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É contra a privatização? Então não reclama mais do preço da gasolina

Pela primeira vez na história, o pacote de privatizações foi bem recebido por boa parte da população. Em outros tempos, isso seria inimaginável. Com certeza, é um avanço. Mas ainda existe muito ranço ideológico e mitos sobre privatizações. 

Pela primeira vez na história, o pacote de privatizações foi bem recebido por boa parte da população. Em outros tempos, isso seria inimaginável. Com certeza, é um avanço. Mas ainda existe muito ranço ideológico e mitos sobre privatizações.

O primeiro mito é o “vamos entregar nossas riquezas”.  Por trás dessa frase está a premissa de que a empresa do governo vai gerar lucros e esses ganhos serão reinvestidos em projetos para a sociedade. O Estado, nesse caso, agiria como um ente capaz de corrigir problemas e trazer melhorias para a sociedade. A questão é que todas essas premissas não se sustentam.

Primeiro, uma estatal muitas vezes não consegue gerar lucros, são deficitárias. Nesse caso, você sustenta a ineficiência por meio dos seus impostos. Segundo, quem falou que o governo vai alocar os lucros das estatais, revertendo em melhorias para a sociedade? Será que não vai abrir espaço para corrupção? Basta ver a Petrobras, BNDES, etc. Será que o governo é este anjo que organiza a sociedade por nós?  A história nos mostra que não (veja aqui este excelente vídeo de Milton Friedman sobre o tema). Terceiro, mesmo que a estatal seja lucrativa, a receita do governo por meio de impostos de uma empresa privada é maior que o lucro de uma estatal. De acordo com estudo de André Montoro (FEA-USP), a Vale, hoje, gera mais receita para o governo do que quando ela era estatal. Além disso, a Vale emprega mais pessoas do que quando ela pertencia ao governo. Em suma, A PRIVATIZAÇÃO AUMENTA A RECEITA DO GOVERNO (VIA IMPOSTOS) E GERA MAIS EMPREGOS PARA A SOCIEDADE.

O segundo mito em relação às privatizações é “não podemos privatizar porque são setores estratégicos”.  Parte-se da premissa de que o Brasil entrará em guerra e a energia e o petróleo estarão na mão de chineses ou americanos. De novo, essas premissas não se sustentam.

Primeiro, realmente o Brasil é um país que está constantemente em guerra... Ironias à parte, suponha que o Brasil entre em guerra com a China, e a Eletrobras esteja sob controle chinês. A operação da empresa está no Brasil, a maior parte dos funcionários que trabalhará na empresa será brasileira. Na hipótese remota de guerra, quem terá, na prática, o controle da operação será um funcionário brasileiro, e não um executivo ou um burocrata de Pequim.  Além disso, em última instância, o Exército Brasileiro, no caso de guerra, tem a palavra final e poderá intervir na empresa.  Se o argumento da estratégia for verdadeiro, então vamos estatizar toda a telefonia e as indústrias farmacêuticas no Brasil. Indústria farmacêutica não seria também estratégica? Como assim, uma empresa americana ou alemã controlando a produção de medicamentos para câncer, infecções bacterianas e diabetes? Por acaso medicamentos que salvam vidas são menos estratégicos do que energia? Então defendam também a estatização da Bayer, da Pfizer. E o Facebook e o Google? Também não seriam estratégicos ao controlar o fluxo de informações mundiais? Provavelmente, a ideia de “estratégico”, ainda presente hoje  vem daquele ranço nacionalista piegas varguista da década de 30 .

Infelizmente, a ideia de privatização no Brasil ainda é um tabu. Embora a aceitação tenha aumentado bastante, permanece os ranços, os mitos – “”vamos vender o país”, “ é estratégico”. Como escreveu o editor Carlos Andreazza em sua coluna no O Globo (aqui), a privatização é defendida cheia de concessões, “cheia de dedos”, por oportunistas de plantão. Infelizmente, como demonstrou brilhantemente Bruno Garschagen em seu livro (Pare de Acreditar no Governo - Por Que os Brasileiros Não Confiam nos Políticos e Amam o Estado) , o estatismo é fortemente presente na mentalidade brasileira. O brasileiro adora reclamar do governo – e reclama com razão –, mas pede mais governo, mais Estado, para resolver os seus problemas, num ato absurdamente contraditório. O brasileiro tem dificuldades de pensar em alguma alternativa que não passe pelo governo ou pelo Estado. Ainda reina o capitalismo de conchavo, de capangas, das parcerias promíscuas entre “Joesleys” e governo; entre “Welslyes e BNDES”. Infelizmente, ainda estamos longe do liberalismo econômico, da economia de mercado, do capitalismo para valer. O dia que isso acontecer, certamente muitos brasileiros sairão da pobreza. A história de outros países prova isso. Por enquanto, pode continuar reclamando do preço da gasolina.

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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(Bloomberg)

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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