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Em mais uma decisão decorrente da investigação sobre o mau uso de emendas parlamentares, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou ontem o bloqueio de até R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos). O ex-deputado é suspeito de direcionar pelo menos 21 indicações de verbas, mesmo sem ter um mandato, com o aval do atual chefe da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), de acordo com a Polícia Federal (PF).
Assim como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, cujo patrimônio também foi congelado por decisão de Dino, o ex-deputado negociou, segundo investigadores, o envio de verbas com a servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, em um “quadro gravíssimo de desvio de finalidade”, de acordo com a decisão do ministro do STF. Para a Polícia Federal (PF), Fialek atuava como operadora de um novo “orçamento secreto” e, no caso de Cunha, contava com o aval de Motta para favorecer o aliado — o ex-deputado é padrinho político do atual presidente da Câmara.

Decisão do STF aponta que Eduardo Cunha usou deputado para direcionar emendas
Já Cunha, sem citar o colega de partido, afirmou que irá contestar a decisão do ministro do STF

Cunha diz desconhecer irregularidades de emendas: “legítima interlocução política”
A investigação aponta que Cunha e Valdemar Costa Neto, presidente do PL, teriam utilizado a mesma operadora dentro da Câmara
A decisão, assinada em 6 de julho, também suspendeu imediatamente a execução de todas as despesas públicas ligadas às emendas sob suspeita. Nos diálogos interceptados pela PF, Cunha aparece interessado particularmente em repasses para Minas Gerais, estado pelo qual pretende concorrer à Câmara neste ano. As emendas foram direcionadas, segundo a investigação, no fim do ano passado, totalizando o mesmo valor milionário informado na ordem de bloqueio de Dino.
“Consoante atestam diálogos em aplicativos de mensagens e numerosas planilhas compartilhadas entre os investigados, Eduardo Cosentino da Cunha, sem exercer mandato parlamentar, parece ter atuado, até muito recentemente, como mandante do (re)direcionamento de valores públicos, especialmente em prol de sua anunciada campanha ao cargo de deputado”, escreveu Dino.
Em nota, a defesa de Cunha negou que ele tenha exercido um “mandato clandestino”, alegou que o ex-presidente da Câmara não participou formalmente da apresentação das emendas e disse que buscará acesso integral à ação para contestar as medidas.
“Eduardo Cunha sempre pautou sua vida pública pelo compromisso ético e probidade, respeitando as normas legais, inclusive, enquanto exerceu seu mandato parlamentar. Deste modo, a defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato”, diz o comunicado.
Procurado, Motta não se manifestou. No sábado, o presidente da Casa já havia dito que a decisão de Dino que bloqueou até R$ 119 milhões em bens de Valdemar, fruto da mesma investigação, era uma tentativa de “criminalizar a política” e não identificou “desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas”.
No documento, a PF afirma que há indícios que sustentam a tese de que Fialek atuava sob ordens da presidência da Câmara. “Tudo indica que Tuca (Fialek) contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”, diz a corporação.
‘Mineiros enrolados’
Ainda de acordo com a PF, Cunha atuava como uma espécie de “parlamentar informal”: mesmo sem cargo, dispunha de uma cota própria de emendas e definia diretamente quais municípios receberiam os recursos, sempre com a intermediação de Fialek.
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“O quadro é absolutamente grave no ponto em que Eduardo Cunha não exerce cargo de deputado desde setembro de 2016”, afirmou a PF, em representação enviada a Dino.
Entre os diálogos que embasaram a decisão, um trecho mostra Cunha reclamando justamente de cidades no estado pelo qual pretende se eleger. As conversas foram extraídas do celular de Fialek.
“Boa tarde, desculpa, mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares (MG) por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar”, escreveu.
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Em setembro de 2025, diante de um conflito local sobre a autoria de uma emenda destinada a Manhuaçu (MG), o ex-deputado desistiu do repasse e mandou substituir o município: “Bom dia. Trocar Manhuaçu por essas para acabar com a confusão”, escreveu. Ele indicou, em seguida, o Fundo Municipal de Saúde de Governador Valadares (MG) e a Associação Hospital Belizário Miranda como novos destinatários. Sobre a disputa, resumiu: “Cidade pequena é uma guerra”.
Em outra passagem, ao pedir remanejamentos envolvendo os municípios de Matias Barbosa (MG), Pedrinópolis (MG) e Varjão de Minas (MG), Cunha afirmou: “Desculpa o trabalho, mas Minas é muito pulverizado”. Fialek respondeu: “Tranquila. São muitos municípios mesmo”.
Apoio para eleição
Ao relatar os diálogos, a PF faz considerações sobre a postura de Cunha. “É evidente a tentativa de cooptar apoio político local para a eleição”, afirma. A corporação anota que as emendas foram “criadas para atender demandas legítimas”, mas acabaram “subordinadas a um esquema informal coordenado por quem não mais responde ao eleitorado” e “às regras republicanas de transparência”.
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A decisão de Dino também apresenta indícios de que o ex-parlamentar usou o deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG) como autor de emendas. Em uma outra troca de mensagens entre Cunha e Fialek, ambos falam sobre uma emenda que seria de Abramo, mas foi apontada como de outro parlamentar, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
“Oi. Se puder. Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele”, disse Cunha em mensagem enviada para Fialek.
Sobre esse caso, Dino argumenta que as provas deixam claro que as indicações eram de Cunha, mas que “o fato de que outros parlamentares tenham sido alocados como ‘solicitantes’ só agrava o processo de fraude de encaminhamento e desvio dos recursos”. Procurado, Abramo não se manifestou.
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