Análise

Os 5 fatores que podem impedir o avanço de Jair Bolsonaro nas eleições

A cerca de nove meses das eleições, ex-capitão do Exército apresenta desempenho surpreendente, com pesquisas indicando ida ao segundo turno. Contudo, muitos analistas são céticos quanto à viabilidade de sua candidatura

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SÃO PAULO – A despeito de todo o ceticismo e da baixa exposição nos meios de comunicação tradicionais, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ocupa a segunda colocação em todos os cenários apontados pelos institutos de pesquisa para a sucessão de Michel Temer na presidência da República. Os números são expressivos e o ex-capitão do Exército promete brigar com unhas e dentes por uma vaga no segundo turno eleitoral.

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“Ele tem uma característica valiosa, que é a autenticidade. Você pode concordar ou não com o que ele está falando, mas tem a sensação de que ele fala o que realmente pensa. Esse é um ativo igual ao Trump tinha nos EUA e ele também tem aqui. Não vejo a candidatura dele como fogo de palha”, apontou Christopher Garman, diretor para Américas da Eurasia Group, em entrevista especial ao Guia Onde Investir 2018 – InfoMoney.

Se por um lado a narrativa antiestablishment, a recente marcha ao centro, a maior penetração a anseios de camadas importantes da sociedade e a possibilidade de uma pulverização de candidaturas ao centro ajudam o parlamentar em sua missão extremamente ousada, por outro, há fatores que podem reduzir suas chances de êxito. Embora as fotografias coloquem Bolsonaro em posição muito favorável na disputa, poucos são os analistas que apostam em seu sucesso.

Há três meses, este portal publicou uma análise com cinco elementos que poderiam colocar Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. Agora, é a vez de listarmos cinco obstáculos que podem barrar o êxito do deputado:

1. Pouca estrutura

O nanico PSL não garante uma fatia significativa do fundo partidário e tempo de televisão à candidatura de Jair Bolsonaro. A baixa capilaridade da legenda também representa um obstáculo importante, que dificulta a formação de palanques para o parlamentar em distintas regiões do país. Por outro lado, o ex-capitão do Exército conta com expressiva intenção de voto nas pesquisas eleitorais, ocupando a segunda posição na primeira disputa que participa, e apresenta boa capacidade de usar as redes sociais para se comunicar com o eleitorado, sobretudo a faixa mais jovem.

“A televisão continua sendo mais importante. Todas as pesquisas mostram que ainda o principal veículo de informação é a TV. Portanto, o programa eleitoral é essencial, porque vai ser o momento em que grande parte dos eleitores vai ter acesso às informações dos candidatos, tanto que isso faz parte da estratégia das alianças”, observou a cientista política Denilde Holzhacker, professora do curso de Relações Internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), em entrevista à última edição do programa Conexão Brasília, pela InfoMoneyTV.

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“Para uma parcela muito considerável do eleitor brasileiro, principalmente nas pequenas cidades, em regiões mais distantes dos centros urbanos, ainda vai ser a TV. Imagina-se que cerca de 60% das pessoas ainda se informam pela TV. Por outro lado, houve um crescimento no acesso à internet. A natureza [dos meios] é diferente. Imagina-se que as redes sociais vão ser importantes, mas os veículos de mensagem é que serão [protagonistas]. Então, aquelas correntes que a gente recebe. Em teoria eleitoral, um dos focos de confiabilidade da informação é a disseminação por alguém em quem confio. Essa lógica será muito importante, porque muita gente vai receber essas informações. Elas podem até serem falsas, mas quem me passou é alguém que conheço. Esse é um mecanismo novo, que está relacionado com a forma como as pessoas confiam nas informações que recebem”, complementou Denilde. Para a especialista, parte do funcionamento dessas engrenagens só será conhecida ao longo dos primeiros meses de 2018.

O analista político Jairo Pimentel, professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), continua acreditando que a capilaridade dos partidos e o tempo de televisão serão decisivos no resultado das próximas eleições. Por isso, acredita que uma reptição da disputa entre vermelhos e azuis no segundo turno como cenário provável. “Vejo o voto de Bolsonaro hoje muito como um recall. Na campanha, ele terá pouco tempo de televisão e irá derreter. Tempo de televisão e recursos de campanha continuarão sendo variáveis importantes do processo eleitoral”, afirmou. Para ele, o deputado federal repetirá o que ocorreu com Celso Russomanno nas últimas disputas eleitorais em São Paulo.

Visão similar aponta o analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores. “A cabdudatura de Bolsonaro tem algumas fragilidades importantes: ele não terá estrutura de campanha, vai ter muito pouco tempo de propaganda de rádio e televisão e não vai ter uma tropa partidária para fazer a sua campanha no primeiro momento. Por outro lado, se ele se mantiver forte, pode haver uma convergência partidária para apoiá-lo, como aconteceu com Collor em 1989. Também há a questão das redes sociais, que aumentaram sua importância frente a 2014 e Bolsonaro é o candidato que melhor as explora. Ele também tem um apoio de grupos que podem ser importantes e compensar essa falta de apoio partidário, que é a comunidade da segurança, militares, policiais e familiares. E os evangélicos também. Eles se dividem, mas uma parte deve aderir ao Bolsonaro”, observou em entrevista especial ao Guia Onde Investir 2018. “Mesmo assim, a questão que fica é: será que é suficiente para compensar a fragilidade da estrutura partidária tradicional do Bolsonaro? É uma dúvida para 2018. Minha avaliação é que Bolsonaro tende a cair quando começar a campanha, porque ele será atacado, vai ter pouco tempo para se defender e há algumas questões que estão começando a aparecer agora e que podem trincar a imagem dele daqui até a eleição”.

2. Dificuldades no partido

Além dos problemas estruturais, Bolsonaro ingressa no PSL como foco de um problema partidário nada desprezível. O movimento Livres, que compunha a legenda, anunciou sua saída após a filiação do deputado federal. O movimento foi o primeiro entre os que pregam renovação na política a ser vítima dos tradicionais acordos cúpula. A organização, que já havia estruturado 200 núcleos pelo país, deverá decidir o destino de seus quadros em até 15 dias. A debandada de uma ala expressiva dentro da nanica legenda deixa cicatrizes com as quais o ex-capitão terá de lidar. Costuras feitas mediante o uso da força podem mostrar falta de traquejo do parlamentar em acordos mais democráticos.

3. Dificuldades em articulações

“Bolsonaro não é um outsider, é um político que não foi absorvido pelo sistema”, observou Back. Por esse fato, embora não seja exatamente um nome de fora da política, o ex-capitão não é conhecido por suas habilidades em fazer negociações e articulações. O parlamentar é visto como figura de baixa expressão na Câmara dos Deputados, sem destaque também na formulação de projetos. A inaptidão de Bolsonaro nas relações políticas faz com que analistas políticos vejam um cenário conturbado caso ele vença as eleições. “O partido dele tem 3 pessoas e ele não vai fazer coalizão. Como esse sujeito vai montar uma maioria? Ele não lidera nada. É um tigre de mídia social. Esse cara sofre impeachment em um ano”, obsevou Ricardo Sennes, sócio-diretor da Prospectiva Consultoria, em entrevista ao programa UM BRASIL, pela InfoMoneyTV. “Então, imaginar que outsider que caiu das nuvens vai ser um salvador da pátria… Esse cara vai enterrar o país. Ele gera uma estagnação, um impasse, que no presidencialismo você não consegue sair”.

[Em caso de vitória de] Nomes como o de Jair Bolsonaro, que não conseguirem formar coalizão, é possível que tenhamos um quadro de tensão política bastante significativa, dado que existe o presidencialismo brasileiro e sempre um desafio de construir governabilidade sob administração de minoria. Essa é uma figura que o Brasil ainda não assistiu, embora seja bastante normal, inclusive em sistemas parlamentaristas. Mas há um equilíbrio de forças que torna complicada a gestão de governos minoritários, portanto, podemos ter esse desgaste de governabilidade de forma muito significativa”, observou Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria, em entrevista especial ao Guia Onde Investir 2018 – InfoMoney.

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Antes disso, caso não ocorra uma fragmentação do centro, Bolsonaro terá ainda mais dificuldades em construir alianças em torno de sua candidatura, o que reduz sensivelmente sua viabilidade eleitoral.

4. Bolsonaro x Bolsonaro

Em contraste com todo o ceticismo, o deputado conseguiu crescer nas pesquisas e ocupar um posto importante na disputa presidencial. “Bolsonaro veio forte. Por mais que se diga em avaliações pejorativas que não é um candidato com consistência, a grande verdade é que, até agora, no passo 1, ele foi muito competente, consolidando-se e fugindo da bolha de 5%. Achou um discurso em que não precisa oferecer resultado nem um programa muito bem definido, mais baseado na indignação das pessoas”, observou o analista político Richard Back, da XP Investimentos, em entrevista especial ao guia Onde Investir 2018 –  InfoMoney.

Apesar disso, o ex-capitão agora enfrenta dificuldades nos movimentos seguintes de viabilização de sua candidatura. “O passo 3 é tentar oferecer algo em termos de economia. Esse movimento tem sido um pouco mais lento, ele ainda tem que provar um pouco mais. Veja que voi contra a reforma trabalhista. Vai votar a favor da reforma da Previdência? São perguntas que terá que responder e isso pode dificultar um pouco”, observou. A marcha do parlamentar em direção ao centro, embora necessária à sua consolidação como candidato, não é simples. “Outra dificuldade pode ser a comparação com ele mesmo: o Bolsonaro que todo mundo conhecia até janeiro dizia coisas diferentes deste que diz agora”.

5. Pouco calejado

Embora seja assunto de todas as rodas de conversa sobre o cenário eleitoral, Bolsonaro ainda não foi alvo da artilharia pesada de políticos em campanha. “Vamos ver também como reage a ataques, porque apanha muito pouco do meio político e muito da mídia. Ele não tem a experimentação que têm PSDB, PMDB, PP e o PT de apanhar do meio político. Vamos ver qual é a estrutura dele para responder a tudo isso, se vai ter staff para evitar armadilhas. Há bastante pergunta sobre Bolsonaro, mas é inegável que ele andou muito bem nos últimos meses, muito mais do que tem aparecido na superfície, surpreendentemente conseguindo consolidar uma candidatura que ninguém esperava”, apontou Back.

Nesta semana, o jornal Folha de S. Paulo noticiou uma multiplicação no patrimônio do deputado e seus três filhos que exercem mandato parlamentar. De acordo com a reportagem, os principais apartamentos e casas comprados pela família nos últimos dez anos registraram preço de aquisição bem abaixo da avaliação da prefeitura do Rio à época, o que, em tese, ofereceria indícios de operação suspeita, nos critérios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e do Cofeci (Conselho Federal dos Corretores de Imóveis). Até 2008, a família declarava à Justiça Eleitoral bens avaliados em cerca de R$ 1 milhão, o que incluía apenas três dos atuais 13 imóveis. Hoje, o patrimônio imobiliário dos quatro parlamentares tem preço de mercado de pelo menos R$ 15 milhões. O mesmo jornal noticiou que Jair Bolsonaro e um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), recebem R$ 6.167 por mês de auxílio moradia mesmo tendo imóvel em Brasília.

Pelas redes sociais, o presidenciável e seus filhos se manifestaram sobre as reportagens. “O Brasil vive a maior campanha de assassinato de reputação de sua história recente protagonizada pela grande mídia. Chega a ser cômico, com tanto escândalo e crime dentro da política, a pauta são minhas ações lícitas. Escolheram viver no mundo da fantasia onde eu seria o mau”, escreveu Jair Bolsonaro em sua conta no microblog Twitter. Na semana passada, o veículo enviou 32 perguntas ao presidenciável e seus filhos mas não obteve resposta. O episódio representa um novo flanco de agenda negativa ao parlamentar.

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Apesar disso, a consultoria de risco político Eurasia Group vê pouco impacto do que foi revelado até o momento sobre os planos de Bolsonaro. Conforme apontam os analistas políticos, foram lançadas algumas suspeitas, mas não foram encontrados quaisquer ilícitos. Além disso, eles lembram que, no final do ano passado, O Globo apontou que ele empregava parentes em seu gabinete.

Reportagens que mostrem questões sobre os candidatos, sobretudo aqueles que se destacam nos levantamentos eleitorais, são comuns em um ano de corrida às urnas. Conforme aponta a Eurasia, dado o patamar de 17% que Bolsonaro tem nas pesquisas, haverá um aumento do escrutínio sobre o seu passado e ele deve virar alvo de seus adversários. Desta forma, deve-se esperar por mais nos próximos meses. Contudo, eles ressaltam que isso não deve gerar danos à sua base de apoio, uma vez que o ex-capitão possui seguidores fiéis nas mídias sociais e pode usar facilmente o argumento de que a mídia pró-establishment tem a intenção de atacá-lo.

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