Cúpula do Centrão vê neutralidade como caminho após crise com Flávio e Vorcaro

Grupo mais próximo ao bolsonarismo, porém, ainda quer alternativas para candidatura de direita

Agência O Globo

O senador brasileiro Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, observa enquanto participa de uma sessão no Senado para sabatina do advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, Brasil, em 29 de abril de 2026. REUTERS/Jorge Silva
O senador brasileiro Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, observa enquanto participa de uma sessão no Senado para sabatina do advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, Brasil, em 29 de abril de 2026. REUTERS/Jorge Silva

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Integrantes de partidos do Centrão se dividem sobre o caminho a adotar diante da crise causada após o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, aparecer em diálogos pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

As cúpulas nacionais do PP, União Brasil e Republicanos ainda não tomaram nenhuma decisão, mas avaliam adotar a neutralidade e liberar os filiados para apoiarem o candidato que desejarem.

Já outro grupo, fora do núcleo principal decisório das legendas, vê que o melhor caminho é ajudar a construir uma candidatura presidencial de direita alternativa ao senador do PL.

Essa ala que é contra a neutralidade e avalia que as siglas precisam se posicionar na disputa eleitoral para ter influência em um eventual novo governo. Mesmo com o desgaste de Flávio, o grupo entende que ainda há espaço para construir uma candidatura presidencial adversária do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O movimento, no entanto, não é tratado neste primeiro momento como opção pelos comandos nacionais das três legendas. As cúpulas dos partidos desde o início nunca se comprometeram a apoiar Flávio, mas mantêm pontes com o bolsonarismo.

A aliança entre o bolsonarismo e os três partidos do Centrão ficou indefinida após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens, áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente. Segundo a publicação, o acordo previa aportes de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões. Mas apenas parte foi repassado, ou R$ 61 milhões.

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Um integrante da Executiva Nacional do PP, por exemplo, diz que o melhor formato para a legenda é aquele que permite a eleição do maior número de deputados federais e senadores.

Para esse objetivo, a neutralidade é o melhor caminho, já que líderes locais ficam livres para construir alianças que os fortaleçam nos seus estados, o que em algumas regiões se traduz em aproximação com Lula e em outras com o bolsonarismo e outros grupos da direita.

Já alguns parlamentares do Centrão, mais ligados ao bolsonarismo, chegaram a sugerir até alguns nomes para substituir Flávio na disputa. Esse grupo tenta emplacar uma chapa com a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como candidata a presidente e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) na vice. A discussão, no entanto, não está avançada e os nomes não são tratados pelas cúpulas das legendas.

O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, disse que o debate sobre construir uma candidatura de Tereza Cristina e Michelle Bolsonaro não está nas rodas de conversa.

– Não conversei com ninguém sobre o assunto.

O deputado Elmar Nascimento (União-BA), um dos vice-presidentes nacionais da legenda, diz que “não consta” uma discussão sobre isso.

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Por sua vez, o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), também um dos vice-presidentes nacionais de sua sigla, diz que o assunto é citado por alguns parlamentares, mas reforça que o tema não é tratado pelo partido.

– Tem um grupo querendo, mas as lideranças não.

A ala dos partidos do Centrão que deseja uma alternativa a Flávio é mais próxima do bolsonarismo e deseja que as siglas se posicionem formalmente contra Lula nas eleições. Esse grupo teme que Flávio perca tração diante da crise, mas ainda almeja que as legendas trabalhem contra a candidatura presidencial do PT.

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Por outro lado, há diversos entraves, como a avaliação, até mesmo entre aliados de Michelle, de que a ex-primeira-dama e o PL não vão abandonar Flávio sem o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro, algo que é considerado difícil de acontecer, já que o próprio ex-presidente conversou com o filho e reforçou que ele continua candidato.

Em outra frente, a crise do Master provocou um afastamento entre Flávio e os partidos do Centrão, principalmente do PP.

A Polícia Federal fez uma operação na semana passada e identificou mensagens em que Vorcaro questiona seu primo, Felipe, sobre o atraso nos pagamentos destinados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do partido. O diálogo ainda revela um suposto aumento, de R$ 300 mil para R$ 500 mil, da mesada que era paga à uma estrutura que, segundo a PF, era vinculada ao parlamentar. A defesa do senador nega ter cometido qualquer crime.

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Em entrevista à Globo News, o senador do PL disse que “se Deus quiser, Ciro vai provar a inocência”, mas, na mesma entrevista, reforçou a estratégia de se desvincular dele e disse “o que eu tenho a ver com isso?”, após ser questionado sobre a operação da PF contra o presidente do PP.