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Um homem falhou três vezes em público. Seu foguete explodiu na primeira tentativa, explodiu na segunda e explodiu na terceira. Em qualquer lugar do mundo, esse homem teria sido chamado de fracassado, e a palavra teria colado nele pelo resto da vida.
Na semana passada, esse mesmo homem viu sua empresa abrir o capital avaliada em mais de dois trilhões de dólares, tornou-se o primeiro trilionário da história, e transformou milhares de seus funcionários, muitos deles operários de chão de fábrica, em milionários.
O mundo não puniu suas três falhas. O mundo as comprou, porque entendeu que sem elas não haveria a quarta tentativa, e sem a quarta não haveria as estrelas.
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Eu não quero falar sobre foguetes. Quero fazer uma pergunta mais antiga, a pergunta que os gregos faziam quando olhavam para um homem e tentavam enxergar, por trás dele, a cidade que o produziu.
Que alma é preciso uma civilização ter para premiar um homem pelas tentativas que antecedem o sucesso, em vez de condená-lo por elas? E a pergunta gêmea, a que dói: que alma é preciso ter para fazer exatamente o contrário?
A alma que recompensa o fracasso produtivo
Porque enquanto o mundo celebrava aquele homem, do outro lado do oceano o meu país produzia, quase ao mesmo tempo, duas cenas que juntas desenham a alma do Brasil com uma precisão que nenhum discurso conseguiria.
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A primeira não é exatamente destes dias, mas é o pano de fundo de tudo. Foi o Banco Master. Uma fortuna que não nasceu para construir nada que o mundo não tivesse.
Nasceu de capturar a própria máquina do Estado, de emitir papel turbinado pela garantia pública, de transformar a dívida do governo em mina particular, até o dia em que a coisa ruiu e a conta, como sempre, foi parar no colo do cidadão.
A segunda é desta semana. Uma ação na Justiça contra o Hospital Albert Einstein, a única instituição brasileira que disputa, de igual para igual, o mais alto padrão mundial de excelência médica. O crime do Einstein foi selecionar seus médicos residentes por mérito.
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O Ministério Público quer obrigá-lo a reservar a maioria de suas vagas por critérios de raça, deficiência, identidade e origem, e usa, como alavanca, justamente o fato de o hospital ser excelente o bastante para gozar de imunidade tributária.
E para que ninguém pense que exagero, bastou olhar as redes quando a notícia do trilhão correu o mundo. Diante do primeiro homem a criar uma fortuna daquela ordem, o sentimento mais repetido não foi como ele a construiu, nem por que ninguém constrói algo assim entre nós. Foi que aquilo era ultrajante.
Que o justo seria dividir. Cem dólares para cada habitante do planeta, e que o resto lhe fosse tirado.
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Ele corre para repartir o que foi criado, e não lhe ocorre, em momento algum, perguntar por que, do nosso lado do oceano, nada daquela ordem jamais se criou.
A riqueza é tratada como um monte a ser partilhado, como se tivesse sido encontrada, e não feita.
E é exatamente esse o ponto, porque uma cultura só trata toda fortuna como achado ou como roubo quando as únicas fortunas que ela viu de perto nasceram mesmo de capturar, e não de criar.
Quando a criação perde para a captura
Veja o que essas cenas dizem quando colocadas lado a lado. O Estado foi saqueado pelo capturador, em seguida virou-se para processar o templo do mérito, e ainda estendeu a mão protetora a quem se beneficiou do roubo.
Premiou-se, na prática, quem se alimenta da máquina pública, perseguiu-se quem ousou ser bom, e absolveu-se quem fecha os olhos para a origem do que compra.
Enquanto isso, do outro lado do mar, um país comemorava um homem que falhou três vezes e chegou às estrelas. Não é falta de talento que nos separa daquele país. O Brasil tem gênios de sobra.
O que nos separa é a alma do sistema em que esses gênios nascem. A mesma energia que, num sistema aberto, constrói uma SpaceX, num sistema fechado constrói um Banco Master. Idêntica ambição, produto oposto, e a diferença é inteiramente a alma da cidade.
E que ninguém diga que isso é novidade, ou que falta ao brasileiro a têmpera do construtor. Muito antes de falarmos em foguetes ou inteligência artificial, este país já produzia homens que enxergavam futuro onde todos viam limite. Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, sonhou com ferrovias, estaleiros, bancos e iluminação a gás quando a economia ainda girava em torno da senzala.
Foi o maior empreendedor do Império, e morreu falido, esmagado por um Estado que mudou as regras debaixo dele e por uma elite que preferiu vê-lo cair a vê-lo voar.
Mais de um século depois, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel construiu uma montadora inteiramente brasileira e apresentou, em 1974, o Itaipu, o primeiro carro elétrico da América Latina, décadas antes de o mundo descobrir o carro elétrico.
Depois veio o BR-800, o primeiro automóvel inteiramente projetado e fabricado no Brasil. Sem apoio, sem crédito, sem um chão que não se movesse, a Gurgel fechou as portas em 1996. Não nos faltaram Mauás. Não nos faltaram Gurgéis. O que sempre nos faltou foi o país capaz de deixá-los chegar à quarta tentativa.
O círculo que transforma ambição em dependência
Quero descer mais fundo, porque há uma lógica aqui, e ela é circular, e é por ser circular que ela é uma tragédia e não apenas um problema.
Começa numa cultura. Uma cultura que, ferida por desigualdades reais e antigas, e eu não nego que sejam reais, aprendeu a preferir a igualdade do resultado à excelência do esforço. É uma escolha compreensível.
É também, e isso quase ninguém diz, uma escolha que se volta contra os próprios filhos que pretende proteger. Porque uma cultura que desconfia do excelente elege um Estado que promete nivelar e proteger a todos do risco. E esse Estado, para entregar o conforto prometido, gasta mais do que arrecada. O gasto vira déficit. O déficit vira dívida.
A dívida, para se financiar, exige juros punitivos. E é aqui que a armadilha se fecha pela primeira vez, porque com um juro real desses, qual brasileiro racional financiaria um foguete que pode explodir três vezes, quando o próprio Estado lhe oferece um cupom gordo, garantido, para que ele simplesmente empreste seu dinheiro ao governo? O Estado, faminto, devora o capital que um foguete precisaria para nascer.
E o mercado que se taxa o estrangeiro para proteger, fecha-se de tal modo que os poucos que ainda constroem nem sequer enfrentam concorrência honesta.
Mas nada disso, nenhum desses números, é o veneno mais profundo. O veneno mais profundo, a viga que sustenta o círculo inteiro, é a insegurança jurídica.
Porque todos os outros obstáculos, o imposto, o juro, o mercado fechado, são suportáveis para quem constrói, desde que as regras fiquem paradas. O que torna o Brasil singularmente hostil à criação não é a dureza das regras. É que elas não são regras. São veredictos revisados, aplicados para trás. O contrato assinado hoje será reaberto amanhã.
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O imposto pago de boa-fé é recalculado cinco anos depois, com multa retroativa. O marco regulatório sob o qual você ergueu sua empresa é redesenhado por uma decisão que legisla do alto. A imunidade de um hospital privado vira, da noite para o dia, a porta pela qual o Estado entra para ditar quem ele pode admitir.
Entenda o que isso faz, porque é a chave de tudo. O foguete falhou três vezes e teve a quarta chance porque, durante as quatro tentativas, as leis da física não mudaram. O contrato valeu. A propriedade valeu. A regra foi a regra. No Brasil, o construtor não falha três vezes e tenta de novo. Ele falha uma vez, ou pior, ele tem sucesso uma vez, e o chão se move debaixo dele.
O êxito é reinterpretado como se sempre tivesse sido ilegítimo. O contrato é anulado. O sócio é alcançado no patrimônio pessoal. O ano fechado é reaberto. Ninguém chega à órbita num país onde cada lançamento muda as leis da gravidade.
E é por isso, exatamente por isso, que a ambição brasileira não some. Ela se desvia. Num mundo de regras revisadas, o ativo mais seguro não é um grande produto.
É um amigo na sala onde as regras são revisadas. O construtor honesto fica exposto ao chão que se move. O capturador é dono do chão. Então o sistema não apenas deixa de produzir uma SpaceX.
Ele fabrica, como equilíbrio lógico, um Banco Master. A insegurança jurídica é o mecanismo que vira a ambição de costas para o mercado e a empurra para dentro do Estado. E o círculo se fecha.
A ausência de riqueza criada do nada confirma à cultura aquilo que ela já suspeitava, que toda fortuna nasce de privilégio e de roubo, porque as únicas fortunas que ela vê de perto nascem mesmo de capturar o Estado.
E então ela passa a desconfiar ainda mais do excelente, a votar por nivelar com ainda mais força, a processar o Einstein com ainda mais convicção. O chão se move mais um palmo.
E assim, manhã após manhã, o país escolhe o seu destino sem perceber que está escolhendo, porque um círculo fechado não pode ser rompido por dentro pela lógica de quem está dentro dele.
A grandeza de alma e a escolha de construir
Os gregos tinham duas palavras que o Brasil precisa reaprender. A primeira é idiotes, de onde veio o nosso idiota, e que não designava o tolo, mas o homem que dava as costas à cidade para cuidar apenas do próprio quintal. A segunda é mais nobre, e é dela que precisamos agora.
Megalopsychia, de megas, grande, e psyche, alma. Aristóteles a usava para o homem magnânimo, aquele que, por se saber digno de coisas grandes, está acima das pequenas.
Acima de invejar, porque não precisa do que o outro tem. Acima de capturar, porque não se rebaixa ao atalho. Acima de nivelar, porque não teme a grandeza alheia.
E é justamente essa a alma que nos falta. Repare que a inveja do trilhão, a captura da máquina pública e a perseguição ao mérito são, todas as três, a mesma coisa vista de ângulos diferentes. São formas de pequenez de alma.
O Brasil não sofre de falta de talento. Sofre de uma pequenez de alma institucionalizada, transformada em lei, ensinada como prudência e premiada como virtude.
E é por isso que o círculo só pode ser quebrado de um único jeito. Não pela multidão, que está presa dentro da lógica que a aprisiona.
Mas pelos poucos de alma grande, que escolhem construir mesmo sabendo que o chão vai se mover, que escolhem o foguete em vez do cupom garantido, a criação em vez da captura, a quarta tentativa em vez da rendição.
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Que recusam, ao mesmo tempo, o conforto de não fazer nada e a esperteza de se alimentar do Estado. Porque cada um desses homens e mulheres que constrói algo real, num país desenhado para enterrá-lo, torna-se o único fato que o círculo não consegue digerir.
A única prova viva de que a riqueza pode nascer de servir, e não de capturar. A única rachadura numa gaiola selada.
Não escrevo isto com desprezo, porque o desprezo seria juntar-me à pequenez que diagnóstico. Escrevo com a tristeza de quem entende perfeitamente por que um país ferido alcança o nivelamento como se fosse cura, e vê, com clareza dolorosa, que a cura alimenta a doença.
O Brasil tem todos os Musks de que precisaria. Já teve Mauá, já teve Gurgel. Ele os enterra no berço, ou na falência, e depois lamenta não tê-los tido.
A pergunta, no fim, nunca foi por que não temos uma SpaceX. A pergunta é que alma escolhemos ter. E essa, ao contrário de tudo o mais neste país, é a única coisa que nenhum tribunal, nenhum imposto e nenhum juro podem revisar. É escolha nossa. Todas as manhãs.