Guerra na Ucrânia faz 2 anos com crises e mais fome no mundo; o que mudou em 6 pontos

Neste sábado, completam-se dois anos da invasão russa na Ucrânia, com sensíveis perdas de vidas, impactos econômicos e humanitários; calcula-se que serão necessários US$ 486 bilhões para reconstruir o país

Roberto de Lira

(Getty Images)
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A invasão da Ucrânia pela Rússia completa dois anos neste sábado (24) e existem vários tipos de medidas para avaliar os impactos que o conflito trouxe – não só para os países envolvidos, como para o restante do mundo. O InfoMoney fez um balanço sobre os efeitos humanitários, econômicos e no mapa geopolítico nesse período turbulento.

Confira:

Mortos, feridos e refugiados

Ainda que não existam estatísticas precisas, estima-se que a Rússia perdeu de 200 mil a 300 mil combatentes, entre mortos, feridos e desaparecidos. As perdas militares ucranianas rondam os 130 mil, incluindo 15 mil desaparecidos durante os combates. 

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Mas a dimensão humanitária da guerra também salta aos olhos, com as mortes e desaparecimento de civis por ataques e bombardeios aéreos passando de 20 mil até o final do ano passado, metade deles, por enquanto, dados como desaparecidos.

O conflito também mudou o mapa da Ucrânia: mais de 6 milhões de refugiados emigraram para nações vizinhas e outras 5,1 milhões de pessoas se deslocaram dentro do país, fugindo das regiões em disputa. Uma contraofensiva ucraniana de 2023 recuperou 54% do território ocupado desde 2022, mas ainda estima-se que a Rússia controle 18% do país, especialmente nas faixas sul e leste do território.

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Economia da Ucrânia

Segundo dados do FMI, o PIB da Ucrânia, que crescia 3% em média antes do conflito, caiu perto de 30% no primeiro ano da guerra, com grande perda do estoque de capital e aumento da pobreza. Em 2023, com apoio externo, a projeção é que o país tenha recuperado uma fração disso, crescendo 4,5%. Neste ano, deve avançar entre 3% e 4%.

Na semana passada, um estudo apoiado pela ONU estimou em US$ 486 bilhões o custo de reconstrução e recuperação na Ucrânia na próxima década. Acredita-se, por exemplo, que 10% do parque habitacional do país – cerca de dois milhões de casas – foi danificado ou destruído. Pelo menos 2.000 quilômetros de rodovias e estradas vão precisar de reconstrução ou reparações, entre outras infraestruturas críticas atingidas.

Numa outra dimensão da tragédia, calcula-se que um total de 4.779 bens culturais na Ucrânia foram danificados, incluindo edifícios de valor histórico, obras de arte, oficinas para a indústria criativa e instalações turísticas.

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Economia da Rússia

Mesmo com a forte reação global pela agressão ao vizinho, a economia russa tem sofrido menos que o esperado. Com várias sanções ao país governado por Vladimir Putin, entre 250 bilhões e 300 bilhões de euros em reservas do Banco Central da Rússia estão bloqueados na União Europeia, parceiros do G7 e na Austrália.

O espaço aéreo russo está fechado para a maioria dos aviões ocidentais – e os portos pelo mundo, fechados para navios russos. Para impedir que a receita do grande produtor de petróleo alimentasse a guerra, foi imposto um limite à compra ou processamento de petróleo russo vendido por mais de US$ 60 o barril.

Apesar disso, a economia russa não entrou em colapso. Uma explicação é que parte das sanções têm sido contornadas por uma grande frota “obscura” de navios não segurados e pela utilização de lacunas contábeis pelas empresas. E alguns países estão desempenhando o papel de intermediários para os russos, como Turquia, China, Sérvia, Bulgária e Índia.

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O FMI projeta crescimento de 2,6% do PIB neste ano, acima do Reino Unido (0,6%) e da UE (0,9%). O déficit orçamentário deve permanecer abaixo de 1% do PIB, em comparação com 5,1% no Reino Unido e 2,8% na UE. Os gastos públicos estão em níveis recordes, com 40% do orçamento do governo gasto na guerra. Espera-se que os gastos militares totais atinjam mais de 10% do PIB em 2023, contra 2,3% do Reino Unido.

Crise na segurança alimentar

A volatilidade dos preços internacionais dos alimentos foi outra consequência da guerra, com implicações geoestratégicas de longo alcance. O Relatório de Riscos Globais de 2023 do Fórum Econômico Mundial classificou a crise no abastecimento alimentar como uma das principais ameaças que o mundo enfrenta, lembra o think tank Chatham House.

Antes da invasão, a Ucrânia era uma engrenagem importante no sistema alimentar global, respondendo por 10% das exportações globais de trigo, 13% da cevada, 15% do milho e mais de 50% do mercado global para óleo de girassol. O impacto da guerra foi brutal, já que 95% das exportações ucranianas de cereais eram transportadas por via marítima a partir de portos bloqueados ou ocupados pelas forças russas em 2022.

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A interrupção do fluxo pelo Mar Negro, junto com as sanções à Rússia, impulsionou os preços globais dos alimentos desde fevereiro de 2022 – atingindo em cheio países como Bangladesh e Egito. Estima-se que mais 47 milhões de pessoas no mundo sofreram de fome aguda em 2022 devido aos efeitos de propagação da guerra.

Energia

Além dos alimentos, outro segmento afetado pela guerra além das fronteiras ucranianas e russas foi o de energia. Ironicamente, a sede de poder de Vladimir Putin alavancou planos de transição energética que permaneciam nas gavetas dos governos.

Em 2021, a Rússia foi responsável por cerca de 12% da produção global de energia, com 5,5% do carvão, 11% do petróleo e 17% do fornecimento global de gás, destaca o think tank Bruegel. A União Europeia (UE) era particularmente dependente do gás canalizado russo. No momento da invasão, os preços globais já estavam altos devido a um descompasso entre a oferta e a procura – o que só piorou.

Com os preços do carvão e do gás nas máximas, o custo da eletricidade para os consumidores também subiu, pressionando as finanças nacionais. Dados da Agência Internacional de Energia sugerem que mais de US$ 500 bilhões em despesas adicionais foram comprometidos para reduzir as contas de luz só em 2022, especialmente nas economias avançadas.

Por outro lado, a busca por alternativas ao gás russo fez o mundo reconhecer a necessidade de reduzir a dependência de combustíveis fósseis, tornando o investimento em energias renováveis quase um ato patriótico em vários países. A UE, por exemplo, planeia aumentar a cota de energia renovável para até 45% do consumo até 2030. Só a Alemanha aumentou a meta de 65% para 80% do mix energético no mesmo período.

A guerra também levou a uma procura urgente de novos parceiros estratégicos para substituir a energia russa, incluindo a África e o Médio Oriente. Isto está abrindo novas cadeias de abastecimento de energia de combustíveis fósseis em todo o mundo, favorecendo inclusive o Brasil.

Geopolítica

Desde o início do conflito, os Estados Unidos e, principalmente, a União Europeia, condenaram o ataque e passaram a fazer pressão política, financeira e econômica contra a Rússia. Ajudas financeiras e doações de armas, munições e equipamentos para o esforço de guerra ucraniano tornaram-se frequentes – um ímpeto que mudou a partir do segundo semestre de 2023.

A política interna dos EUA passou a questionar a necessidade de envolvimento direto num assunto que seria de maior interesse dos europeus. Ao mesmo tempo, houve a ascensão de partidos populistas nas eleições parlamentares em alguns países da Europa, às vezes com tendências pró-Rússia, como a Eslováquia.

Pelas contas do Wilson Center, entre agosto e outubro, o montante da ajuda autorizada à Ucrânia diminuiu 87% em comparação com o mesmo período de 2022. No momento, vários países têm enfrentado protestos de agricultores, incomodados com a concorrência dos grãos mais baratos vindos da Ucrânia.

Nos EUA, um novo pacote de ajuda de US$ 95 bilhões foi aprovado no início do mês pelo Senado, de maioria democrata – mas a Câmara, controlada pelos republicanos, saiu em recesso antes de votar o acordo. E a perspectiva do retorno de Donald Trump à Casa Branca torna o futuro ainda mais incerto, dada a simpatia mútua já declarada com Putin.