Luciano Huck e o segredo que ninguém conta sobre o Bolsa Família: ele foi desenhado por economistas liberais

O programa do PT era o Fome Zero. E foi um fracasso. O Bolsa Família, símbolo máximo do petismo, foi salvo em 2003 por quatro economistas liberais. Esta é a história que ninguém teve coragem de contar até hoje

Walter Maciel

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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No penúltimo sábado (23), no Fórum Esfera, no Guarujá, Luciano Huck fez uma fala sobre o Bolsa Família que provocou exatamente a reação que o Brasil sempre tem quando o tema aparece. A esquerda o tratou como inimigo dos pobres. A direita o adotou como porta-voz. E os dois lados, como acontece toda vez, perderam a chance de fazer o debate que o país de fato precisa.

Segundo Huck, o programa não gera estímulo para que as famílias saiam dele. Falou em atalhos para permanecer no benefício ad aeternum. Citou Senhor do Bonfim, na Bahia, onde afirmou que 56% da economia local depende do programa.

A frase, em si, tem um problema de tom: soa como o juízo de quem nunca dormiu com fome. Mas tem, também, um núcleo de verdade que merece ser examinado sem o ódio da esquerda nem a vulgaridade da direita.

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O presidente americano Ronald Reagan (1981-1989) defendia uma lógica que o tempo acabou confirmando: programas sociais devem ser medidos pelo número de pessoas que conseguem deixá-los, não pelo número de pessoas que conseguem entrar neles.

A porta de saída, e não a porta de entrada, é a métrica civilizacional. E essa é a métrica em que o Brasil falha, não no programa em si, mas na ausência completa da política que deveria operar do outro lado dele.

A origem do Bolsa Família que poucos conhecem

Antes de seguir, é preciso contar uma história que quase ninguém conta. A história que o PT não quer contar porque desmonta a narrativa de pioneirismo. E que a direita não quer contar porque obrigaria a admitir que o programa, na origem, é uma vitória técnica do pensamento liberal aplicado à pobreza.

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O Bolsa Família não nasceu em 2003. Nasceu com base no Bolsa Escola, no Distrito Federal, com Cristovam Buarque, ainda nos anos 1990. Foi adotado em vários municípios até que, em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso o federalizou.

Ruth Cardoso, primeira-dama, socióloga e mulher de uma inteligência institucional rara, ajudou a consolidar a lógica de focalização social em torno do que viria a se chamar Comunidade Solidária: uma concepção de política social baseada em focalização individual, cadastro familiar, condicionalidade e dignidade.

Dos quatro programas de transferência de renda que originaram o Bolsa Família, três foram criados em 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso: Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio-Gás. O Bolsa Escola, lançado pelo MEC em abril daquele ano, beneficiava 5,1 milhões de famílias em 2002.

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Já o Bolsa Alimentação, mantido pelo Ministério da Saúde, começou a funcionar em agosto de 2001 e atendia cerca de 966 mil famílias no ano seguinte. Somados, os programas de transferência de renda do governo FHC já alcançavam milhões de brasileiros antes da unificação promovida no governo Lula.

No ano seguinte, no início do governo Lula, o programa carro-chefe era outro: o Fome Zero, concebido por José Graziano. E o Fome Zero enfrentava dificuldades operacionais importantes, com problemas logísticos, burocracia elevada, falhas de distribuição e custos administrativos crescentes.

No final daquele primeiro ano, o programa atingia menos de 1 milhão de famílias, enquanto o Bolsa Escola, sozinho, já alcançava mais de 5 milhões de beneficiários.

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Os economistas por trás da virada de 2003

Foi diante dessa crise que Lula deu o sinal verde para uma virada técnica. E aqui entra a parte da história que precisa ser dita com precisão, porque ela define tudo o que veio depois.

A virada foi desenhada por quatro economistas. Ricardo Henriques recebeu do presidente a missão de coordenar a unificação e passou a se reunir, semanalmente, no Rio, com três outros nomes, todos ligados, de uma forma ou de outra, à escola que o PT até hoje chama, com desprezo, de neoliberal: Marcos Lisboa, então secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda de Antônio Palocci; José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio; e Ricardo Paes de Barros, do Ipea, hoje professor do Insper, apelidado com justiça, anos depois, de “o liberal contra a miséria”.

Conheço Marcos Lisboa há anos. É um dos economistas mais sérios da minha geração, daqueles raros que combinam rigor técnico com paciência institucional. E faz parte de uma história que ele mesmo nunca reivindicou para si, porque pessoas como ele constroem em silêncio. Mas ela precisa ser contada.

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Foi nessas reuniões semanais, no Rio, entre quatro economistas ortodoxos, que se desenhou a estrutura técnica do Bolsa Família: a unificação dos quatro programas anteriores, Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio Gás e Cartão Alimentação; a consolidação do Cadastro Único, base de focalização individual e familiar; as condicionalidades de frequência escolar e vacinação, herdadas das bolsas do governo FHC; e a entrega via cartão da Caixa Econômica, eliminando a intermediação dos governos locais, reduzindo custos administrativos e, sobretudo, eliminando diversas rotas de possíveis desvios do sistema antigo.

Dinheiro direto à família. Sem prefeito no meio do caminho. Sem cabo eleitoral na porta da casa.

Esse desenho não foi obra do PT. Foi obra de adultos das duas margens institucionais do Brasil, que conseguiram, naquele momento, sentar na mesma mesa.

Ruth Cardoso concebeu. FHC federalizou. Lula teve o mérito político de aceitar a virada quando o Fome Zero estava fracassando. Lisboa, Camargo, Paes de Barros e Henriques desenharam. A Caixa operacionalizou.

E, quando uso a palavra “adultos”, é preciso pará-la, sustentá-la e defini-la. Porque o conceito que ela carrega é o mais escasso da vida pública brasileira. Adulto, no sentido civilizacional, é quem pensa em cidadania antes de pensar em partido.

Quem age pelo bem maior antes de pensar no próximo ciclo eleitoral. Quem aceita perder uma narrativa para que o país ganhe uma instituição. O Brasil tem milhões de operadores políticos, milhares de gestores razoáveis e algumas dezenas, não mais que isso, de adultos públicos no sentido pleno do termo.

Ruth Cardoso era uma. FHC, mesmo com erros que o tempo cobrou, foi outro. Pedro Malan, outro. Marcos Lisboa, outro. Pedro Parente, outro. E, apesar de tudo o que veio depois e que o Brasil inteiro conhece, José Dirceu, naquele momento específico de 2002, também foi.

A honestidade intelectual exige reconhecer o que foi feito, mesmo quando dói reconhecer quem fez.

Leia também: Boulos: polêmicas sobre o Bolsa Família são artificiais, para atacar o programa

Quando o Brasil colocou o país acima dos partidos

Esse espírito de cidadania, que coloca o país acima do partido, produziu, em 2002, um dos episódios mais bonitos da história democrática brasileira. E ele merece ser lembrado aqui, porque define a tese inteira do artigo.

Quando Lula foi eleito em outubro de 2002, o Brasil estava à beira de uma crise de confiança. O dólar furava todos os tetos. O risco-país explodia. O mercado descontava a hipótese de calote. Internamente, militantes do próprio PT pressionavam por uma ruptura.

Externamente, o FMI ameaçava impor condicionalidades que asfixiariam o início do governo. Era o cenário perfeito para uma tragédia.

E aconteceu o contrário. FHC, ainda presidente, e Lula, presidente eleito, montaram uma das mais elegantes operações de transição da história do continente. FHC designou Pedro Malan, então ministro da Fazenda, e Pedro Parente, chefe da Casa Civil, como interlocutores.

Lula designou Antônio Palocci para a área econômica e José Dirceu para a articulação política. Os dois Pedros e os dois operadores do PT começaram a se reunir, sem holofotes, para coordenar o discurso, equalizar a relação com o FMI e enviar uma mensagem única ao mercado e à comunidade internacional.

Pedro Parente foi à Casa Branca para pavimentar caminho com o governo George W. Bush (2001-2009) em nome do presidente eleito do PT.

Pedro Malan e Antônio Palocci se fotografaram juntos no dia em que a missão do FMI pousou no Brasil — uma foto que valia, naquele momento, mais do que qualquer carta.

José Dirceu, antes mesmo da posse, articulou em Washington, com diplomatas americanos, a continuidade dos contratos brasileiros.

Foi essa cooperação invisível que evitou que o Brasil tivesse uma crise cambial e fiscal nos primeiros meses de 2003. Foi essa cooperação que permitiu que Lula assumisse com espaço político para honrar a Carta ao Povo Brasileiro e manter o tripé macroeconômico. Foi essa cooperação que segurou o país.

E, 23 anos depois, Lula nunca agradeceu. Nunca reconheceu. Nunca falou publicamente sobre o que FHC, Malan e Parente fizeram por ele e pelo país naquele momento. Pelo contrário: passou os mandatos seguintes chamando o que recebeu de “herança maldita”.

Negou o que herdou. Demonizou quem ajudou. Tratou como inimigos os que o haviam protegido.

Esse é o pior traço de Lula e da cultura política que ele encarna. Não a esquerda em si — a esquerda brasileira tem nomes admiráveis ao longo da história —, mas o lulismo como método. A incapacidade estrutural de pensar no bem maior.

A incapacidade de reconhecer o mérito do adversário. A incapacidade de tratar a política como continuidade institucional, e não como propriedade pessoal de um ciclo eleitoral. Tudo é apropriação. Tudo é narrativa. Tudo é reeleição. Nada é Estado.

Um país que não consegue reconhecer o mérito dos seus adversários institucionais não constrói política de Estado. Constrói ciclos. A cada quatro anos, recomeça do zero. A cada quatro anos, perde tempo. A cada quatro anos, envelhece dois.

Os Estados Unidos de Franklin D. Roosevelt (1933-1945) não negaram completamente o presidente anterior, Herbert Hoover (1929-1933), que comandou o país durante a grande recessão provocada pela quebra da Bolsa de Nova York: corrigiram o que precisava. Adultos constroem em camadas. Imaturos começam sempre do zero.

O Bolsa Família funciona. Então qual é o problema?

E é dessa imaturidade que nasce o problema atual. Porque o Bolsa Família, hoje, faz exatamente o que foi desenhado para fazer. Os dados são inequívocos.

O estudo do National Bureau of Economic Research, divulgado em março de 2026, assinado por pesquisadores das universidades de Columbia, Stanford e FGV, mostra que a expansão do programa elevou em 4,8% a taxa de emprego nos grupos assistidos, reduziu internações hospitalares e evitou cerca de mil mortes por extrema pobreza.

Os dados do MDS, cruzados com o Caged, mostram que beneficiários do programa ocuparam, nos dois primeiros meses de 2025, cerca de 207 mil empregos formais, 56% de todas as vagas geradas no país no período.

Estudos do Banco Mundial e dados recentes do IBGE apontam forte redução da pobreza extrema no Brasil nas últimas décadas, com impacto relevante dos programas de transferência de renda.

O Ipea estima que cada R$ 1 investido no Bolsa Família gere cerca de R$ 1,78 no PIB. 

O programa funciona. Reagan continua certo. Os dados não brigam; convergem. A porta de entrada está aberta, está sendo bem operada, está cumprindo seu papel de dignidade mínima. O problema é que a porta de saída não existe.

A porta de saída que nunca foi construída

E ela não existe porque ninguém, nos últimos 22 anos, construiu a economia capaz de absorver essas famílias de volta ao trabalho produtivo. Nenhum governo. Não o PSDB de FHC, que abandonou o ciclo de reformas no segundo mandato.

Não o PT de Lula e Dilma, que dilapidou o tripé macroeconômico para sustentar consumo via crédito subsidiado.

Não o Temer, que avançou no fiscal, mas não construiu visão de longo prazo.

Não o Bolsonaro, que entregou reformas importantes, como a Previdência, a autonomia do Banco Central e o marco do saneamento, mas nunca articulou uma política industrial coerente.

E não o Lula 3, que retornou ao mesmo manual de 2008 num mundo que mudou completamente. Foram 22 anos construindo o térreo do edifício. Zero andares acima. E o tempo, agora, é outro.

A oportunidade que o Brasil pode desperdiçar

O Brasil tem em mãos, neste momento, o ativo mais escasso do século XXI: energia limpa, abundante, barata, em escala continental. A matriz mais verde entre as grandes economias do planeta. A capacidade técnica de virar o principal hub de data centers e infraestrutura de inteligência artificial do hemisfério ocidental.

O capital americano está reduzindo a exposição à China em volumes que não se viam desde a Guerra Fria. O capital europeu está se realocando à força. A Índia recebe parte. O México recebe parte.

E o Brasil, com seus problemas institucionais, ainda assim é o melhor solo agroindustrial e energético desse rearranjo global.

A janela está aberta. O ciclo eleitoral de 2026 vai definir se ela será capturada ou desperdiçada. E, nessa janela, o Bolsa Família tem um papel claro: não como destino, mas como base. Não como teto, mas como piso da escada. Não como armadilha, mas como passagem.

Não desmontar o programa, mas construir a escada

Para que isso aconteça, é preciso construir a segunda metade da política que nunca foi feita: política de qualificação profissional adulta, séria, conectada com a demanda real do mercado de trabalho; política industrial focada nos setores em que o Brasil tem vantagem comparativa real — energia, agro, infraestrutura digital, mineração estratégica, biotecnologia.

Também é preciso uma política fiscal que crie espaço para investimento privado em vez de sufocá-lo; política educacional que pare de produzir desempregados qualificados e passe a produzir trabalhadores úteis; política tributária que recompense quem contrata, quem investe, quem produz.

Nada disso está sendo construído. Nem por este governo. Nem pela oposição, que se entretém com a paixão pela disputa eleitoral e esquece que governar é construir. Nem pelo mercado, que reclama mais do que propõe. Nem pelos intelectuais, que preferem celebrar o passado a desenhar o futuro.

Luciano Huck acertou no ponto e errou no caminho. O Bolsa Família, sozinho, não é virtude. É dignidade mínima. E uma sociedade que se contenta com dignidade mínima não é uma sociedade; é uma sala de espera permanente.

O ponto não é desmontar o programa. É construir, finalmente, a economia que dispense o programa. Não pela porta. Pela escada.

A conta já chegou. E ela não é para quem recebe o benefício. É para quem governa há quase 20 anos e nunca soube construir a saída. É para quem critica há quase 20 anos e nunca soube propor uma. É para um país que insiste em começar do zero a cada eleição, enquanto o mundo, ao redor, constrói em camadas.

A herança não foi maldita. A herança foi negada. E o que se nega não se herda; se desperdiça.

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Walter Maciel

CEO da AZ Quest desde 2011