Relação de Flávio com Vorcaro afeta palanques de aliados, que tentam evitar junção

Negociação entre senador e banqueiro já provoca desgastes em Santa Catarina, reforça afastamento em estados do Nordeste e provoca constrangimentos em São Paulo e Minas

Agência O Globo

O senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado
O senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

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A crise provocada pela revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro interrompeu negociações para a formação de palanques nas eleições deste ano. Enquanto aliados do bolsonarismo tentam conter publicamente os danos do caso envolvendo o Banco Master, outros partidos e líderes estaduais passaram a recalcular o custo eleitoral de atrelar suas campanhas ao projeto presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Dirigentes partidários, governadores e parlamentares discutem estratégias para evitar que o desgaste nacional da crise contamine disputas locais consideradas competitivas.

O movimento já produz reflexos em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Ceará e Distrito Federal e acelerou disputas internas dentro do próprio campo bolsonarista.

A vinculação de Flávio com o escândalo também provoca resultados negativos na campanha do presidenciável do PL. Inicialmente a perspectiva era que ele tivesse um palanque duplo em Santa Catarina, estado de maioria bolsonarista, mas agora a tendência é que o PL fique isolado no palanque de Flávio.

Lá, o governador Jorginho Mello (PL) e o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD) eram esperados na base de sustentação a Flávio. Após a divulgação das mensagens entre Vorcaro e o senador, o pré-candidato do PSD disse ao GLOBO que deve dar um palanque único para Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD a presidente, e buscar se desvincular de Flávio.

O pré-candidato a governador, no entanto, diz que não vai criticar Flávio durante a campanha:

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– Ficar em silêncio é o melhor caminho.

A crise do banco Master ampliou um desgaste que já existia no estado, onde a direita enfrenta uma competição interna pelo Senado. Carlos Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, e Caroline de Toni (PL), desejam a vaga, que também é almejada pelo candidato à reeleição Esperidião Amin (PP).

Ao mesmo tempo, partidos aliados ao PL nos estados passaram a defender campanhas mais independentes da disputa presidencial.

No Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que tenta voltar ao cargo, passou a defender que a campanha estadual evite nacionalizar excessivamente a disputa presidencial. Ciro vai lançar sua pré-candidatura na semana que vem, e vai contar com a presença de integrantes do PL do Ceará. Há, porém, uma preocupação que a aliança fique restrita ao plano estadual.

– Ciro não vai tratar de Presidência. Somente de governo do estado – disse o deputado Mauro Benevides Filho (União-CE), um dos principais aliados do ex-governador.

Por outro lado, a estratégia não está alinhada com os integrantes do PL local, que ainda desejam que o pré-candidato do PSDB esteja no palanque de Flávio. O deputado estadual Alcides Fernandes (PL), que deve ser candidato a senador na chapa de Ciro, compartilhou nessa quinta-feira nas redes sociais uma montagem de pré-campanha em que a foto dele aparece junto da de Flávio e Ciro.

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Na Bahia, o cenário também passou a exigir cautela maior. Apesar da tendência de convivência regional entre o bolsonarismo e o ex-prefeito ACM Neto (União), interlocutores afirmam que a cúpula da federação União Brasil-PP freou as tratativas nacionais com Flávio.

Antes mesmo do escândalo Master chegar em Flávio, o pré-candidato a governador da Bahia evitava nacionalizar sua campanha. Assim como acontece no Ceará, o ex-prefeito deverá ter o PL na sua chapa, mas sem dar palanque para o pré-candidato do partido a presidente.

Mesmo em estados considerados mais consolidados para o bolsonarismo, o ambiente passou a exigir maior cautela. É o caso de São Paulo, onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disputará a reeleição com apoio da família Bolsonaro.

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Integrantes do partido afirmam reservadamente que ainda é cedo para medir os efeitos concretos da crise sobre a dinâmica das alianças estaduais, mas admitem preocupação com o potencial de contaminação nacional do episódio.

O mesmo acontece em Minas Gerais, onde um acordo entre o PL e o senador Cleitinho (Republicanos) evoluiu nessa semana. Mesmo com a aproximação, dirigentes do Republicanos dizem que “há muita coisa para acontecer” antes de definirem se Flávio terá o apoio de Cleitinho e da sigla no estado.

Ainda que provoque um abalo nas alianças com outros partidos de direita, pré-candidatos filiados ao PL têm procurado afastar qualquer possibilidade de sinalização que Flávio não será o candidato do partido. Nomes como os dos senadores Sergio Moro (PL-PR) e Efraim Filho (PL-PB) minimizaram a crise e disseram que o filho do ex-presidente já se explicou sobre o assunto.

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Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, a principal preocupação dentro do PL hoje não é apenas o desgaste imediato da candidatura presidencial de Flávio, mas o risco de que o caso comprometa a engenharia nacional de alianças construída pelo bolsonarismo para a próxima eleição.

A montagem dos palanques estaduais vinha sendo tratada como um dos principais ativos políticos da pré-campanha do senador. Em prisão domiciliar desde março, Jair Bolsonaro continua exercendo influência direta sobre as decisões estratégicas da direita e deverá receber, nas próximas semanas, uma espécie de mapa consolidado das alianças estaduais do bolsonarismo para dar a palavra final sobre os acordos regionais.

Parte dessas negociações, porém, entrou em compasso de espera após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens, áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente. Segundo a publicação, o acordo previa aportes de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões.

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O impacto foi especialmente forte porque atingiu um momento em que o PL tentava consolidar alianças simultaneamente com partidos do Centrão, governadores de direita e setores mais ideológicos do bolsonarismo.

A ofensiva de Zema e os reflexos em Minas

O primeiro grande efeito político concreto apareceu em Minas Gerais. A decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) de endurecer publicamente os ataques contra Flávio aprofundou o isolamento político do governador Mateus Simões (PSD) junto ao bolsonarismo e começou a contaminar negociações nacionais do PL com o Novo.

Poucas horas após a divulgação da reportagem do Intercept, Zema afirmou ser “imperdoável” ouvir Flávio pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro.

— É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer as mesmas coisas — declarou.

A reação provocou forte irritação dentro do núcleo político do PL. O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que o discurso de Zema passou a ameaçar acordos estaduais considerados estratégicos pela legenda.

— Há uma pressão de alguns parlamentares para suspender os acordos nas majoritárias com o Novo por conta das declarações do Zema — afirmou.

Nos bastidores do PL, interlocutores afirmam que a crise consolidou a decisão do partido de abandonar qualquer tentativa de composição com o grupo de Zema em Minas e aprofundou a aproximação com o Republicanos e o senador Cleitinho Azevedo, que também ainda precisará ser confirmada.

A parceria entre as duas siglas já vinha sendo construída antes da crise e ganhou força numa reunião em Brasília, na última terça-feira, que reuniu Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente estadual do PL, Zé Vitor (PL-MG), e o empresário Flávio Roscoe.

Na prática, o PL já vinha esfriando as tratativas com o governador de Minas, Mateus Simões (PSD), sucessor de Zema e candidato à reeleição, diante da provável candidatura presidencial do político do Novo. A avaliação predominante era que não fazia sentido manter uma aliança estadual com um grupo que apoiaria outro presidenciável no primeiro turno. A crise do Master, contudo, acelerou o movimento.

O deputado federal Domingos Sávio (PL-MG), pré-candidato ao Senado em Minas, afirmou que a reação de Zema tornou “praticamente impossível” qualquer entendimento político entre os grupos.

— Tenho uma relação boa com Mateus, mas a dificuldade é que ele era leal ao ex-governador. Agora, mesmo se a gente resolvesse ceder e topar dois palanques, quando Zema vem com metralhadora torna praticamente impossível uma aliança com o candidato dele — disse.

Dentro do PL, interlocutores afirmam que o desgaste de Flávio também enfraqueceu o plano inicial de impulsionar Flávio Roscoe ao governo mineiro vinculado diretamente à imagem da candidatura presidencial do senador. A estratégia previa uma campanha casada, resumida internamente no slogan “Flávio lá e Flávio cá”. Diante do desgaste, porém, o plano foi congelado e Cleitinho passou a ser tratado, ao menos por ora, como o nome mais seguro da direita para a disputa estadual.

Michelle amplia influência enquanto aliados tentam “descolar” campanhas estaduais

Nos bastidores, integrantes da legenda afirmam que a crise reorganizou imediatamente a disputa interna por espaço dentro da direita. A crise agrava também a competição interna entre o senador do PL e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que disputam na escolha de candidatos nos estados.

Michelle, por exemplo, tem acenado ao senador Esperidião Amin, rival de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, e apoia no Ceará a pré-candidatura da vereadora Priscila Costa (PL) ao Senado, que compete pela indicação à vaga com Alcides Fernandes, nome da preferência de Flávio.

Enquanto aliados regionais recalculam o grau de proximidade com Flávio, a crise passou a fortalecer outro movimento dentro do bolsonarismo: o crescimento da influência política de Michelle Bolsonaro sobre os palanques estaduais da direita.

Mesmo concentrada nos cuidados com Jair Bolsonaro, Michelle ampliou sua participação direta nas negociações eleitorais em mais de vinte estados, segundo interlocutores. O foco principal da ex-primeira-dama está em candidaturas ligadas ao eleitorado evangélico, feminino e mais ideológico da direita.

Aliados afirmam que a turbulência envolvendo Flávio abriu ainda mais espaço para Michelle consolidar uma estrutura política própria dentro do partido — muitas vezes em tensão com integrantes do entorno do senador.

Embora interlocutores ligados à ex-primeira-dama afirmem que ela descarta, por ora, disputar a Presidência, o nome de Michelle passou a circular com mais frequência em conversas reservadas dentro da direita após a repercussão do caso Vorcaro.

Enquanto isso, ela amplia influência sobre decisões regionais importantes. Michelle conseguiu barrar, ao menos temporariamente, a possibilidade de Rogéria Bolsonaro (PL-RJ) disputar o Senado no Rio de Janeiro.

No Distrito Federal, porém, interlocutores ligados à ex-primeira-dama admitem preocupação crescente com os desdobramentos envolvendo o governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado estratégico do grupo político de Michelle e peça central para a candidatura da vice-governadora Celina Leão (PP) ao governo local.

Integrantes do bolsonarismo afirmam que eventual agravamento da situação política de Ibaneis poderia comprometer justamente um dos palanques femininos considerados prioritários para Michelle.