Acordo Mercosul-UE cria “vacina” para Lula e ajuda a reduzir rejeição em 2026

Cientista político diz que pacto pode beneficiar o presidente contra ataques à agenda econômica do PT e reforça narrativa de abertura de mercados

Marina Verenicz

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista no Palácio do Planalto, em Brasília - 18/12/2025 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista no Palácio do Planalto, em Brasília - 18/12/2025 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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A aprovação política do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia nesta sexta-feira (9) abre uma nova frente de narrativa para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) num ano que já começa sob lógica eleitoral.

Mesmo antes de qualquer efeito econômico aparecer no bolso do eleitor, o pacto pode ser explorado como ativo de comunicação para diminuir resistências no centro e em setores produtivos, avalia o cientista político Josué Medeiros, professor da UFRJ e coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL).

O acordo, negociado desde 1999 e destravado politicamente no fim de 2024, prevê a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 91% do comércio entre os blocos e cria as bases para uma área de livre-comércio que envolve cerca de 700 milhões de pessoas.

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Na leitura de Medeiros, o ganho imediato de Lula é político: o acordo funciona como “vacina” contra um dos ataques mais recorrentes ao PT, o de que a esquerda não valoriza economia de mercado, empresariado e agenda de integração comercial.

Ao reivindicar protagonismo na construção do tratado, Lula passa a ter um argumento de defesa e também de ofensiva, mesmo que os resultados práticos levem tempo para se materializar. “Em campanha eleitoral, você precisa de elementos para atacar o adversário, mas também de vacinas contra os ataques que você vai receber”, afirmou.

O ponto central, segundo o cientista político, é que campanhas não se sustentam apenas em promessas, mas também em blindagens. Em um ambiente polarizado, a disputa tende a ser decidida por segmentos que não estão plenamente fechados com um lado, e é nesse eleitorado mais ao centro que a acusação de que o PT seria hostil ao mercado costuma ganhar tração. O acordo, na prática, vira um carimbo de credibilidade para rebater esse enquadramento.

“Vai ser possível explorar estatísticas: esse acordo vai fazer com que exportações brasileiras cheguem mais à Europa, com que produtos cheguem mais barato aqui. Esse tipo de dado costuma impactar positivamente o eleitor, porque ele fica numa expectativa”, disse.

Essa estratégia pode ser potencializada com dados e recortes simples. Hoje produtos brasileiros enfrentam tarifas elevadas no mercado europeu, enquanto bens industriais europeus entram no Mercosul com alíquotas que chegam a 35% no caso de automóveis e até 20% em máquinas e químicos. O discurso eleitoral pode traduzir isso em expectativa de mais acesso a mercados e maior previsibilidade para exportadores, especialmente do agronegócio.

Menor rejeição, eleição menos conflagrada

Medeiros argumenta que, numa sociedade polarizada, o ganho não precisa vir da migração direta de votos. A meta mais realista é reduzir rejeição e desmobilizar pânicos políticos em segmentos que dificilmente fariam escolha pelo PT, mas podem aceitar uma vitória de Lula como algo “administrável”, sem transformar a eleição numa disputa de ruptura. Isso tende a favorecer quem está no Planalto e tenta consolidar a reeleição, afirma.

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O acordo, nessa lógica, conversa com a elite econômica e com formadores de opinião que pressionam por pragmatismo comercial. Ao favorecer cadeias exportadoras e sinalizar abertura, a iniciativa pode reduzir resistências em setores como agro e indústria, diminuindo incentivos para uma campanha altamente agressiva contra o governo.

“Isso ajuda quem está na frente, quem busca reeleição. Para o Lula, interessa muito que seja uma eleição normal e não uma eleição conflagrada.”

Ele citou ainda pesquisas que indicam aprovação ampla da condução da política externa e comercial, acima da intenção de voto do presidente. “Isso mostra que há gente que não vai votar no Lula, mas deixa de achar que o Brasil vai virar uma Venezuela. É um ganho enorme num ambiente polarizado.”

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Apoio de setores produtivos

Medeiros avalia que o acordo também pode ser usado como instrumento de articulação política com setores estratégicos. “Esse tipo de acordo favorece o agronegócio e a indústria. Você pode usar isso para diminuir resistências e, eventualmente, trazer setores para apoiar uma candidatura”, afirmou.

Na sua análise, o acordo com a União Europeia não será um movimento isolado. “O Lula deve ir à Ásia para tentar avançar em acordos com Índia e Coreia do Sul. Você vai criando uma dinâmica que fortalece politicamente o presidente candidato à reeleição”, disse.

Com a campanha se aproximando, Medeiros acredita que o tema deixará de ser restrito a círculos especializados. “Até agosto, isso fica mais na articulação política, mas na eleição vai ter programa de TV, vai ter rede social, vai ter material dedicado a relações internacionais”, afirmou. Para ele, o acordo tende a se transformar em um dos pilares da narrativa eleitoral de Lula em 2026.

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Como a aprovação desta sexta-feira abriu caminho para a assinatura do tratado já na próxima semana, a campanha também pode explorar a imagem de Lula como protagonista diplomático, reforçando o componente de liderança internacional.

Ainda assim, o acordo só entra em vigor após as etapas de ratificação, e parte da disputa deve migrar para o debate interno em parlamentos e para as resistências setoriais na Europa.