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Nos últimos dias, o esporte nos lembrou, mais uma vez, daquilo que insistimos em aprender tarde demais. Perdemos Oscar Schmidt, o maior jogador de basquete que o Brasil já produziu, e o italiano Alessandro Zanardi, bicampeão da Indy, que perdeu as pernas durante uma corrida e, depois, conquistou quatro medalhas de ouro em Jogos Paralímpicos — um homem cuja grandeza ultrapassou o talento e se consolidou como exemplo universal de superação.
Quando figuras assim partem, a comoção é imediata, as homenagens se multiplicam e as palavras de reconhecimento finalmente aparecem. Mas é justamente aí que se impõe uma pergunta incômoda: por que tantas vezes só conseguimos medir a dimensão dos nossos maiores quando já não podem mais ouvir o que deveriam ter escutado em vida?
Hoje, existe entre nós um homem de 65 anos que acorda cedo, vai para a quadra e continua ensinando o que passou a vida inteira aprendendo. Não há fanfarra, não há monumentos, não há o reconhecimento coletivo que uma civilização madura reserva aos seus maiores. Existe apenas o trabalho silencioso, obstinado e diário de quem nunca precisou de aplausos para saber o que valia.
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Seu nome é Bernardo Rocha de Rezende, mas o mundo o chama de Bernardinho. E o Brasil, como faz com os seus melhores, ainda não decidiu o que fazer com ele.
Vale colocar os números na mesa, porque no Brasil os números raramente são considerados quando se trata de reconhecer grandeza. Como técnico das seleções brasileiras feminina e masculina, Bernardinho conquistou seis medalhas olímpicas consecutivas, de Atlanta 1996 ao Rio 2016: dois bronzes com a seleção feminina, duas pratas e dois ouros com a seleção masculina.
Com a equipe masculina, foram ainda dois ouros olímpicos, três Campeonatos Mundiais e oito títulos da Liga Mundial. Dominou tanto no masculino quanto no feminino, façanha que poucos técnicos de elite conseguiram no vôlei mundial.
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Quando completou 60 anos, Laurent Tillie, então técnico da seleção francesa de vôlei, afirmou: “O Brasil teve sempre grandes seleções, mas Bernardinho foi o responsável pelo maior time de todos os tempos.”
Mark Lebedew, então técnico da seleção australiana, foi mais direto: “É o tipo de treinador que os outros grandes técnicos gostariam de visitar, passar um tempo e aprender com ele.” Esses são julgamentos de pares, de profissionais que dedicaram a vida ao mesmo ofício e reconhecem, com clareza, o que têm diante de si.
O Brasil, enquanto isso, mantém o silêncio confortável de quem prefere não se comprometer com a grandeza alheia.
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Não é de hoje que o Brasil tem dificuldade com seus melhores. O Comitê Olímpico Internacional (COI) nomeou Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, como o Atleta do Século XX.
É preciso entender o peso dessa decisão. Pelé nunca competiu nos Jogos Olímpicos. Não era um atleta olímpico. Ainda assim, o COI olhou além de seu próprio domínio e afirmou: o maior atleta da história da humanidade é esse brasileiro.
Antes do século XX, não havia esporte profissional organizado como conhecemos. O que o COI estava dizendo, com a sobriedade de uma instituição centenária, era simples: Pelé representava o auge absoluto do esporte moderno. Ele colocou o Brasil no mapa esportivo global e deu ao país uma identidade que nenhum político conseguiu construir.
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Se Pelé fosse norte-americano, cidades, aeroportos, avenidas centrais e competições internacionais carregariam seu nome. Como a Laver Cup, no tênis, criada em homenagem a Rod Laver. Pelé morreu dando nome a um estádio em Maceió, ao centro de treinamento do Santos Futebol Clube e à Supercopa Rei, jogo único entre o campeão do Brasileirão e da Copa do Brasil, mas isso ainda é pouco diante da dimensão de seu legado.
Os argentinos fizeram o oposto com Diego Maradona. Não importaram os escândalos ou os problemas pessoais. Maradona era deles, de forma completa e irrevogável. Celebrá-lo era celebrar a si mesmos. Os norte-americanos fizeram de Muhammad Ali uma figura transcendental. Perdeu anos da carreira por convicção e, ainda assim, tornou-se uma lenda ainda maior.
Arthur Antunes Coimbra, o Zico, foi o maior jogador brasileiro depois de Pelé. Dentro e fora de campo, um exemplo de caráter. É idolatrado no exterior, especialmente no Japão e na Europa. Jogadores que atuaram com ele se emocionam ao falar de sua grandeza.
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No Brasil, porém, virou alvo de críticas desproporcionais, muitas vezes por rivalidade clubística. A inveja encontrou no Galinho de Quintino um alvo conveniente e esse julgamento injusto foi perpetuado como se fosse história.
No Brasil, preferimos a versão simplificada do herói. Quando o herói real aparece, com complexidade, exigência e humanidade, encontramos razões para diminuí-lo.
Bernardinho não é um homem fácil de admirar à distância. É extremamente exigente e cobra com intensidade. Quando assumiu a seleção feminina em 1994, introduziu musculação na rotina, algo incomum à época. Ao assumir a seleção masculina em 2001, implementou um volume de treinos extenuante e uma mentalidade que transformava cada treino em um teste de limite.
Gilberto Amauri de Godoy Filho, o Giba, um dos maiores jogadores da história do vôlei, relata que, em 2006, durante um jogo do Mundial contra a Bulgária, chegou ao limite emocional. Bernardinho o cobrava constantemente, mesmo por erros de outros jogadores. Giba chegou a dizer ao levantador Ricardinho, que perderia o controle. Foi contido por Serginho, e Ricardinho pediu ao técnico que reduzisse a pressão.
Anos depois, o próprio Giba passou a se referir a Bernardinho como “patrão” e reconheceu: “Como técnico, ele foi meu melhor psicólogo. Ele sabia tirar o melhor da gente quando era necessário.”
A lógica era clara: Giba era o líder, e o líder responde pelo coletivo. Se o líder não cobra, o técnico cobra o líder. É o princípio da responsabilidade máxima.
Em 2007, Bernardinho tomou a decisão mais difícil de sua carreira ao cortar Ricardinho, então capitão e melhor levantador do mundo, às vésperas dos Jogos Pan-Americanos, que seriam disputados no Rio de Janeiro.
A repercussão foi imediata e marcada por acusações de nepotismo, uma vez que quem assumiu a vaga de titular do time foi seu filho, Bruninho. A explicação, no entanto, era estrutural: o jogador havia deixado de estar alinhado com o sistema da equipe.
Em palestra na Universidade de São Paulo (USP), Bernardinho sintetizou: “Vocês acham que, se eu tivesse cometido uma injustiça dessa magnitude, jogadores campeões mundiais e olímpicos continuariam lutando por mim por tanto tempo?”
Não continuariam. E não pararam. Sua filosofia, apresentada no livro Transformando Suor em Ouro, resume-se em uma equação simples: trabalho mais talento é igual a sucesso.
Não por acaso, o trabalho vem primeiro. Como ele costuma citar, em referência ao técnico norte-americano Bob Knight: “A vontade de se preparar precisa ser maior que a vontade de vencer.”
Giba sintetizou os treinos com precisão: “Treino difícil, jogo fácil. A gente brigava, discutia, levava ao limite. Porque sabíamos que, se não déssemos o máximo ali, no jogo não daria.”
Nenhuma grandeza existe isoladamente. Bernardinho teve como contraponto José Roberto Guimarães, primeiro campeão olímpico com a seleção masculina, em Barcelona-92 e tricampeão olímpico com a seleção feminina.
Durante muitos anos, eles se alternavam no comando das seleções e enquanto um dominava o masculino, o outro dominava o feminino. Dois gigantes que elevaram o nível um do outro, como Roger Federer e Rafael Nadal, no tênis, Ayrton Senna e Alain Prost, ou Nelson Piquet e o próprio Senna, para ficar no embate entre brasileiros na Fórmula 1.
Há quem compare Bernardinho a Pep Guardiola. É uma comparação questionável. O espanhol treinou clubes com recursos quase ilimitados. Bernardinho trabalhou com as limitações estruturais do esporte brasileiro e, ainda assim, construiu uma dinastia de duas décadas.
Se há uma comparação válida, talvez seja a inversa. Guardiola é quem passou a carreira de técnico tentando ser, no futebol, o que Bernardinho é no vôlei.
Curiosamente, Bernardinho é mais valorizado em ambientes corporativos do que no cotidiano popular brasileiro. Executivos compreendem que ele construiu não apenas um time, mas um sistema de excelência replicável.
Que os princípios que transformam um grupo de atletas no time mais vitorioso da história do vôlei mundial são os mesmos que transformam empresas, equipes, organizações e culturas.
Já nas ruas, o reconhecimento é discreto, embora o vôlei seja considerado por muitos o segundo esporte nacional.
Existe uma relação direta entre como uma nação trata seus melhores e o nível de exigência que impõe a si mesma. Celebrar a excelência é afirmar que mérito, disciplina e trabalho importam. Ressentir a excelência é buscar justificativas para a própria estagnação.
Quando olhamos para um Michael Jordan e dizemos sim, isso é possível, isso foi feito por um ser humano, e se foi feito uma vez pode ser feito de novo, estamos sinalizando algo sobre nossos próprios valores. Estamos dizendo que acreditamos no mérito. Que acreditamos que o trabalho produz resultado. Que a disciplina tem recompensa.
Quando ressentimos a excelência, quando encontramos o defeito, o bode expiatório, a razão pela qual o campeão não merecia tanto, estamos sinalizando outra coisa.
Estamos dizendo que o sucesso do outro ameaça nossa narrativa. Que se ele chegou lá pelo trabalho, então nossa falta de chegada é responsabilidade nossa. E isso é insuportável para uma cultura que aprendeu a encontrar nos outros a explicação para seus próprios fracassos.
Um povo que ressente seus campeões está condenado à mediocridade. Não porque lhe falta talento. Porque lhe falta a disposição de reconhecer que a excelência tem um preço e que, por definição, cada um precisa pagar por si mesmo. E essa falta de cultura começa, ou talvez seja revelada, na forma como tratamos os que construíram grandeza com disciplina, método e caráter.
Tenho uma relação pessoal com esse tema. Bernardinho, em determinado momento, elogiou publicamente minha disposição de expressar opiniões. Esse gesto – pequeno na forma, mas enorme no que significa – revela muito sobre quem ele é: alguém que reconhece coerência e valor onde quer que estejam.
Um homem que reconhece nos outros o que pratica em si mesmo. Que valoriza a coerência onde quer que a encontre, independente da arena. Eu o admiro com a mesma convicção. Não pelo currículo, embora este seja inigualável.
Mas pela filosofia, a recusa de negociar com a mediocridade, pela compreensão de que o resultado é consequência do processo, nunca o contrário, e pelo scorecard interior que nunca vacilou. Não importa o que o mundo dissesse, aplaudisse ou criticasse.
Na compreensão de que o resultado é consequência do processo. Lidero uma gestora há quase 20 anos e, assim como no esporte, o mercado financeiro pune quem confunde processo com resultado. Aprendi parte disso observando Bernardinho.
Bernardo Rocha de Rezende é, muito provavelmente, o maior técnico de esportes coletivos que o Brasil já produziu e um dos maiores do mundo. Construiu uma trajetória de excelência baseada em disciplina, método e consistência. Formou campeões, influenciou gerações e deixou um legado que ultrapassa o esporte.
Fez tudo isso pelo Brasil, com o País e sem exigir reconhecimento. Ainda assim, merece o que grandes nações concedem aos seus maiores em vida: o reconhecimento claro, direto e inequívoco.
Merece o que os norte-americanos deram a Michael Jordan, o que os argentinos deram a Maradona, o que os britânicos deram ao ex-Primeiro Ministro Winston Churchill, e o que qualquer nação que respeita a si mesma oferece aos seus maiores enquanto ainda estão presentes.
Merece ouvir, em vida, com a força e a clareza que a verdade exige:
Obrigado, Bernardinho.
Pelo que você ensinou.
Pelo que você construiu.
Pelo que você é.
O Brasil tem uma dívida.
Com Pelé. Com Zico. Com Oscar. Com todos os que construíram grandeza e receberam silêncio.
E com Bernardinho — que nunca pediu reconhecimento, nunca precisou de aplausos, nunca esperou que o país estivesse à altura do que ele construiu.
Mas que merece, enquanto ainda está aqui, ouvir o que é simples e verdadeiro:
O Brasil foi maior por causa de você.