Crise no STF domina uma eleição já “sem novidades, projetos e planos”

Disputa entre ministros e sucessão de operações desviam atenção de propostas de Lula e Flávio a menos de um mês do primeiro turno

Publicidade

A sucessão de conflitos no Supremo Tribunal Federal (STF) está ocupando o espaço que deveria ser usado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e seus adversários para apresentar propostas na reta final da eleição.

Paa Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, o problema é agravado por uma campanha presidencial que já tinha dificuldade para despertar o interesse do eleitor antes da escalada da crise no Judiciário.

“Já era uma campanha muito morna, sem novidades, sem projetos, sem planos, e agora a atenção do eleitor fica o tempo inteiro esperando cenas dos próximos capítulos: qual vai ser a operação de hoje, o que vai acontecer”, afirmou no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, desta sexta-feira (11).

A disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, os desdobramentos das investigações sobre o Banco Master e as decisões conflitantes sobre o comando da Polícia Federal colocaram o STF no centro do noticiário justamente quando a campanha entra em sua fase decisiva.

O efeito é uma eleição na qual a agenda institucional ganha espaço enquanto propostas dos candidatos permanecem em segundo plano.

“Os dois principais candidatos não vão a debate e aí não tem debate. Não está tendo discussão nenhuma. Se vocês me perguntarem o que cada candidato propõe, eu própria não saberei dizer, quem dirá o eleitor comum”, disse Schulman.

Continua depois da publicidade

STF atravessa a agenda de Lula e Flávio

Para a analista de política da XP Bárbara Baião, a crise também alterou uma dinâmica tradicional das eleições sobre a vantagem do presidente que disputa a reeleição de usar entregas do governo para pautar a campanha.

Ela compara o cenário atual com 2022. Naquele ano, Lula e Jair Bolsonaro disputavam temas como Auxílio Brasil, Bolsa Família, salário mínimo e isenção do Imposto de Renda. Mesmo com Alexandre de Moraes já no centro dos ataques bolsonaristas, o Supremo não dominava a agenda eleitoral. Agora, o quadro é diferente.

“A vantagem do incumbente de pautar a agenda, de colher os resultados das medidas anunciadas, está completamente atravessada por um ciclo de notícias que envolvem o presente e o futuro da Suprema Corte”, afirmou Baião.

Continua depois da publicidade

A crise também passou a ser incorporada pelas próprias campanhas. Flávio explora a insatisfação com o STF e concentra ataques em Moraes, ao mesmo tempo em que valoriza André Mendonça. Lula, por sua vez, passou a defender a divulgação integral das investigações e tenta associar Mendonça ao campo bolsonarista.

Segundo Baião, embora estejam em lados opostos, as campanhas adotam estratégias semelhantes para usar a crise para aumentar a rejeição do adversário.

“É uma eleição que você precisa não vencer porque tem as melhores propostas para o Brasil, mas ser menos rejeitado do que o outro lado”, afirmou.

Continua depois da publicidade

Proposta que muda a vida do eleitor

A ausência de uma agenda capaz de mobilizar o eleitor não se restringe à crise do STF.

Schulman avalia que Lula chega à reta final sem uma proposta com o poder simbólico que outras bandeiras tiveram em eleições anteriores. Ela cita programas como Desenrola e Pé-de-Meia, mas considera a vitrine insuficiente para produzir entusiasmo.

“Essa vitrine é muito restrita e é muito pouco, vou usar uma palavra aqui, sexy. Não tem alguma coisa que o cara diga: ‘uau!’”, afirmou. “A picanha tinha um atrativo”.

Continua depois da publicidade

No entanto, a dificuldade também existe do outro lado da disputa.

“Do outro lado, o Flávio Bolsonaro também: eu não tenho motivo para votar nele nessas questões. Eu não sei o que ele está propondo, o que vai mudar na minha vida”, afirmou.

O resultado, segundo ela, são duas campanhas “muito paralisadas” na disputa política enquanto as preocupações mais concretas permanecem sem respostas claras.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.

Autor avatar
Marina Verenicz
Política | Brasil | Mundo