Publicidade
Em meio a visões divergentes sobre ações, câmbio e o ritmo da economia global, o mercado converge em pelo menos um ponto quando o assunto é renda fixa lá fora: a preferência por títulos de prazo curto e a cautela com os vencimentos longos.
O pano de fundo é a parte curta da curva de juros americana, que oferece hoje rendimentos elevados, enquanto a ponta longa segue pressionada por risco fiscal. O Treasury de 2 anos rende ao redor de 4,6%, praticamente no mesmo nível do papel de 10 anos, num quadro em que o mercado avalia a chance de novas altas de juros pelo Federal Reserve. Diante disso, a leitura predominante entre os alocadores é que dá para garantir renda sem se expor à volatilidade dos prazos mais longos.
O Standard Chartered afirma manter uma “forte preferência” por vencimentos curtos para evitar exposição excessiva a novas preocupações com inflação, ainda que veja na recente alta dos juros uma oportunidade de travar rendimentos. O objetivo é aproveitar o carrego sem correr o risco de duration (prazo médio). O alívio recente, aponta o banco em relatório, foi mais visível nos juros curtos do que nos longos, “sugerindo que preocupações fiscais de longo prazo permanecem”.
A BlackRock segue na mesma direção. A gestora está comprada em Treasuries de curto e médio prazo, que classifica como as de melhor relação risco-retorno, e vendida nos papéis longos. Segundo a casa, os investidores passaram a querer “mais compensação para carregar títulos de longo prazo em meio a inflação persistente e alto endividamento” e esses papéis se tornaram “um diversificador de carteira menos confiável no novo regime”, escreve a casa em relatório.
O BNP Paribas Wealth Management também prefere prazos mais curtos, ao redor de cinco anos, tanto em Treasuries quanto em títulos soberanos. E a Goldman Sachs Asset Management, ao desenhar seus cenários, coloca a renda fixa de curta duração como a posição preferida para reduzir a sensibilidade a juros num quadro de inflação mais resistente.

“Eu não seria comprador”: Dimon aponta riscos nos títulos públicos americanos
Em podcast, CEO do JPMorgan justifica a cautela com renda fixa longa citando paralelo com a inflação dos anos 1970 e diz que a inteligência artificial deve gerar retorno, mas não no prazo que o mercado espera

Após IPCA+, Tesouro Selic pode ser próximo a pagar taxa mais alta; entenda
Demanda fraca por títulos de inflação deixa dívida cada vez mais atrelada à taxa básica e menos protegida contra ciclos de juros altos – e mercado começa a discutir LFT com prêmio maior
Prêmio de termo e fiscal
Por trás do consenso está uma preocupação compartilhada com a ponta longa da curva. O fiscal frouxo e o volume pesado de emissões de dívida sustentam os juros longos em patamares altos, mantendo elevado o chamado prêmio de termo, o retorno extra que o investidor cobra para carregar um papel mais longo em vez de rolar títulos curtos. Mesmo quando a inflação dá sinais de arrefecimento, o alívio tende a se concentrar nos vencimentos curtos, enquanto as preocupações fiscais seguram os longos.
O BNP Paribas chegou a rebaixar títulos públicos da zona do euro e do Reino Unido de positivo para neutro, avaliando que os rendimentos recuaram e a relação risco-retorno na ponta longa ficou menos atrativa.
Já o Deutsche Bank observa que os investidores seguem atentos a “potenciais choques políticos e geopolíticos, além da sustentabilidade do forte crescimento dos lucros”, uma cautela que ajuda a explicar por que a busca por proteção na ponta curta se mantém mesmo com o apetite por risco em ações.
Leia também: Dividendos e recompras atingem US$ 6,3 bi no Brasil; veja maior pagadora
Continua depois da publicidade
Esses riscos voltaram a se materializar recentemente, com uma nova rodada de tensões entre Estados Unidos e Irã que voltou a pressionar o petróleo, com o Brent operando novamente na casa dos US$ 85 a US$ 90 por barril.
É justamente contra esse tipo de solavanco que a preferência por prazos curtos funciona como proteção: quanto menor a duração, menor o impacto de uma nova pressão inflacionária ou de uma revisão para cima na trajetória de juros sobre o valor dos papéis. O Standard Chartered ressalva que qualquer alta mais forte do petróleo tende a ser passageira, mas mantém a recomendação de encurtar prazos como resguardo diante de um cenário mais adverso.
Onde estão as oportunidades?
O Standard Chartered mantém preferência por crédito frente a títulos públicos e destaca uma posição comprada em dívida soberana de emergentes em dólar, além de enxergar nos títulos americanos protegidos da inflação, os TIPS, uma boa proteção contra um cenário mais desfavorável.
Continua depois da publicidade
Na BlackRock, a aposta é em papéis de agências americanas lastreados em hipotecas, os agency MBS, que oferecem renda superior à das Treasuries com risco semelhante, e em dívida local de emergentes, onde vê retorno atrativo diante da volatilidade e fundamentos em melhora.
Já o BNP Paribas prefere crédito privado de boa qualidade em euro e libra ao crédito em dólar, citando a dinâmica de oferta e o nível dos spreads, e mantém uma postura neutra em relação ao high yield, o crédito de maior risco, cujos prêmios considera baixos demais para remunerar o risco embutido.
Leia também: Imposto da herança: por que antecipar doação de bens pode sair pela culatra
Continua depois da publicidade