Crise

Sérgio Moro pede demissão do Ministério da Justiça

Exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, nome de confiança do ministro, foi estopim para a decisão

Sergio Moro demissão
Sergio Moro (Andre Coelho/Getty Images)

SÃO PAULO – O ex-juiz Sérgio Moro pediu demissão, nesta sexta-feira (24), do comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Jair Bolsonaro. O movimento ocorreu após a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, ser publicada nesta madrugada no Diário Oficial da União, e foi anunciada em coletiva de imprensa realizada na sede da pasta, em Brasília.

A saída de Valeixo, nome de confiança de Moro, foi informada como “a pedido”, e seguida das assinaturas de Bolsonaro e do ministro. Mas Moro disse que foi pego de surpresa e não endossou a decisão. Ontem (24), o ministro já havia alertado Bolsonaro que deixaria o cargo se Valeixo fosse exonerado.

“Fiquei sabendo [da exoneração] pelo Diário Oficial, não assinei esse decreto”, disse em coletiva de imprensa nesta manhã.

Moro se disse “surpreendido” e chamou a ação do presidente de “ofensiva”. “Esse último ato foi uma sinalização de que o presidente me quer fora do cargo”.

“Há uma possibilidade de que Valeixo gostaria de sair, mas isso não é totalmente verdadeiro. O ápice na carreira de qualquer delegado da PF é a direção-geral. Claro que, depois de tantas pressões para que saísse, ele de fato manifestou a mim que talvez seja melhor sair”, pontuou.

Na coletiva de imprensa, Moro também revelou uma “insistência” de Bolsonaro em interferir diretamente na atuação da Polícia Federal. Segundo ele, o presidente pediu para substituir o diretor-geral da PF em busca de melhor interlocução e acesso a informações sobre atividades do órgão.

O movimento se intensificou com uma preocupação do presidente com inquérito no Supremo Tribunal Federal – em referência à junção do chamado “inquérito das fake news” com as investigações, autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, sobre manifestações do último domingo (19), pedindo intervenção militar e a volta do AI-5.

Segundo Moro, ao aceitar o convite para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi feito um acordo com Bolsonaro. Ele disse que o presidente concordou em dar carta branca para a atuação da pasta no combate ao crime organizado e no combate à corrupção. O compromisso, diz, foi descumprido com a exoneração de Valeixo sem justificativa clara.

“Não é uma questão do nome [de um substituto para Valeixo]. O grande problema da troca é que haveria uma violação de uma promessa que me foi feita. Em segundo lugar, não haveria uma causa e estaria claro que haveria uma interferência na Polícia Federal”, afirmou.

“O grande problema não é quem entra, mas por que entra”, frisou.

Sérgio Moro disse, ainda, que tal interferência não ocorreu durante as gestões dos antecessores de Bolsonaro. “O governo da época tinha inúmeros defeitos, crimes gigantescos, mas foi fundamental a manutenção da autonomia da Polícia Federal para a realização deste trabalho”.

Relação em crise

Valeixo foi escolhido diretor-geral da Polícia Federal por Moro no início do ano passado. Antes do cargo atual, o delegado comandou a Diretoria de Combate do Crime Organizado da Polícia Federal e foi superintendente da corporação no Paraná, onde teve mais contato com o então juiz federal Sérgio Moro, nas investigações pela operação Lava-Jato.

A relação entre presidente e ministro vinha se deteriorando desde o ano passado, quando Bolsonaro tentou (e depois recuou) substituir Valeixo, movimento que foi visto como interferência direta na atuação da Polícia Federal. Outro agravante para a situação pode ter sido a aproximação do presidente com partidos do “centro”, que tem quadros com processos na Justiça.

Também geram desgaste investigações de figuras próximas a Bolsonaro. É o caso das apurações sobre o possível envolvimento do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, na prática da chamada “rachadinha” enquanto o parlamentar exercia o cargo de deputado estadual na Alerj. Além da apuração sobre o uso de candidaturas-laranja pelo PSL, partido pelo qual Bolsonaro foi eleito no pleito de 2018.

Antes da pandemia do novo coronavírus, Moro era o nome mais popular do governo Bolsonaro – passando a perder para Luiz Henrique Mandetta, que comandou o Ministério da Saúde até a última sexta-feira (17), no enfrentamento à crise sanitária.

De acordo com pesquisa XP/Ipespe, realizada entre 20 e 22 de abril, Moro conta com 52% de avaliações positivas contra 21% negativas e uma nota de 6,2 em uma escala de 0 a 10 – ao passo que Bolsonaro tem 41% de avaliações positivas, 34% negativas e uma média de 5,1.

O ex-juiz da Operação Lava-Jato tem forte endosso entre o eleitorado bolsonarista, o que amplifica os riscos políticos para o presidente.

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