Eduardo Cunha mandou emendas para cidades onde comprou rádios em Minas Gerais

Prefeitos atribuíram recursos a indicação direta de ex-presidente da Câmara, que alega ter feito apenas ‘sugestões’ a colegas de partido, em meio a plano de concorrer a deputado pelo estado

Agência O Globo

Eduardo Cunha - Fotos públicas
Eduardo Cunha - Fotos públicas

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O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG) direcionou emendas parlamentares, sem estar no mandato, para municípios nos quais vem instalando emissoras de rádio em Minas Gerais. As rádios fazem parte da estratégia de Cunha para se tornar conhecido no estado, onde pretende concorrer a deputado federal neste ano, após décadas de atuação política no Rio. Parte dos prefeitos que receberam os recursos, que totalizam R$ 6,1 milhões de acordo com investigação da Polícia Federal (PF), atribuiu a indicação das emendas a Cunha ao divulgar o feito.

A afirmação dos prefeitos contradiz a versão de Cunha, que diz ter feito apenas “sugestões” a parlamentares, aos quais caberia a decisão final da alocação de recursos. Na segunda-feira, em entrevista à Rádio Maravilha — a mesma rede da qual é dono —, Cunha alegou ter “sugerido ao partido (…) algumas propostas de emendas” e que “o líder da bancada acolheu parte” delas.

A PF, porém, apontou Cunha como “verdadeiro solicitante da indicação” de emendas para a área da saúde em 21 municípios mineiros, no ano passado. Para os investigadores, a inclusão de outros deputados como autores, nos registros oficiais da Câmara, buscava “escamotear o real interessado” e configura “fraude de encaminhamento”.

Um dos casos que expõe esse conflito de versões é o do prefeito de Varjão de Minas, Rafael de Toni (PL), que recebeu Cunha em um “encontro de lideranças” no município em outubro de 2025. Três dias antes, a Comissão de Saúde da Câmara havia apresentado uma emenda de R$ 590 mil para custeio da área de atenção primária de saúde do município, atribuída à “liderança do Republicanos” — exercida, na ocasião, pelo deputado federal Gilberto Abramo (MG), aliado de Cunha.

Posteriormente, ao divulgar uma lista de autores de “recursos conquistados” pelo município, o prefeito apresentou Eduardo Cunha como autor da indicação dos R$ 590 mil. Com isso, Cunha figurou como o quinto maior responsável por mandar recursos para o município. Na lista, ele foi creditado como “deputado federal (MDB-RJ)”, posto que ocupava até ser cassado em 2016.

“Nosso agradecimento a todos os parlamentares que destinaram emendas a Varjão de Minas nos anos de 2025 e 2026”, escreveu o prefeito.

Procurada, a prefeitura de Varjão de Minas disse que iria se manifestar através de nota, mas não retornou até o fechamento desta edição.

‘Articulação’

Em outro caso semelhante, revelado pelo portal “O Fator”, o presidente da Câmara de Vereadores de Piau, Mica Carvalho (MDB), afirmou que “juntamente com Eduardo Cunha” articulou o envio de R$ 300 mil para a saúde municipal. O vereador publicou um vídeo de agradecimento ao lado do prefeito Wander Loures (PP). Conforme a investigação da PF, o recurso foi chancelado pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados em dezembro.’

Já em Guarani (MG), onde Cunha comprou uma de suas emissoras de rádio, o prefeito Emerson Patrick (Republicanos) publicou vídeo, em dezembro, anunciando que o município “conseguiu uma emenda parlamentar (…) através da bancada mineira”, no valor de R$ 250 mil.

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Embora o prefeito não cite Cunha, a emenda aparece em uma planilha encontrada pela PF que contém os R$ 6,1 milhões indicados pelo ex-presidente da Câmara. No ano passado, antes do envio da emenda, Cunha já havia adquirido a antiga Rádio Tropical FM 92,7 no município, para rebatizá-la como Rádio Maravilha. A operação da rádio foi transferida depois para Ubá, município da Zona da Mata mineira com 103 mil habitantes, dez vezes mais do que Guarani, e a apenas 45 quilômetros de distância.

Cunha adotou estratégia semelhante em outras regiões de Minas, comprando rádios em municípios pequenos para depois ampliar a transmissão para cidades maiores. Em Raul Soares (MG), outro município da Zona da Mata para onde o ex-deputado destinou R$ 472,9 mil em emenda no fim de 2025, Cunha adquiriu no mesmo ano a “Rádio Sociedade Entre Rios”, com o objetivo de expandir as atividades para Ipatinga e Caratinga.

Procurado pelo GLOBO, Cunha disse que as emendas “não têm nada a ver” com a presença das rádios nesses municípios, e que já planejava transferir as emissoras para outras cidades antes de direcionar os recursos. O ex-deputado também reiterou que não fez “indicação, e sim sugestão”. Na decisão em que bloqueou R$ 6,1 milhões em bens de Cunha, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino entendeu que Cunha exercia “acentuada ingerência” sobre a verba “sem exercer mandato”.

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— Não sou autor de emenda nenhuma, nem posso sê-lo. Sou parte da sociedade, assim como os prefeitos que me procuram e pedem recursos — argumentou Cunha, na segunda-feira, à rádio 98,7 de Belo Horizonte.