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A imaterialidade e o problema intergeracional do bitcoin

Em 2014, após o encerramento da Conferência de Escola Austríaca em São Paulo, tive a honra de jantar com Ron Paul, na companhia do presidente do IMB, Hélio Beltrão, e do agente do Dr. Paul. Durante a conversa, o assunto bitcoin veio à tona. Sob os olhares céticos dos presentes, comentei o quão revolucionária e incrivelmente segura era essa nova forma de moeda. Ao afirmar que se tratava do ouro digital, Dr. Paul indagou com um sorriso: “Eu consigo colocar um bitcoin no meu bolso? Consigo sacudi-lo?” (Can I put it in my pocket? Can I jiggle it?). Ron Paul não está sozinho. Para inúmeras pessoas, a ideia de um dinheiro não material, que inexiste no mundo físico, é inconcebível. Especialmente entre os gold bugs, essa é uma questão fundamental: a materialidade da moeda (veja o artigo anterior sobre a visão do investidor Jim Rickards acerca do bitcoin). Em grande parte, esse é um dilema intergeracional. Depois de quase quatro anos de estudo do bitcoin, diversos artigos escritos, entrevistas, palestras e conferências proferidas, não mais me surpreende que a questão da intangibilidade seja uma inquietação recorrente, diretamente relacionada à idade do indagador. Quanto mais avançada esta, mais inadmissível é a intangibilidade de um dinheiro puramente digital.

Em 2014, após o encerramento da Conferência de Escola Austríaca em São Paulo, tive a honra de jantar com Ron Paul, na companhia do presidente do IMB, Hélio Beltrão, e do agente do Dr. Paul. Durante a conversa, o assunto bitcoin veio à tona. Sob os olhares céticos dos presentes, comentei o quão revolucionária e incrivelmente segura era essa nova forma de moeda. Ao afirmar que se tratava do ouro digital, Dr. Paul indagou com um sorriso: “Eu consigo colocar um bitcoin no meu bolso? Consigo sacudi-lo?” (Can I put it in my pocket? Can I jiggle it?).

Ron Paul não está sozinho. Para inúmeras pessoas, a ideia de um dinheiro não material, que inexiste no mundo físico, é inconcebível. Especialmente entre os gold bugs, essa é uma questão fundamental: a materialidade da moeda (veja o artigo anterior sobre a visão do investidor Jim Rickards acerca do bitcoin).

Em grande parte, esse é um dilema intergeracional. Depois de quase quatro anos de estudo do bitcoin, diversos artigos escritos, entrevistas, palestras e conferências proferidas, não mais me surpreende que a questão da intangibilidade seja uma inquietação recorrente, diretamente relacionada à idade do indagador. Quanto mais avançada esta, mais inadmissível é a intangibilidade de um dinheiro puramente digital.

“Eu não posso tocar em um bitcoin. Como posso confiar que ele existe e que é seguro? Que não pode ser falsificado ou inflacionado?” são perguntas típicas de quem tem dificuldade de assimilar o bitcoin. É como se subordinassem a confiança à materialidade. “Só acredito no que vejo, no que posso tocar.” Crer numa moeda intrinsecamente incorpórea exigiria um “salto de fé”.

Então, como superar esse impasse? Como transformar a perplexidade em confiança? Há duas formas: i) o uso e o tempo e/ou ii) a compreensão plena.

Nassim Taleb diz que o “conhecimento não exclui o uso”. Isso significa que não precisamos compreender detalhadamente as tecnologias do nosso mundo para usá-las com tranquilidade. Poucos dominam a engenharia mecânica e elétrica, mas todos dirigem automóveis sem maiores preocupações e sobem e descem por elevadores cotidianamente.

Todos nós surfamos na web, enviamos e-mails, publicamos posts nas redes sociais, mas apenas uma minoria saberia descrever o funcionamento da internet e dos computadores pessoais. O que dizer então dos bebês e crianças que, com poucos anos de vida, manuseiam um iPad com destreza ímpar?

Os mais céticos poderiam argumentar que, com o dinheiro, a coisa é diferente, porque precisamos confiar na moeda. Em realidade, nem tanto. Porque mesmo o dinheiro é entendido na sua plenitude por muito poucos. Se nem mesmo economistas têm profundo conhecimento do modus operandi do sistema monetário, imagine o nível de compreensão dos leigos. Mas isso não impede a maior parte das pessoas de usar o dinheiro todos os dias e trabalhar por ele a vida inteira incansavelmente.

Assim como o conhecimento, a imaterialidade tampouco é precondição para o uso. Nada poderia ser mais ilustrativo dessa realidade que a própria era digital. Com o advento da computação e da internet, a ubiquidade das coisas intangíveis é a regra no nosso mundo.

Bits e bytes não podem ser vistos nem tocados no mundo físico. Mas lemos e-mails, navegamos em páginas web, assistimos a filmes e ouvimos músicas por meios eletrônicos sem jamais nos preocuparmos se a informação de fato existe materialmente. Podemos, sim, imprimir um e-mail e torná-lo “palpável”, criando uma representação física deste, materializando uma informação essencialmente digital. Isso, porém, não altera a natureza digital da mensagem.

O próprio dinheiro no mundo moderno é majoritariamente digital, um fato que parece escapar dos gold bugs. A maior parte da massa monetária (mensurada pelo M1) já é intangível. Nos países desenvolvidos, a parte correspondente ao papel-moeda varia de 5% a 45% do dinheiro em circulação, sendo os depósitos bancários (digitais) o grosso dessa oferta monetária.

A rigor, moeda intangível é um paradigma milenar. Como escrevi no capítulo III do livro “Bitcoin – a moeda na era digital”, dinheiro imaterial é “uma característica marcante do sistema monetário desde o instante em que a moeda escritural foi criada do nada pela prática das reservas fracionárias”.

A despeito da intangibilidade do dinheiro no sistema monetário vigente, todo mundo o usa sem maiores questionamentos. Em maior ou menor medida, todo mundo “confia” nesse dinheiro que ninguém pode tocar ou ver, inclusive os gold bugs.

O problema intergeracional do bitcoin será superado com o uso e o tempo. Os mais velhos que hoje têm dificuldade de aceitar uma moeda digital terão pouca relevância e protagonismo na evolução dessa inovação. Serão as gerações vindouras que usarão o bitcoin de forma corriqueira, com a mesma simplicidade e aptidão com que hoje os mais novos utilizam iPhones, iPads e todas as maravilhas da tecnologia moderna.

Você que tem filhos em plena infância, reflita sobre esta pergunta: quando eles chegarem à idade adulta, o que é mais provável, que já tenham usado alguma moeda digital como o bitcoin ou uma conta bancária tradicional?

Reconheço, contudo, que apenas alegar que o uso e o tempo se encarregarão desses percalços pode não amenizar a descrença dos gold bugs. Compreensão plena é fundamental para ultrapassar a barreira da intangibilidade enquanto o “uso e o tempo” não chegam.

Pois bem, um dos motivos que levam gold bugs a rechaçar o bitcoin é a escassez física do ouro. A alquimia jamais logrou multiplicar esse elemento químico. Trata-se de um bem com quantidade limitada pela natureza. Não é possível falsificar o ouro. Não é possível apagá-lo ou torná-lo mais abundante. Isso não apenas é uma propriedade fundamental para uma boa moeda, como é também uma das principais fontes de confiança do metal. Um ativo naturalmente escasso.

Gold bugs não creem ser possível um bem escasso e ao mesmo tempo intangível. Escassez digital seria um oximoro, termos antagônicos e irreconciliáveis.

Historicamente, isso é verdade. A abundância da era digital é amplamente conhecida. Mas escassez além do mundo físico nunca pareceu ser replicável.

O surgimento do bitcoin rompeu com essa realidade. Um dinheiro eletrônico, digital, que conta com escassez autêntica e inviolável. O que aparentemente seria impensável no mundo digital foi concretizado pela invenção de Satoshi Nakamoto. De que forma?

Para explicar essa invenção singular, recorro antes a uma passagem do novo livro de Jim Rickards, “The New Case for Gold” (“A febre do ouro”, traduzido pela Empiricus):

“Hoje o dinheiro existe principalmente em forma digital. Elétrons que armazenam dígitos não enferrujam, mas também não são nada escassos.

Só porque dinheiro é digital não significa que não faz parte do mundo físico. Não há escapatória da tabela periódica de elementos. Dinheiro digital existe como partículas subatômicas armazenadas em chips de silício (Si). Essas partículas podem ser ‘hackeadas’ e apagadas. Átomos de ouro (número atômico 79) são estáveis e não podem ser apagados por ciberbrigadas russas ou chinesas. Mesmo na era cibernética, o ouro ainda é dinheiro sem igual”.

Esse trecho evidencia como Rickards não compreende o funcionamento do bitcoin, pois desconhece o modo de “armazenamento” dos bitcoins. Suspeito que essa noção equivocada reflita com precisão o que pensam os demais gold bugs céticos da criptomoeda.

De fato, o dinheiro digital, ou melhor, as unidades de bitcoins residem em chips de silício. Mas de uma forma muito engenhosa e segura. Todo e qualquer bitcoin existe como um mero registro contábil em um livro-razão digital chamado blockchain. Só que esse não é um livro-contábil qualquer. Na verdade, é um arquivo digital único, público, compartilhado, replicado e mantido em perfeita sincronia por todos os mineradores do sistema.

Para um bitcoin ser “apagado” ou “hackeado”, seria necessário ou corromper o blockchain – algo computacionalmente impraticável de ocorrer – ou deletar todas as cópias do blockchain armazenadas nos milhares de computadores mundo afora – altamente improvável, senão impossível.

A criação de novos bitcoins segue uma regra predeterminada cujo cumprimento é realizado de forma descentralizada por todos os usuários do sistema. Qualquer tentativa de fraude é fácil e rapidamente detectada.

Não nego a dificuldade de acepção de algo escasso e imaterial, pois isso muda radicalmente o que conhecemos. O bitcoin é uma inovação fundamentalmente distinta e original. Um sistema de estrutura simples, porém incrivelmente robusta e resiliente.

Só quem realmente compreende como o bitcoin funciona é capaz de confiar em um sistema não controlado individualmente por ninguém. Sem entendimento pleno, é impossível assimilar a ideia de uma moeda inviolável, não falsificável, não inflacionável.

A era digital nos trouxe muitas inovações e, por meio destas, novos conhecimentos. Um deles é que a materialidade não é um requisito primordial para uma moeda sadia. Se em algum momento essa característica foi um atributo – ou pré-condição –, hoje, definitivamente, não é mais o caso. Mas, graças à criatividade humana, representações físicas de bitcoin já foram inventadas. Primeiro, com a moeda Casascius e, agora, com o pendrive da OpenDime. Em um próximo post tratarei dessas inovações.

Penso que, no futuro, a geração mais nova vai usar dinheiro digital com plena confiança, e vai encarar com perplexidade o fato de que hoje aceitamos e valoramos papeizinhos pintados com araras e tartarugas simplesmente porque o governo assim nos obriga. “Mas, vovô, como assim? O dinheiro de vocês dependia de um punhado de PhDs sentados em Brasília? E esse sistema funcionava? As pessoas acreditavam nisso?”, perguntarão nossos netos. “Pois é”, responderemos, “eram outros tempos, era a idade das trevas da moeda”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

perfil do autor

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Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária e entusiasta de moedas digitais. É autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

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