Mapa de Risco: Lula usa encontro com Trump para tentar afastar rótulo de “pato manco”

Encontro com presidente dos EUA vira trunfo político do Planalto após derrota histórica no Senado, dizem analistas

Marina Verenicz

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A reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump ocorreu em um momento delicado para o governo brasileiro. Menos de uma semana após sofrer uma derrota histórica no Senado, com a rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, o presidente desembarcou nos Estados Unidos tentando reconstruir sua imagem de força política e relevância internacional.

Na avaliação da analista de política da XP, Bianca Lima, o encontro ajuda simbolicamente o presidente porque acontece logo após um episódio que a oposição transformou em marco de desgaste político.

“A oposição quis colar uma imagem de ‘pato manco’ no presidente”, afirmou durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney.

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A expressão, tradicionalmente usada na política americana para definir presidentes enfraquecidos e em reta final de mandato, passou a circular nos bastidores de Brasília após a derrota do governo na indicação ao STF — algo que não ocorria havia 132 anos.

Embora o encontro entre Lula e Trump já estivesse sendo negociado desde março, a coincidência temporal acabou oferecendo ao Planalto uma oportunidade de reposicionamento político.

“Essa viagem vem num momento em que o Lula quer mostrar que ainda está aqui, que é relevante, competitivo e tem reconhecimento internacional”, disse Bianca.

A dimensão simbólica ganhou ainda mais peso diante do comportamento do próprio Trump. Diferentemente de outros encontros recentes do presidente americano com líderes estrangeiros, a reunião com Lula não teve exposição pública inicial da imprensa dentro do Salão Oval, reduzindo riscos de constrangimento político ou desgaste de imagem.

Além disso, o republicano publicou posteriormente um comentário positivo sobre o encontro, classificando Lula como “energético” e descrevendo a conversa como produtiva.

“Essa foto ao lado do Trump também serve, neste momento, para mostrar que o Lula está no jogo”, afirmou a analista.

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Governo tenta repetir 2025

No entorno do Planalto, existe a percepção de que encontros com Trump podem gerar dividendos políticos semelhantes aos observados após o episódio do tarifaço em 2025, quando o governo conseguiu transformar um momento inicialmente negativo em ganho de popularidade ao explorar a narrativa de defesa da soberania nacional.

Agora, o esforço parece semelhante: usar a interlocução com Washington para reforçar a imagem de um presidente respeitado internacionalmente e capaz de dialogar diretamente com a principal potência global.

Para o cientista político e vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, porém, o encontro interessa também aos próprios Estados Unidos. “Essa agenda vem num momento muito mais alinhado às preocupações internas dos Estados Unidos do que propriamente ao Lula”, afirmou.

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Segundo ele, temas como inflação americana, minerais críticos e cadeias estratégicas de suprimento ajudam a explicar o interesse da Casa Branca no Brasil neste momento.

Ainda assim, Noronha avalia que Lula tentará capitalizar politicamente a reunião. “O Lula vai capitalizar isso dizendo que o mundo quer conversar com o Brasil”, disse.

Impacto eleitoral limitado

Apesar do ganho simbólico, analistas avaliam que o efeito eleitoral direto tende a ser restrito. A leitura é que a polarização consolidada faz com que eventos internacionais tenham capacidade limitada de alterar a intenção de voto.

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“Isso alimenta muito a retórica de um lado e de outro, mas o que faz diferença hoje são as questões internas”, afirmou Noronha.

Entre elas, seguem dominando as preocupações do eleitor temas como inflação, segurança pública, corrupção e custo de vida — áreas em que o governo ainda enfrenta dificuldades para melhorar a percepção popular.

Nesse contexto, o encontro com Trump funciona menos como um ponto de virada eleitoral e mais como uma tentativa de interromper uma sequência negativa em Brasília e reconstruir a imagem de autoridade política de Lula em um momento de fragilidade institucional.

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O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e nas principais plataformas de podcast.