Mapa de Risco: Lula transforma encontro com Trump em ativo eleitoral para 2026

Avaliação de Guilherme Casarões é que viagem teve menos peso diplomático e mais objetivo político para 2026

Marina Verenicz

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A reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abriu uma nova frente de disputa narrativa para a eleição de 2026. Para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, o encontro serviu principalmente para desmontar um dos pilares políticos construídos pelo bolsonarismo nos últimos meses sobre a ideia de que apenas um Bolsonaro conseguiria reconstruir a relação do Brasil com a Casa Branca.

“Engana-se quem acha que essa viagem foi sobre política externa. Essa viagem foi sobre eleição, sem dúvida”, afirmou Casarões durante participação no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, desta sexta-feira (8).

Segundo ele, mesmo sem anúncios concretos, acordos assinados ou coletivas conjuntas, Lula saiu da viagem com o que mais importava politicamente. A imagem pública de um presidente recebido por Trump em meio ao avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e à tentativa da direita de monopolizar a interlocução com os Estados Unidos.

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“O que o Lula demonstrou com a viagem de ontem é que essa narrativa central da campanha do Flávio Bolsonaro não se sustenta”, disse.

Casarões avaliou que o governo brasileiro construiu cuidadosamente o formato do encontro para evitar qualquer risco de constrangimento público, lembrando episódios recentes em que Trump expôs líderes estrangeiros diante das câmeras, como Volodymyr Zelensky e Cyril Ramaphosa. 

“O ambiente tinha que ser controlado, a precaução prevaleceu”, afirmou.

Cenário interno

Na leitura do cientista político, o cálculo do Planalto fazia ainda mais sentido diante do momento delicado vivido por Lula no cenário doméstico. Casarões citou o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, derrotas recentes no Congresso e desgastes políticos acumulados nas últimas semanas. 

“Eu mesmo nem esperava que o Lula fosse a Washington se encontrar com o Trump”, disse o professor ao mencionar o contexto de pressão política enfrentado pelo presidente brasileiro.

Para o cientista, a viagem permitiu a Lula recuperar a imagem de liderança internacional. Segundo Casarões, esse sempre foi um dos pilares centrais do lulismo desde os primeiros mandatos.

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“Política externa sempre foi uma prioridade absoluta para o presidente Lula”, afirmou.

O professor destacou ainda que Lula tenta reeditar em 2026 uma estratégia semelhante à usada na campanha de 2022, quando apostou em viagens internacionais para reforçar sua legitimidade política e diplomática.

“Existe algo de novo nessa dinâmica eleitoral do Brasil que o Lula soube explorar: mostrar que é um estadista respeitado internacionalmente”, afirmou.

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Na avaliação dele, o alvo principal da estratégia não é o eleitor petista nem o bolsonarista mais fiel, mas sim o eleitor de centro ainda indeciso.

“Mostrar para um eleitor ainda indeciso de centro que ele tem o respeito dos Estados Unidos”, resumiu Casarões.

Articulação bolsonarista nos EUA

O cientista político também apontou que Flávio Bolsonaro vinha tentando ocupar justamente esse espaço internacional desde que passou a ser tratado como possível herdeiro político do pai. Ele lembrou viagens recentes do senador aos Estados Unidos, Israel e países do Oriente Médio, além da participação na CPAC, principal conferência do trumpismo.

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“Só um Bolsonaro, nesse caso só ‘eu, Flávio Bolsonaro, serei capaz de resolver a relação com os Estados Unidos”, descreveu Casarões ao resumir a narrativa construída pelo senador.

Para o professor, a foto de Lula ao lado de Trump enfraquece diretamente esse discurso.

“Enquanto Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e o próprio Flávio estavam ali cantando que tinham um acesso especial à Casa Branca, quem foi recebido foi o Lula”, afirmou.

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Casarões avaliou ainda que, eleitoralmente, a ausência de coletiva conjunta acabou favorecendo o presidente brasileiro. Segundo ele, o formato permitiu que apenas Lula conduzisse a narrativa pública sobre o encontro.

“O que vale nesse momento, a única versão que a gente tem, é a versão do presidente Lula”, afirmou.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.