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Uma análise da liquidez do bitcoin

Frequentemente menciono a baixa liquidez do bitcoin. Mas o que isso, de fato, significa em termos práticos? E a sua liquidez é menor em relação ao quê? Quão baixa ela é realmente? O propósito deste artigo é justamente lançar alguma luz nessas questões.

O Bitcoin nasceu há pouco mais de cinco anos, mas as primeiras cotações da moeda, isto é, as primeiras informações de preço de um bitcoin, são ainda mais recentes – somente em julho de 2010 a falida exchange MtGox viria a apresentar cotações do bitcoin em um mercado minimamente organizado.

Por ser uma moeda essencialmente nova e inédita – um ativo com as características do bitcoin não tem precedentes –, a volatilidade de sua cotação é relativamente alta, especialmente quando comparada à das principais moedas globais.

Tal volatilidade decorre de diversas causas: poucos mercados organizados ao redor do mundo, complicações e incertezas regulatórias que impedem um amadurecimento da indústria com mais velocidade e a sua baixa liquidez.

A verdade é que seria irrealista esperar alta maturidade e adoção mundial profunda de uma moeda e uma tecnologia tão diferentes de tudo o que existiu até então no mundo financeiro, e com tão pouco tempo de vida.

Frequentemente menciono a baixa liquidez do bitcoin. Mas o que isso, de fato, significa em termos práticos? E a sua liquidez é menor em relação ao quê? Quão baixa ela é realmente? O propósito deste artigo é justamente lançar alguma luz nessas questões.

A liquidez pode ser medida por distintas formas. Podemos mensurar a quantidade de pessoas e empresas utilizando o bitcoin, o que nos permite ter uma ideia do número de usuários da moeda – quanto maior seu uso, maior tende a ser sua liquidez. Sites como o Coinmap.org fornecem dados sobre comerciantes ao redor do globo que aceitam o bitcoin como pagamento.

Mas a formação do preço do bitcoin – a sua cotação em relação a outras moedas – ocorre majoritariamente em mercados organizados, nas chamadas exchanges (casas de câmbio ou corretoras). Da mesma forma, os câmbios entre as diferentes moedas nacionais são estabelecidos no maior mercado mundial em volume de negociação, o mercado de câmbio (Foreign Exchange Market).

Comparando os volumes de negociação de bitcoins com os do mercado de câmbio tradicional, podemos ter uma boa noção relativa da liquidez da moeda digital.

Em setembro de 2013, o Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements) divulgou sua Pesquisa Trienal com Bancos Centrais – a fonte de informação mais completa sobre o tamanho e estrutura do mercado de câmbio global e do mercado de balcão de derivativos – com os resultados das negociações do mercado de câmbio no mês de abril de 2013.

Resumidamente, os mercados globais registraram um volume médio de negociações diárias da ordem de US$ 5,3 trilhões. O dólar americano mantém-se na liderança respondendo por mais de 40% do volume total. Esse dado por si só já nos permite inferir como o mercado do bitcoin ainda é uma mera fração do de moedas globais. Em novembro de 2013, mês com a maior quantidade de bitcoins negociados até hoje (aproximadamente 10 milhões), a média diária seria cerca de US$ 330 milhões, usando uma cotação de US$ 1.000/BTC.

Mas mais interessante do que o número absoluto de negociações em si é usar um índice de referência que permita uma comparação relativa. Dividindo o volume de negociações diárias pelo total de moeda em circulação (usando o agregado monetário M1, papel-moeda emitido mais depósitos bancários à vista), temos um indicador que nos permite verificar quanto da moeda em circulação de um país é negociada diariamente (ver gráfico abaixo).

Fonte: BIS, Bancos Centrais e o próprio autor.

Além de deter o maior volume de negociações absoluto, a moeda de reserva mundial, o dólar americano, também apresenta o maior índice com quase 200%, calculado pelo volume de negociação dividido pelo seu M1. Enquanto isso, e embora seja a segunda maior em volume absoluto, o euro apresenta um indicador de apenas 26%. Usando a média de nove moedas globais (USD, EUR, JPY, GBP, AUD, CHF, CAD, MXN e CNY), esse índice gira em torno de 40%.

E onde se situa essa métrica quando aplicada ao mercado do bitcoin? Usando os dados de negociação média diária da moeda digital desde julho de 2010 registrados nas exchanges ao redor do mundo (disponíveis no site Bitcoinity.org) e dividindo pela quantidade de bitcoins emitidos, podemos observar a evolução desse indicador.

Fonte: Bitcoinity.org, Blockchain.info e o próprio autor.

Notem que o pico do índice foi de meros 2,7% em novembro de 2013 – e isso considerando que os dados utilizados contemplam a exchange chinesa Huobi, cujos volumes de negociação são tidos por muitos como superestimados. Essa análise coloca em perspectiva o tamanho do mercado de bitcoins, que é ainda ínfimo quando comparado ao dos mercados de câmbio globais.

Essa informação é essencial, pois quando levamos em conta que menos de 2.000 indivíduos/empresas detêm cerca de 70% dos bitcoins em circulação (State of Bitcoin 2014 – CoinDesk, p. 75), resta claro que a cotação da moeda pode ser facilmente influenciada, para cima ou para baixo, por poucos players no mercado.

Ademais, o baixo volume de negociações impacta diretamente a liquidez do bitcoin, entendida aqui como a capacidade de desfazer-se de um bem no mercado sem a necessidade de reduzir o seu preço significativamente – o que pode ser medido pelo spread entre o preço de compra e de venda (bid/ask spread) verificado em um mercado organizado – quanto maior o spread, menor a liquidez.

Analisando os dados da maior exchange atualmente, a Bitstamp, vemos que os spreads variam bastante, frequentemente acima dos 20 pontos base (ver Bitcoincharts). Em exchanges menores, os spreads são ainda mais elevados. No mercado de câmbio global, os spreads médios encontram-se abaixo dos 5 pontos base, como pode ser visto no gráfico abaixo, extraído do relatório BIS Quarterly Review de dezembro do ano passado.

AE (Advanced Economies); EM (Emerging Markets). Fonte: BIS Quarterly Review – December 2013

As disparidades entre o mercado do bitcoin e o de moedas globais não deveria nos surpreender. Para uma moeda tão recente e inovadora, seria muito otimista esperar algo diferente. A indústria de moedas digitais é nascente e, neste momento, não conta nem mesmo com um mercado de derivativos em operação – por sinal, metade do volume diário de negociações no mercado de câmbio global advém dos derivativos.

Tudo isso afeta a volatilidade da cotação do bitcoin, é claro. No entanto, a volatilidade em si não impede que o bitcoin seja usado pelos indivíduos, porque, apesar dela, o bitcoin proporciona diversas vantagens comparativas em relação às moedas nacionais. O bitcoin já apresenta menores custos de transação em distintas áreas do sistema financeiro, por exemplo, no mercado de remessas de dinheiro internacionais.

E olhemos não apenas a foto, mas também a evolução no tempo. Há alguns anos, a volatilidade era maior, a liquidez, menor, havia menos players no mercado, menos investidores, menos usuários, etc. A despeito disso tudo, o bitcoin ganhou mercado e tem perdurado. Logicamente, empresas como BitPay e Coinbase facilitam a ampliação do uso da moeda digital pelos comerciantes em geral, e essa tendência deverá intensificar-se mundo afora.

Aos céticos, recomendo não se apressarem ao descartar o bitcoin do mundo financeiro; a maior invenção tecnológica do século XXI está apenas começando. Tampouco esperem que o bitcoin seja uma moeda madura e estável com apenas cinco anos de existência.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

perfil do autor

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Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária e entusiasta de moedas digitais. É autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

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