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Uma eventual ofensiva do governo contra as bets pode colocar o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diante de uma equação eleitoral. A medida pode ser popular entre mulheres e evangélicos, mas tem potencial de provocar forte resistência entre jovens e parte do público masculino ligado ao esporte.
A avaliação é de Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), e João Paulo Machado, analista de política da XP. Para eles, o efeito dependerá principalmente do alcance das restrições que o governo decidir adotar.
“O governo nessa reta final da campanha tenta dar uma cartada com um novo tema, um tema popular, que é compreensível pelo eleitor, que são as bets”, afirmou Medeiros no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney.
Lula afirmou nesta quinta-feira (24) que pretende acabar com as bets no Brasil. Nos bastidores, porém, ainda não havia uma decisão fechada sobre o formato da medida.
Segundo Machado, as alternativas em discussão iam desde uma restrição ampla, envolvendo apostas esportivas e cassinos online, até medidas mais específicas, como a proibição apenas dos cassinos virtuais ou a imposição de novos limites aos valores apostados.

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Uma ponte com o eleitor evangélico
Machado avalia que a iniciativa tem potencial para conversar com um eleitorado no qual Lula encontra dificuldades nesta eleição.
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Segundo ele, pesquisas mostram rejeição às apostas entre os brasileiros, com resistência ainda maior entre evangélicos. Ao mesmo tempo, os levantamentos mais recentes vinham registrando avanço de Flávio Bolsonaro (PL) nesse segmento.
“É uma decisão que o governo toma mirando esse eleitor, mas também, para além de mirar o eleitor, mirando a virada do ciclo de notícias”, afirmou.
A possível restrição aparece, assim, com duas funções políticas. A primeira seria tentar alcançar grupos nos quais Lula tem dificuldade. A segunda, recolocar um tema propositivo no centro da campanha depois de semanas dominadas por notícias negativas envolvendo investigações, o Banco Master e o Supremo Tribunal Federal.
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Na semana anterior, o reajuste do Bolsa Família já havia cumprido parcialmente esse papel ao abrir outra frente de discussão na campanha.
Mulheres de um lado, jovens de outro
Medeiros também identifica potencial de aproximação com mulheres e evangélicos, mas ressalta que a mesma medida pode produzir uma reação na direção contrária.
“É um aceno ao público feminino, aos evangélicos”, afirmou. O tamanho desse efeito, porém, dependerá do que efetivamente for anunciado.
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“Vamos ver qual vai ser o tamanho, o grau de restrição do que vai ser lançado pelo governo, porque, ao mesmo tempo que é uma medida que pode trazer um impacto eleitoral, também, a depender do grau da medida, pode trazer alguns reveses para parcelas do eleitorado, público masculino, pessoal que está muito ligado ao esporte”, disse Medeiros.
Machado acrescenta outro grupo à equação: os jovens. Uma restrição ampla poderia atingir um público que utiliza mais as plataformas e acompanha modalidades esportivas financiadas por empresas do setor.
O efeito ultrapassaria o apostador. Clubes de futebol, veículos de comunicação e outras empresas possuem contratos de publicidade e patrocínio com casas de apostas.
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“Também pode gerar reflexos em um eleitorado mais jovem, que é quem mais lida com esse tipo de instrumento, de ferramenta, com pessoas que são mais próximas ao esporte”, afirmou Machado.
Lula tenta recuperar justamente os jovens
A possibilidade de resistência nesse grupo ganha importância porque os jovens estão entre os segmentos que se afastaram de Lula desde 2022, segundo Medeiros.
O cientista político identifica quatro grupos que perderam parte da conexão com o governo: jovens, moradores do Sudeste, eleitores de renda intermediária e pessoas com ensino médio completo. As características, segundo ele, muitas vezes se sobrepõem.
É justamente esse eleitor que o governo tentou alcançar ao longo do ano com medidas como o Desenrola, a ampliação da faixa do Minha Casa Minha Vida, o fim da chamada taxa das blusinhas e a ampliação da isenção do Imposto de Renda.
Para Medeiros, porém, essas iniciativas tiveram efeito político curto diante da pressão persistente do custo de vida e da percepção de pouca mobilidade social.
“Por mais que eles tenham estudado mais do que a geração de seus pais, avançado em termos educacionais, o ganho profissional de renda não foi proporcional ao que ele estudou”, afirmou.
Uma eventual restrição às bets coloca, portanto, dois objetivos da reta final em possível tensão. Lula pode encontrar na pauta uma forma de conversar com mulheres e evangélicos e recolocar endividamento e renda no centro da eleição. Mas, dependendo de até onde o governo avançar, também poderá atingir um público jovem que já aparece entre os eleitores que o presidente tenta reconquistar.
O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.