Mercado de juros precifica alta da Selic, com prefixados perto de 15% ao ano

Prefixados cruzaram os 14,50% na sexta após o payroll, aceleraram a alta na segunda, e nem alívio geopolítico desta terça é capaz de reverter movimento

Paulo Barros

(Foto: Freepik)
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O mercado de juros passou a embutir na curva a possibilidade de alta da Selic. O sinal se consolidou ao longo dos últimos pregões, a partir da sexta-feira (5), quando o payroll americano empurrou os prefixados do Tesouro Direto acima dos 14,50% ao ano pela primeira vez em meses, cruzando o nível atual da taxa básica de juros. Na segunda-feira (8), o movimento se aprofundou, com o Prefixado 2029 fechando a 14,92% e o Prefixado 2032 a 14,86%.

Quando o mercado espera que o Banco Central vá cortar os juros, os prefixados costumam render menos do que a Selic, porque quem compra o papel hoje já está embutindo os cortes futuros no preço. O fato de os prefixados operarem acima dos 14,50% da Selic indica que esse raciocínio foi invertido: o mercado passou a considerar que os juros podem ficar onde estão por muito tempo, ou até subir.

Nesta terça-feira (9), os prefixados recuaram em relação às máximas de ontem. O Prefixado 2029 caiu de 14,92% para 14,83%, o Prefixado 2032 de 14,86% para 14,73% e o Prefixado com Juros Semestrais 2037 de 14,83% para 14,68%. O alívio veio de uma mudança no noticiário do Oriente Médio: Israel e Irã suspenderam os ataques militares a pedido de Trump, que afirmou durante a noite estar próximo de fechar um acordo de paz nos próximos dois ou três dias, com reabertura imediata do Estreito de Ormuz.

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A queda, no entanto, não é suficiente para reverter a precificação de alta da Selic que se consolidou desde sexta. Os prefixados seguem acima de 14,50%, e a estrutura da curva permanece praticamente flat entre os vencimentos de 2029 e 2037, sem a inclinação descendente que seria esperada em um ciclo normal de queda de juros.

Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, lembra que Trump fez promessas semelhantes de acordo ao longo de março, abril e maio sem que nenhuma se concretizasse. “Os acontecimentos recentes são positivos e apontam para um avanço das negociações diplomáticas, mas ainda existe certo grau de ceticismo enquanto não houver uma confirmação oficial e definitiva desses entendimentos”, afirma.

O pano de fundo que moldou essa precificação segue presente: o payroll americano de maio surpreendeu com 172 mil vagas, mais que o dobro do esperado, a inflação nos EUA opera próxima de 3,8% e o Boletim Focus de segunda já havia elevado a projeção da Selic para 13,5% ao final de 2026, o que na prática significa que o mercado reduziu drasticamente as apostas em novos cortes.

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Nos títulos de inflação mais longos, que costumam embutir mais os receios de risco fiscal, o IPCA+ 2050 opera a 7,33%, ante 7,37% no fechamento de segunda. O dólar recua para o entorno de R$ 5,16, mas sem força para desfazer o cenário que se instalou na curva.

Veja as taxas do Tesouro Direto às 9h30 desta terça-feira (9):

TítuloRendimento AnualVencimento
Tesouro Reserva 2036SELIC01/01/2036
Tesouro Selic 2031SELIC + 0,0743%01/03/2031
Tesouro Prefixado 202914,83%01/01/2029
Tesouro Prefixado 203214,73%01/01/2032
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 203714,68%01/01/2037
Tesouro IPCA+ 2032IPCA + 8,30%15/08/2032
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2037IPCA + 7,92%15/05/2037
Tesouro IPCA+ 2040IPCA + 7,65%15/08/2040
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045IPCA + 7,68%15/05/2045
Tesouro IPCA+ 2050IPCA + 7,33%15/08/2050
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2060IPCA + 7,54%15/08/2060

Paulo Barros

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos