Tesouro não paga tanto desde Dilma: IPCA+8% é mesmo imperdível?

Títulos públicos oferecem taxas altíssimas e a bolsa caiu bastante, e especialistas dizem que é hora de aproveitar para ir às compras — mas com o cuidado de driblar as falsas pechinchas

Angelo Pavini

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(Foto: Shutterstock)
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A disparada dos juros longos nas últimas semanas colocou os títulos atrelados à inflação no centro das atenções dos investidores. Papéis do Tesouro Nacional já pagam taxas reais acima de 8% ao ano em prazos mais curtos, níveis não vistos desde o governo Dilma Rousseff, enquanto cresce a aposta de que o Banco Central não cortará os juros em sua reunião da semana que vem.

Para gestores e estrategistas ouvidos pelo InfoMoney, esse cenário abre uma janela rara, mas exige posicionamento cuidadoso.

Renda fixa: separando o joio do trigo

André Leite, diretor de investimentos da TAG Investimentos, descarta o risco de calote na dívida interna, mas faz uma ressalva importante sobre os prefixados. “Países como o Brasil não dão default na dívida interna, apenas a inflacionam”, diz. Por isso, a TAG prefere os títulos de inflação (Tesouro IPCA+, ou NTN-Bs) mais curtos desde o início do ano. “O mercado começou o ano em um devaneio de IPCA perto de 3% e já estamos em 5%”, afirma. Não à toa, o IMA-B 5 acumula desempenho acima dos demais índices de renda fixa. Já os prefixados, na visão de Leite, representam o maior risco atual: se o Banco Central precisar subir os juros para conter a inflação, esses papéis sofrem diretamente.

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Onde Investir no 2º semestre

Marco Noernberg, sócio e estrategista de renda variável da Manchester Investimentos, também enxerga nas NTN-Bs a melhor relação risco-retorno do momento. “Não podemos garantir que essas taxas não vão subir mais, mas estamos perto das máximas históricas de títulos atrelados à inflação”, diz. Sua preferência são os vencimentos entre 2030 e 2035, o “miolo da curva”, que capturam as taxas elevadas sem sofrer tanto com a atualização de preços em caso de novas altas.

Na mesma direção, relatório semestral da XP assinado por Lucas Genoso e Rodrigo Sgavioli recomenda prazo médio de até seis anos nos títulos indexados à inflação, com foco em emissores de baixo a médio risco de crédito no caso de papeis privados, apontando o IPCA como o indexador mais adequado para o momento diante da combinação de pressão inflacionária global, política fiscal expansionista e incerteza eleitoral no Brasil.

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Noernberg ressalta, porém, que essa proteção tem custo no curto prazo: uma NTN-B pagando 7% ou 8% reais deve render cerca de 13% ao ano somada ao IPCA, abaixo dos 14,50% do CDI hoje. A compensação vem se os juros básicos caírem mais à frente, quando o papel travado em taxa alta passa a ter valor de mercado maior. De acordo com a análise da XP, o pós-fixado segue como base das carteiras pela liquidez e menor volatilidade, mas os ativos indexados à inflação ganham relevância crescente como camada de proteção e geração de retorno real no médio prazo, especialmente diante da projeção da casa de IPCA de 5,5% para 2026.

Bolsa: visão dividida

Para a bolsa, a queda recente do Ibovespa de 200 mil para 169 mil pontos abre espaço seletivo. “É nessa hora que as oportunidades aparecem”, diz Noernberg. Ele destaca bancos como o Itaú Unibanco (ITUB4), negociado por cerca de seis vezes o lucro, e companhias de serviços públicos e construção pouco alavancadas.

Já a TAG prega ceticismo. O fluxo estrangeiro que empurrou o Ibovespa a recordes neste ano recuou, com saída de R$ 15 bilhões em maio e junho dos R$ 57 bilhões aportados até abril. “Nunca compramos esse fluxo dos gringos, sabemos que ele é como o vento”, diz Leite, que também alerta para a inconsistência entre um mercado de crédito deteriorado e ações ainda bem avaliadas.

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“Você não pode ter um cenário bom na ação e ruim na dívida, essas situações têm de se falar em algum momento.”

— André Leite, diretor de investimentos da TAG Investimentos

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Como montar a carteira

Para perfis conservadores, Noernberg sugere até 80% em ativos atrelados ao CDI, com algum crédito privado de qualidade. Os moderados podem elevar a parcela em papéis de inflação para 20% a 25% e ter entre 5% e 10% em bolsa. “Um papel corrigido pelo IPCA pagando 8% reais é raríssimo”, observa. Já os mais sofisticados podem ter de 25% a 30% em NTN-Bs e até 20% em ações. “O importante é ter uma carteira diversificada e não ficar em uma direção só, pois o mercado pode mudar de uma hora para outra”, conclui.

Os especialistas também indicam reservar um espaço para investimentos no exterior. Na TAG, a recomendação é ter pelo menos 30% do patrimônio lá fora: o câmbio ao redor de R$ 5, diz Leite, é boa oportunidade para quem ainda não tem essa exposição, citando a guerra no Irã e a eleição presidencial como os principais fatores binários que devem determinar o rumo da moeda.

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