Jornal chinês vê postura de Lula sobre minerais como revés para os EUA

Após encontro com Trump, analista ouvido pelo Global Times avaliou que Brasil resistiu à pressão americana sobre terras-raras

Marina Verenicz

07 de maio de 2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, Washington, D.C. Foto: Ricardo Stuckert / PR
07 de maio de 2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, Washington, D.C. Foto: Ricardo Stuckert / PR

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A postura adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a reunião com Donald Trump, na quinta-feira (7), em Washington, repercutiu na imprensa estatal chinesa como um sinal de resistência do Brasil à pressão dos Estados Unidos por acesso prioritário a minerais críticos brasileiros.

Em reportagem publicada pelo Global Times, jornal ligado ao Partido Comunista Chinês, um analista ouvido pelo veículo avaliou que Lula evitou se comprometer com qualquer alinhamento exclusivo aos americanos na área de terras-raras, setor considerado estratégico na disputa tecnológica e industrial entre Washington e Pequim.

Após o encontro com Trump, que durou cerca de três horas, Lula afirmou que o Brasil não pretende dar preferência aos Estados Unidos na exploração ou comercialização desses minerais.

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“Nós não temos preferência. O que nós queremos é fazer parceria”, disse o presidente brasileiro.

A declaração foi destacada pelo Global Times como um indicativo de que o Brasil tenta preservar margem de autonomia diante da crescente disputa internacional por minerais estratégicos.

“Autonomia estratégica”

O jornal chinês ouviu Zhang Xiaorong, diretor do Instituto de Pesquisa de Tecnologia de Ponta, que interpretou a posição brasileira como uma tentativa de evitar dependência geopolítica dos EUA.

“A posição de Lula destacou a determinação do Brasil em resistir à pressão dos EUA e manter sua autonomia estratégica”, afirmou Zhang ao Global Times.

Segundo ele, o Brasil tenta ampliar seu papel dentro da cadeia global de minerais críticos, deixando de atuar apenas como exportador de matéria-prima.

“Em vez de aderir a uma aliança exclusiva liderada pelos EUA, o Brasil está se posicionando como um ator industrial independente”, declarou o analista.

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Brasil virou peça estratégica

A disputa em torno do tema ganhou intensidade nos últimos anos por causa da importância das terras-raras para setores como inteligência artificial, baterias, semicondutores, equipamentos militares, transição energética e eletrônicos.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o que transformou o país em alvo de interesse simultâneo de americanos e chineses.

Os EUA tentam reduzir sua dependência da China na cadeia de minerais críticos e enxergam o Brasil como parceiro estratégico tanto pelo volume de reservas quanto pela proximidade geográfica.

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A China, por outro lado, mantém ampla vantagem global no setor. O país asiático concentra cerca de 90% da capacidade de refino e processamento de terras-raras no mundo.

Tema ganhou peso na reunião

A discussão sobre minerais críticos esteve entre os principais temas tratados no encontro entre Lula e Trump, ao lado de tarifas comerciais, segurança pública e cooperação econômica.

O interesse americano no tema aumentou diante da corrida global por cadeias de suprimento consideradas essenciais para tecnologia e defesa.

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Nesse contexto, a sinalização de Lula de que o Brasil pretende negociar com diferentes parceiros — sem exclusividade — foi interpretada pelo Global Times como um movimento favorável à manutenção do equilíbrio geopolítico do país.