências jurídicas e políticas relevantes.
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O debate não deveria ser sobre a condenação prévia de um personagem, mas sobre a necessidade de submeter ao escrutínio público autoridades que, durante anos, foram tratadas como praticamente infalíveis.
As novas dúvidas sobre a pandemia
Segundo documentos apresentados aos senadores, anotações atribuídas ao diário de Fauci registram uma estimativa de letalidade entre 0,2% e 0,3%, enquanto seu depoimento posterior ao Congresso mencionava um índice em torno de 1% — aproximadamente dez vezes superior à letalidade estimada para a gripe sazonal.
Seus defensores argumentam que o conhecimento científico evoluiu rapidamente naquele momento. Ainda assim, a diferença entre a avaliação privada e a comunicação pública permanece no centro das investigações.
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Foi justamente essa estimativa mais elevada que ajudou a embasar políticas excepcionais adotadas em diversos países, como fechamento de escolas, restrições à atividade econômica e medidas de isolamento em larga escala.
Outro episódio igualmente relevante foi o perdão preventivo concedido pelo então presidente Joe Biden antes de deixar a Casa Branca. Independentemente da discussão jurídica sobre esse instrumento, trata-se de uma medida politicamente incomum, que naturalmente desperta questionamentos sobre sua necessidade e alcance.
As audiências também reacenderam a discussão sobre a origem do coronavírus. Durante boa parte da pandemia, a hipótese de um vazamento laboratorial foi tratada como teoria conspiratória e frequentemente excluída do debate público.
Hoje, ela é considerada plausível por diferentes órgãos de inteligência e por parte significativa da comunidade científica.
A questão nunca foi afirmar que estivesse comprovada, mas reconhecer que hipóteses científicas não deveriam ser interditadas por razões políticas. O papel da ciência não é eliminar hipóteses antes que as evidências o façam; é justamente testá-las.
A controvérsia ganhou ainda mais relevância porque Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, organização que recebia recursos do NIAID dirigido por Fauci e os repassava, em parte, para pesquisas conduzidas no Instituto de Virologia de Wuhan, organizou a carta publicada na revista The Lancet, classificando como conspiratórias as suspeitas sobre um vazamento laboratorial. Ao mesmo tempo, mantinha vínculos com pesquisas financiadas pelo NIAID e conduzidas no Instituto de Virologia de Wuhan.
Independentemente das conclusões sobre a origem do vírus, o episódio reforçou a percepção de que um debate científico legítimo acabou sendo contaminado por conflitos de interesse e rapidamente interditado.
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Segundo o The Wall Street Journal, FBI, Departamento de Energia e CIA passaram a considerar o vazamento laboratorial a hipótese mais provável para a origem da covid-19, embora com diferentes graus de confiança.
Outras agências americanas continuam favorecendo a hipótese de origem natural, o que demonstra que a questão permanece em aberto. E esse talvez seja o ponto mais importante: um tema que ainda divide especialistas jamais deveria ter sido retirado do debate público como se estivesse definitivamente resolvido.
Quando hipóteses viram certezas
Talvez essa seja a principal lição deixada pelo caso Fauci. A pandemia mostrou como recomendações provisórias passaram a ser apresentadas como certezas absolutas.
O próprio cientista reconheceu posteriormente que a regra do distanciamento de dois metros não possuía uma base científica robusta. O mesmo ocorreu com outras medidas adotadas em diferentes países sob um grau de convicção que a literatura científica da época ainda não sustentava.
Questionado sob juramento sobre a origem da recomendação de manter dois metros de distância entre as pessoas, Fauci afirmou que ela “meio que simplesmente apareceu” (“it sort of just appeared”) e acrescentou que não tinha conhecimento de estudos que sustentassem especificamente aquele parâmetro.
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O episódio tornou-se um símbolo de como recomendações provisórias acabaram adquirindo status de verdade científica consolidada.
Errar em um contexto de enorme incerteza é compreensível.
O problema começa quando dúvidas deixam de ser admitidas, críticas passam a ser tratadas como ameaça e a ciência deixa de ser entendida como método para ser transformada em argumento de autoridade.
Um episódio ilustra bem esse ambiente.
Em outubro de 2020, três epidemiologistas de Harvard, Oxford e Stanford divulgaram a Declaração de Great Barrington, propondo uma estratégia de proteção focada para os grupos mais vulneráveis, em vez de confinamentos generalizados. A proposta podia ser contestada cientificamente — e foi.
O problema é que documentos divulgados posteriormente mostraram que autoridades de saúde discutiam como promover um “desmonte rápido e devastador” da iniciativa, em vez de enfrentá-la no terreno do debate científico.
Os reflexos do debate no Brasil
No Brasil, qualquer proposta semelhante acabou frequentemente associada ao negacionismo.
O então presidente Jair Bolsonaro foi chamado de genocida e criminoso por defender, entre outros pontos, uma estratégia que, com diferenças importantes, guardava pontos de contato com a ideia de concentrar a proteção nos grupos mais vulneráveis.
Concordar ou não com essa abordagem é outra discussão.
O ponto é que ela era defendida por epidemiologistas de instituições como Harvard, Oxford e Stanford e merecia ser debatida, não simplesmente descartada.
Aqui vivemos uma dinâmica semelhante. Houve restrições de circulação, fechamento de atividades econômicas e medidas administrativas cuja fundamentação nunca foi plenamente demonstrada.
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Algumas decisões, como a limitação do funcionamento de bares e restaurantes em determinados horários, tornaram-se símbolos de uma lógica segundo a qual qualquer medida parecia aceitável desde que viesse acompanhada da justificativa de proteger vidas.
Em São Paulo, por exemplo, a reabertura de bares e restaurantes foi condicionada à proibição da venda de bebidas alcoólicas e ao fechamento dos estabelecimentos às 20h.
Qual era a base epidemiológica para supor que o vírus se tornava mais perigoso depois desse horário — ou diante de uma taça de vinho? A própria Justiça paulista suspendeu a medida.
O episódio tornou-se um símbolo de como, em nome da emergência sanitária, restrições excepcionais passaram a ser aceitas sem o grau de questionamento que normalmente se exigiria do poder público.
Em diferentes momentos da pandemia, a proteção da saúde pública foi utilizada para justificar a ampliação de poderes excepcionais, muitas vezes sem que sua proporcionalidade ou eficácia fossem efetivamente debatidas.
Questionar essas medidas passou, com frequência, a ser interpretado como um ataque à própria ciência.
Esse período também exige uma reflexão sobre questionar versões e fiscalizar o poder, sobretudo em situações excepcionais. No entanto, preferiu-se endossar decisões das autoridades sanitárias em vez de submetê-las ao mesmo grau de escrutínio aplicado a governos e instituições em tempos normais.
Em muitos casos, deixou-se de perguntar se determinada medida era proporcional, eficaz ou juridicamente justificável para concentrar o debate na legitimidade de quem ousasse questionar.
Quando isso acontece, o debate público perde sua função crítica e passa a ser conduzido de forma mais dogmática.
Não se trata de negar a gravidade da pandemia nem de ignorar a dificuldade enfrentada pelos gestores públicos. Decisões precisaram ser tomadas com informações incompletas e sob enorme pressão.
Justamente por isso, deveriam permanecer abertas à revisão permanente. Ciência não se fortalece quando elimina o contraditório; fortalece-se quando aceita que evidências mudam, hipóteses evoluem e consensos podem ser revistos.
Os custos das decisões
Também é preciso incorporar ao balanço os custos das políticas adotadas.
Fechamentos prolongados provocaram perdas econômicas expressivas, interromperam o aprendizado de milhões de estudantes, ampliaram o endividamento público e produziram consequências sociais que continuam presentes anos depois.
Empresas desapareceram, empregos foram perdidos e uma geração inteira conviveu com interrupções inéditas na educação.
Esses efeitos não anulam os benefícios de determinadas medidas sanitárias, mas lembram que toda política pública produz custos que também precisam ser avaliados.
Estimativas internacionais indicam que, apenas em 2020, os déficits públicos ao redor do mundo atingiram patamares inéditos desde a Segunda Guerra Mundial, impulsionados pelos programas extraordinários de estímulo e compensação.
O custo fiscal dessa resposta continuará sendo pago por muitos anos pelas próximas gerações.
Mais do que um caso americano
O caso Fauci interessa ao Brasil porque funciona como um espelho. Reabrir este debate não significa negar a gravidade da pandemia nem reescrever a história com o conforto da retrospectiva.
Significa recuperar um princípio elementar das democracias: nenhuma autoridade, por mais prestigiada ou bem-intencionada que seja, está acima do escrutínio público.
A confiança na ciência não depende da infalibilidade de seus representantes. Depende da disposição permanente de rever evidências, admitir erros e preservar o debate aberto.
A pandemia mostrou os riscos de transformar um método de investigação em argumento de autoridade, substituindo o contraditório pela desqualificação moral dos críticos.
A ciência não é um homem nem um cargo. É um método de investigação baseado justamente na possibilidade permanente da dúvida. O caso Fauci talvez sirva para lembrar que nenhuma autoridade ou entidade, deveria estar acima desse princípio.