Publicidade
A reação positiva do Bitcoin (BTC) à nova compra da Strategy (MSTR) não durou muito tempo. Mesmo após Michael Saylor anunciar a aquisição de 1.550 Bitcoins por US$ 101 milhões, a primeira desde a venda que detonou a queda semana passada, a criptomoeda volta a cair nesta terça-feira (9) e opera em baixa de 4,5%, próximo de US$ 61 mil, ainda ameaçando um suporte de preço considerado crucial. Até aqui, a indiferença do mercado deixa uma coisa clara: a confiança não voltou.
Não é por menos. A semana passada foi a pior desde o colapso da exchange FTX em novembro de 2022, com queda de cerca de 14% em sete dias, e o Bitcoin acumula baixa de 50% desde a máxima acima de US$ 120 mil. Por outro lado, indicadores técnicos em níveis extremos e o sentimento do mercado no piso histórico revivem a pergunta inevitável para o investidor: é hora de comprar, esperar ou sair?
A resposta, como quase sempre no mercado cripto, depende do horizonte de tempo. E do estômago.
Guia gratuito
Onde Investir no 2º semestre
Os sinais que apontam para fundo
Alguns indicadores históricos começam a piscar verde. O MVRV Z-Score, métrica que compara o preço atual do Bitcoin com o custo médio de aquisição de cada unidade já negociada na rede, está próximo de zero, sugerindo que o preço está perto do que o mercado considera seu valor justo. Nos ciclos de 2014, 2018 e 2022, o indicador tocou ou cruzou essa linha antes de importantes recuperações.
Maximiliaan Michelsen, analista da 21Shares, aponta ainda que mais da metade dos detentores de Bitcoin estão atualmente no prejuízo, nível que historicamente coincidiu com fundos de ciclo. O preço realizado agregado, que representa o custo médio de todas as moedas em circulação, está em US$ 54 mil, e o Bitcoin encontrou no passado suporte próximo a esse nível em grandes correções. “O sentimento está se aproximando de níveis comparáveis aos da FTX, após os quais o Bitcoin subiu mais de quatro vezes em menos de dois anos”, afirma Michelsen.
Theodoro Fleury, gestor de portfólio da QR Asset, também enxerga o momento como uma janela atrativa. Para ele, o ciclo atual está se comportando dentro do padrão histórico, com quedas menores do que nos bear markets anteriores, o que é sinal de maturidade crescente do mercado. “Quem começa a alocar nesses níveis pensando em longo prazo, em anos e não em meses, vai acabar tendo sucesso. O Bitcoin bate esses níveis de valuation quando o cenário parece catastrófico”, avalia.
O gestor, no entanto, não descarta a hipótese de um recuo maior, justamente à casa dos US$ 54 mil: “não vejo porque não cair até esse nível”, falou.
Leia também: Ibovespa despenca de quase 200 mil para 169 mil: até onde pode ir a baixa?
Pontos de alerta
Os mais pessimistas veem uma janela mais longa para retomada. Quinn Thompson, CIO da Lekker Capital, recomenda evitar o mercado cripto durante o verão do hemisfério norte e retomar a avaliação apenas no final do terceiro trimestre. Na sua visão, o apetite institucional em queda e a rotação para os mega IPOs de inteligência ajudam a explicar o momento. Fleury concorda: “São valuations de trilhões de dólares, com movimentações que passam de centenas de bilhões de dólares. O Bitcoin é um ativo líquido que acaba sendo o dano colateral dessa realocação”, avaliou o gestor.
Continua depois da publicidade
Para Thompson, os problemas não resolvidos da Strategy também criam poucas condições para uma recuperação consistente no curto prazo. A falta de reação do preço à última aquisição, diz, indica que os investidores aguardam catalisadores mais amplos antes de comprometer capital.
Embora na ponta mais otimista, Michelsen pondera que o espaço para recuperação está mais comprimido do que na correção de fevereiro. Naquela época, a média móvel de 200 dias ficava em US$ 103 mil, deixando ampla margem de alta. Hoje, essa média caiu para US$ 78.476 após sete meses de preços deprimidos, o que significa que uma recuperação até essa resistência já seria uma alta expressiva a partir dos níveis atuais, mas sem a mesma amplitude do movimento anterior.
Leia também: As ações preferidas da XP Investimentos em 13 setores da Bolsa brasileira
Continua depois da publicidade
Tese de longo prazo resiste
A Bernstein lembra ainda que a captação conjunta de ETFs e tesourarias de Bitcoin somou cerca de US$ 12 bilhões em 2026, queda acentuada em relação aos US$ 60 bilhões captados em 2025. Por outro lado, mantém visão construtiva para o longo prazo. “O Bitcoin ainda pode oferecer alguma diversificação em relação aos mercados atualmente dominados pelo momentum singular da inteligência artificial”, escreveram os analistas da corretora em relatório.
A casa destaca que a base de detentores está mais diversificada do que em qualquer ciclo anterior, incluindo ETFs, fundos de pensão, plataformas de gestão de fortunas e investidores soberanos. Segundo os analistas, essa estrutura torna o ativo menos dependente da especulação de varejo e mais resiliente a choques pontuais.
Fleury reforça o argumento da resiliência do protocolo. Desde o seu lançamento, o Bitcoin emite um bloco a cada dez minutos sem falha, com ajustes matemáticos de dificuldade sendo executados à risca. O número máximo de unidades está fixado em 21 milhões, e o ritmo de emissão segue precisamente a programação original. “O Bitcoin entrega tudo que ele promete. Ele é volátil, sim, mas o que ele promete entregar ele entrega”, afirmou o gestor.
Continua depois da publicidade
O que fazer agora?
Para o investidor pessoa física, a recomendação não é entrar de uma vez nem sair.
Michelsen, da 21Shares, recomenda que investidores com visão de longo prazo construam exposição sistematicamente nos próximos meses em vez de tentar identificar o fundo exato. “Esperar por uma confirmação técnica acarreta um custo significativo, pois qualquer rompimento positivo poderia provocar uma alta acentuada”, alertou o analista, referindo-se aos mais de US$ 10 bilhões em posições vendidas acumuladas acima do preço atual, que poderiam ser liquidadas rapidamente em uma eventual recuperação.
Fleury sugere uma abordagem concreta para quem quer começar ou ampliar a alocação: compras mensais ao longo de 12 a 18 meses até atingir o percentual desejado em Bitcoin, sem tentar acertar o momento exato de entrada. “Agora é um bom momento para começar essa estratégia”, disse o gestor.
Continua depois da publicidade
Fábio Plein, diretor da Coinbase para as Américas, reforça que o momento exige disciplina antes de ação. Para o executivo, o investidor deve avaliar seu próprio perfil de risco e desenvolver gradualmente sua compreensão sobre o mercado antes de aumentar exposição. “Manter o foco nos fundamentos de longo prazo e investir de forma responsável continua sendo vital, independentemente das condições de mercado”, afirmou Plein ao InfoMoney.
Para onde o BTC vai agora?
O cenário-base da 21Shares aponta para uma recuperação a US$ 100 mil até o final de 2026, o que representaria alta de aproximadamente 64% a partir dos níveis atuais. Para chegar lá, o Bitcoin precisaria primeiro defender o suporte de US$ 60 mil a US$ 65 mil, depois recuperar a região de US$ 78 mil de forma consistente, onde convergem a média móvel de 200 dias e a média real de mercado.
A partir desse ponto, os fatores macro e estruturais, incluindo uma eventual resolução do conflito no Oriente Médio, o retorno dos fluxos positivos nos ETFs e o avanço do marco regulatório nos Estados Unidos, definirão o ritmo da recuperação, segundo a gestora.