Câmbio, IPCA-15 e Focus elevam aposta de corte de 0,50 na Selic e interesse nos prefixados, diz economista

Apesar de acreditar que houve um avanço, João Fernandes, da Quantitas, observa que o BC deve adotar postura cautelosa, com ciclo de redução de juros gradual

Bruna Furlani

João Fernandes, sócio e economista da Quantitas

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Números qualitativos melhores na prévia da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15), somados a melhorias vistas nas projeções de inflação no Boletim Focus e à apreciação do real frente ao dólar nos últimos dias devem ser observados com atenção pelos dirigentes do Banco Central na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

E a postura adotada pela autoridade monetária tende a ser mais favorável a um corte de 0,50 ponto percentual no encontro do mês que vem, avalia o sócio e economista da Quantitas, João Fernandes. Apesar de acreditar que a probabilidade aumentou, a casa diz que não pretende mudar o cenário-base, que prevê uma queda de 0,25 ponto em agosto.

“É um cenário apertado. É difícil de cravar, mas os três fatores juntos aumentaram marginalmente a probabilidade de um corte de 0,50”, diz o executivo, ao observar também o avanço do real frente ao dólar nos últimos dias.

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Na segunda-feira (24), no mercado de opções digitais da B3 (ou opções de Copom), os agentes financeiros precificavam uma probabilidade de 47% de um corte de 0,5 ponto percentual na Selic na reunião de agosto, contra uma chance de 46% de queda de 0,25 ponto percentual.

Olho nos detalhes do IPCA-15

Ao olhar para os números do IPCA-15 divulgados nesta terça-feira (25), o economista destaca que o dado cheio veio em linha com o esperado pela casa, que previa um resultado de -0,07% em julho – mesmo valor apresentado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o consenso de mercado aguardava um recuo de 0,01%, segundo o consenso Refinitiv.

Foi a primeira variação negativa do indicador desde setembro de 2022, quando o índice caiu 0,37%.

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Fernandes também afirma que o aspecto qualitativo do IPCA-15 veio melhor do que previsto – com destaque para a inflação de serviços subjacentes, que exclui itens voláteis, chegando a 0,35% em julho, enquanto o esperado pela casa era 0,50%.

“A parte de serviços tinha piorado muito no último IPCA-15 e trouxe preocupação porque é um indicador acompanhado de perto pelo BC. Quando aquilo que é mais importante pro BC deu sinais de aceleração, pensamos se não voltaria a ser um problema com um mercado de trabalho apertado”, lembra o sócio da Quantitas.

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Agora, com o novo dado, o economista diz que a inflação de serviços subjacentes anualizada voltou para mais perto da meta. “Voltou para um patamar parecido com meses anteriores, virou para 4%. É um movimento importante para reaproximar da meta. O BC quer 3%, mas está perto do que estava antes”, diz.

Fernandes também chama atenção para a média dos núcleos do IPCA-15, que ficou em 0,09%, contra os 0,15% esperados pela casa. Outro detalhe está no índice de difusão – indicador que mede o porcentual de itens com que aumentaram de preços no mês.

Nos cálculos da casa, que não considera as variações em alimentos, o indicador fechou julho em 49% – sendo o esperado era 53%. O indicador também recuou frente ao mês passado, quando o índice de difusão ficou em 57%, lembra Fernandes.

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Segundo o IBGE, após nove meses no campo positivo, a prévia da inflação oficial registrou uma queda de 0,11 ponto percentual em relação à taxa do mês anterior (0,04%). No ano, a alta está acumulada em 3,09% e, em 12 meses, de 3,19%.

O principal fator para esse resultado, segundo o IBGE, veio da retração nos preços da energia elétrica residencial (-3,45%), após a incorporação do Bônus de Itaipu, creditado nas faturas de julho.

Além da energia elétrica residencial (-3,45%), o IBGE informou que a queda nos preços do botijão de gás (-2,10%) influenciou a retração do grupo Habitação (-0,94%), um dos que mais impactaram o índice geral. Já a taxa de água de esgoto (0,20%) está entre os itens que subiram.

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Nos cálculos da casa, o IPCA deve encerrar este ano entre 4,4% ou 4,5%, mas Fernandes diz que está revisando os números, após a divulgação do IPCA-15 hoje. Anteriormente, a gestora previa que a inflação oficial encerasse este ano em 4,6%. Os percentuais estão abaixo dos 4,90% esperados pelo mercado no Focus.

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Além de uma composição melhor do IPCA-15, o economista destaca que o relatório com as estimativas dos agentes vem mostrando uma melhora nas projeções de inflação.

No Boletim Focus apresentado nesta terça-feira (25), que sofreu alterações em função dos horários de jogos da seleção feminina, a estimativa do IPCA para este ano caiu de 4,95% para 4,90%, enquanto a previsão para a inflação em 2024 recuou de 3,92%, na semana passada, para 3,90% nesta.

Já a estimativa para a inflação oficial de 2025 caiu de 3,55% para 3,50% e a 2026 permaneceu nos mesmos 3,50% da semana passada.

Embora destaque que houve uma melhora nas projeções de inflação, Fernandes pondera que as estimativas ainda estão muito mais desancoradas do que em vários outros momentos de cortes da Selic.

“Durante o mandato do Ilan [Goldfajn], [as estimativas de inflação para] todos os anos estavam ancoradas. Ele [Ilan] começou os cortes num ritmo devagar até para entender melhor até onde podia ir”, afirma o executivo.

Tom do Copom e alocação em juros

Para Fernandes, o Copom deve seguir atento aos dados e atuando com cautela. “O ritmo de cortes vai depender da inflação e da atividade. Ele [BC] não deve abrir a porta para acelerar o ritmo”, diz o especialista sobre a reunião de agosto.

Ele lembra que, se o BC optar por um corte de 0,50 ponto na próxima reunião, já estará dando um passo importante.

De olho em oportunidades, o sócio diz que a Quantitas vem alocando em prefixados com vencimento em 2024 e 2025. Fernandes argumenta que não parece factível colocar uma precificação de que o BC poderia realizar cortes de 0,75 ponto e até mesmo levar a Selic terminal para perto de 9%.

“Isso é precificação de um cenário em que tudo daria certo. Parece uma postura desalinhada com os riscos que existem hoje”, alerta o profissional, ao ver que a criação de empregos ainda não deu sinais recessivos e que o setor de serviços se mantém mais resiliente.

Atualmente, a casa está com uma projeção de IPCA para 2024 em 4,5%, ou seja, acima do projetado pelos economistas consultados pelo Boletim Focus, que estão com uma estimativa de 3,90%.

A gestora também conta que está com uma posição comprada (que aposta na alta) da inflação implícita para 2024 e 2025. “Tem mais eventos que podem fazer a inflação surpreender para cima do que para baixo. Como, por exemplo, o El Niño, mas é difícil antecipar o efeito dele com maior clareza”, pondera.